Comportamento

Genderless: porque roupa não tem gênero

Tendência de roupas sem gênero, possíveis de serem usadas por qualquer pessoa, conquista o atual mercado da moda

Tendência de roupas sem gênero, possíveis de serem usadas por qualquer pessoa, conquista o atual mercado da moda

Texto: Iana Girardi e Lucas Machado
Edição: Mariana Ricardo

A moda unissex surgiu em meados do século XX, quando influências da moda como Coco Chanel e Marlene Dietrich começaram a buscar ideias no guarda roupa masculino para vestir as mulheres mais confortavelmente. Desde então o universo feminino vem buscando cada vez mais referências no estilo dos homens. Mas foi no ano passado, com desfiles de grifes famosas, como Gucci e Prada, que esse estilo tomou força e começou a ganhar cada vez mais reconhecimento.

Porém, o que chamamos hoje de moda unissex não é a mesma criada quase cem anos atrás. A tendência recebeu o novo nome, genderless ou agender (sem gênero), e passou a englobar cada vez mais os homens, permitindo que eles também possam utilizar peças antes rotuladas como femininas. O conceito de moda sem gênero sugere basicamente a quebra dos rótulos “feminino” e “masculino”, seguindo a ideia de que as roupas devem ser produzidas para vestir ambos os sexos.

Esse conceito surgiu a partir de outro, conhecido como Ideologia de Gênero, que defende a ideia de que gênero não se restringe apenas em “homem” e “mulher”. Cada indivíduo tem o poder e a liberdade de escolher a qual gênero pertence de acordo com o que se identifica. São essas fronteiras que a moda genderless pretende ultrapassar, firmando a ideia de que não existem roupas para homens e mulheres, mas apenas roupas.

O estudante de Design de Moda da Univali, Rafael Lourenço, explica que hoje a moda se tornou uma forma de expressão, sendo o estilo um importante meio pelo qual as pessoas expressam sua identidade para si e para os outros. Por isso ele acredita que a moda pode ser um elemento fundamental na luta pela ideologia de gênero. “A aceitação da moda genderless se torna primordial para que a sociedade aprenda a aceitar todas as formas de ser e é também fundamental para que as pessoas possam se expressar sem medo de violência e julgamento”, afirma.

No Brasil, a principal marca a adotar o movimento foi a rede de lojas C&A, que criou coleções e propagandas inspiradas no conceito agender. Em sua última ação publicitária, a marca mostra casais heterossexuais trocando de roupa entre si, vestindo peças com os gêneros alternados. A campanha, feita para o Dia dos Namorados, tem como bordão “misture, ouse e experimente a moda da forma que quiser”.

Apesar das criticas positivas, a loja acabou se tornando alvo de comentários contrários ao movimento. O escândalo de mais repercussão envolvendo a loja foi o texto que a cantora gospel Ana Paula Valadão publicou em seu Facebook. No post, a cantora se mostra indignada com as campanhas e propõe um boicote à marca.

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Trecho da publicação de Ana Paula Valadão sobre a campanha da rede C&A

O estudante de Relações Públicas, Matheus Pegoraro, pesquisou sobre o genderless em seu Trabalho de Iniciação Cientifica (TIC) e explica que um dos fatores que contribui para a má aceitação do movimento por uma parte do público é o fato de a moda agender ainda ser muito associada com a comunidade LGBT, apesar de abranger também os heterossexuais. “Pessoas conservadoras e com medo daquilo que é diferente de certa forma se assustam com essas ‘mudanças’, acabando por reprimir o movimento”.

E são dessas repressões que a loja C&A não consegue fugir. Após sua campanha feita para o Dia dos Namorados, intitulada de “Dia dos Misturados”, além do boicote proposto pela cantora gospel e seus seguidores, a loja teve de enfrentar também um processo aberto pelo Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária. A propaganda, assinada pela AlmapBBDO, será avaliada pelo Conselho de Ética do Conar, depois de ser alvo de quatro reclamações de consumidores questionando a responsabilidade moral e social da rede.

O estudante Rafael Lourenço defende a rede varejista C&A e acredita que a ideologia de gênero é importante para a sociedade caminhar para uma maior aceitação e educação sobre gênero e sobre o diferente. “A ideologia de gênero será necessária até quando não houver mais resistência das pessoas, preconceito e violência”, afirma. Assim como Rafael, Matheus também acredita na força da ideologia. “Naturalmente a sociedade vai caminhar para uma miscelânea em que aquela figura óbvia de ‘homem’ e ‘mulher’ não vai mais precisar ser seguida”.

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