Bem-Estar

Da fixação por limpeza à organização excessiva: conheça mais sobre o TOC

A repetição dos rituais faz parte da rotina de quem sofre de transtorno obsessivo compulsivo. Muitas pessoas ficam aflitas se não concluem o ato; se são interrompidas começam tudo de novo.

A repetição dos rituais faz parte da rotina de quem sofre de transtorno obsessivo compulsivo. Muitas pessoas ficam aflitas se não concluem o ato; se são interrompidas começam tudo de novo.

Texto: Adrielle Demarchi, Ana Carolina Nasato e Natália Rocha*

“Eu queria tomar banho quatro vezes ao dia e achava que tudo estava sempre sujo. Se ficava sem banho eu achava que não podia sair de casa, porque as pessoas não podiam ver aquilo. Me sentia suja e fedida, mesmo que já tivesse tomado banho”. Maria Teresa esteve entre os 3% da população mundial diagnosticado com o Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), um transtorno mental que, de acordo com o psicólogo Laércio Braggio, faz com que pessoas desenvolvam algum tipo de obsessão e as faz acreditar que se não fizerem determinado ritual algo ruim vai acontecer. Laércio esclarece que o TOC pode ser tanto o sintoma de uma doença psicossocial quanto um transtorno em si.

Maria Teresa Pamplona, de 21 anos, não sabe exatamente o que originou o seu TOC, mas de acordo com a avaliação de seu psicólogo, o fator desencadeador foi o medo de ser julgada por seus colegas da escola por ter o cabelo oleoso; ela via como suas colegas na mesma situação eram tratadas e desenvolveu a obsessão. O problema é que o cabelo de Maria não era tão oleoso a ponto de precisar se preocupar com isso. Conforme o tempo foi passando, ela desenvolveu obsessão por limpeza, como relata no depoimento acima. Aconselhada pela irmã, que é psicóloga, Maria procurou ajuda profissional e começou a fazer terapia duas vezes na semana. Hoje a jovem está curada.

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O excesso de banho é um ritual comum entre as pessoas que possuem TOC por contaminação. (Foto: Ana Nasato)

A psicóloga Maira Butke explica que o TOC é gerado por diversos fatores, tanto genéticos/hereditários, quanto ambientais, porém, a origem sempre está ligada à história da pessoa. “O TOC é resultado de um trauma, um ou mais de um acontecimento específico que se torna um gatilho para o adoecimento.” Segundo a psicóloga, é na infância que a sensação de segurança é desenvolvida. Quando ela não ocorre de forma eficiente, torna a criança mais sensível a mudanças e obstáculos durante a vida. Isto adicionado a pessoas com personalidade controladora, que se sentem ameaçadas o tempo todo, resulta em comportamentos específicos que criam a ilusão de segurança. “O fator desencadeador pode acontecer na infância e ficar esquecido, até que em um determinado momento da vida adulta acontece um evento estressor que se liga a ele e desencadeia os comportamentos e pensamentos obsessivos compulsivos.”

Para Jalline Matos, o fator desencadeador surgiu quando ela tinha apenas 10 anos de idade. A segurança que sentia foi embora em poucos minutos. Enquanto dormia, sentiu seu cunhado perto de sua cama e, assustada, acordou. A tentativa de abuso piorou todas as pequenas manias que já tinha. Limpeza, organização, simetria, preocupações excessivas, culpa, fizeram com que a vida dela não fosse mais a mesma. “Nunca consegui ficar de boa em lugar algum. Sempre tensa, como se numa roupa apertada, desconfortável”, conta Jalline.

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Um simples controle remoto fora de simetria já desencadeia o desespero no paciente. (Foto: Ana Nasato)

O psiquiatra João Basanessi explica que o tratamento padrão para o TOC envolve dois pontos fundamentais: o uso de remédios, como antidepressivos, e psicoterapia, sendo a Terapia Cognitiva Comportamental a de maior eficácia científica. O psicólogo Laércio lembra que alguns autores defendem que a compulsão está em uma parte frontal do cérebro humano e que, hoje em dia, existem medicações específicas para este fim. Com o tratamento adequado, os dois profissionais concordam que os sintomas do TOC podem ser amenizados e administrados, pois a pessoa vai desfazendo seus rituais e perdendo a compulsão. “Eu já tive pacientes que se alguém pisasse com o pé sujo de areia no tapete da porta ele limpava o apartamento inteiro e passava álcool em tudo. Que qualidade de vida que uma pessoa assim tem? É preciso tratá-la para que ela possa ter uma vida normal e fazê-la entender que aquela sujeira não vai lhe fazer mal”, finaliza Laércio. Todavia, quando o assunto é a cura para o TOC, os dois discordam. João acredita não haver uma cura propriamente dita, mas apenas um alívio e controle dos sintomas, já Laércio diz que uma pessoa pode sim ser curada do TOC –  como é o caso de Maria Teresa.

Ouça a explicação do psicólogo Laércio Braggio sobre os neurotransmissores:

Infográfico
Arte: Adrielle Demarchi e Natália Rocha
Exercício físico e o tratamento do TOC

Um ponto unânime entre todos os profissionais consultados para esta reportagem é a eficiência do exercício físico no tratamento do TOC.  O paciente com TOC tem compulsões muito fortes, fica muito ansioso e busca a sensação de satisfação. Ao praticar exercícios físicos a pessoa produz substâncias químicas naturais como endorfina, serotonina e dopamina, que causam alívio e sensação de prazer, diminuindo a ansiedade. Laércio afirma que o exercício físico faz parte do tratamento do TOC e não é visto como uma abordagem alternativa ou secundária. “Se um paciente toma um medicamento que é receptor de serotonina, por exemplo, o corpo precisa produzir serotonina também.” O exercício físico auxilia na eficácia dos medicamentos.

Vado Rubineck Nogara conta que sempre foi muito ansioso e por causa disso procurou um neurologista. Assim que entrou no consultório, ouviu do médico o diagnóstico: “Você tem TOC”. Apesar de ser de nível leve, Vado não sai de casa sem tocar o dedo na porta ao trancá-la, sempre que faz algo com um lado do corpo tem que fazer com o outro também, quando passa muito rápido de um canal para o outro na TV e tem a impressão de que viu alguém conhecido, é obrigado a voltar para confirmar, por precaução. Ele, além de ter de conviver com isso, tem que lidar com a negação dos sintomas, pois não admite ter que fazer tais coisas para se sentir bem. “A gente sabe que não faz sentido racionalmente, mas é mais forte.”

Para controlar os rituais, Vado toma um medicamento específico e, quando consegue, faz atividade física. Ele relata que se sente melhor com os exercícios porque relaxa mais e fica menos ansioso.

A psicóloga Maira enfatiza que os exercícios não agem apenas como produtores de substâncias químicas, mas também dão à pessoa com TOC um novo objetivo de vida, pois reduzem o foco sobre o comportamento compulsivo, e fortalecem os sistemas imune e circulatório do corpo humano, que precisam cumprir a sua função, principalmente, durante o tratamento. “O indivíduo com TOC é exposto a estresse contínuo e o exercício ajuda a diminuí-lo; os batimentos cardíacos também costumam aumentar em situações assim, e o exercício diminui a sensação de perda de controle, que é um dos gatilhos para o comportamento compulsivo e pensamentos obsessivos”.

Além dos exercícios físicos, os exercícios mentais também auxiliam no tratamento do TOC. João classifica a Yoga e o Tai Chi Chuan como as alternativas mais eficazes. Outra técnica interessante, segundo o psiquiatra, é o mindfullnes (ou atenção plena, na Língua Portuguesa), pois ajuda a focar no momento presente, a concentrar-se. Jalline relata que procura ler e sempre manter a mente focada em outras coisas. Ela faz exercícios físicos há dois anos, e conta que diminui bastante sua ansiedade.

Mania X TOC

As pessoas possuem várias manias, como coçar o nariz, mexer a perna e bater a caneta na mesa quando estão nervosas. As manias fazem parte do dia a dia, mas é preciso tomar cuidado para que elas não comecem a interferir na sua vida. O psicólogo Laércio explica que a pessoa que tem TOC se não realizar o ritual entra em desespero. “Se ela não abrir e fechar a porta sete vezes, por exemplo, ela tem a sensação de que vai acontecer uma catástrofe. Ela entra em pânico”. Uma pessoa que tem apenas uma mania já não sente esse desespero e para com o ato sem problemas, pois tomou consciência do que estava fazendo. Quem tem TOC até percebe o que está fazendo, mas não consegue parar, e se for interrompida no processo vai começar de novo.

TOC 2
Se alguém interromper a pessoa durante o ritual, ela fica nervosa e começa tudo de novo. (Foto: Ana Nasato)

Para a psicóloga Maira, deixa de ser mania “quando os pensamentos obsessivos e comportamentos compulsivos causam sofrimento e danos em um ou mais de um destes aspectos: vida pessoal, profissional ou emocional”. No TOC as pessoas têm tanta preocupação com o ritual, que muitas vezes acabam perdendo o controle sobre suas ações, o que acaba por interferir na vida como um todo, destruindo a carreira, a confiança e até o casamento, como é o caso da Jalline. Ela foi diagnosticada tardiamente, com apenas 33 anos, quando já estava em processo de divórcio. Hoje, à base de medicamentos, se sente melhor, com menos manias de limpeza e organização, pensamentos de contagem e de culpa reduzidos. Ela acredita que nunca vai se livrar totalmente da obsessão, mas com o tratamento sente que pode levar uma vida mais normal.

Saiba como identificar o transtorno:

Ilustração TOC

Filmes e seriados que abordam o tema:

Filmes

Para saber mais sobre o tema, leia o manual do transtorno obsessivo compulsivo.

* Essa reportagem é resultado da disciplina de Jornalismo Científico, sob orientação da prof. Valquíria Michela John.

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