Comportamento

Educação dos filhos: quando a disciplina se torna agressão?

Muitos pais defendem a palmada como método de disciplina. Mas e quando o autoritarismo é excessivo e se torna uma agressão? Como diferenciar um castigo de uma violência?

Muitos pais defendem a palmada como método de disciplina. Mas e quando o autoritarismo é excessivo e se torna agressão? Como diferenciar um castigo de violência?

Texto: Letícia Maia, Mariana Campos e Paula Leão
Edição: Juliana Costa

A notícia sobre o menino japonês Yamato Tanooka, de cinco anos, que foi abandonado pelos pais em uma floresta, levantou um debate no mundo todo. Afinal, o que deve ser considerado um método de disciplina e o que deve ser considerado agressão?

São muitas as dúvidas quando se trata da criação dos filhos. Bater ou não bater? Autoritarismo ou conversa? Por um lado, a cultura da palmada está enraizada na sociedade brasileira como maneira eficaz para educar as crianças. Por outro, muitos especialistas defendem que agredir não é a solução.

A visão dos pais

“Eu me considero uma mãe autoritária, porque exijo obediência da minha filha”. É assim que se define Priscila Schveitzer, técnica de enfermagem de 33 anos. Ela foi mãe aos 27 e desde então tem criado a filha, Hermione, de seis anos, com autoritarismo. Para Priscila, isso significa dar limites, ser exigente e rígida e estabelecer consequências caso as ordens não sejam cumpridas.

Na opinião de Priscila, a criança deve ter respeito e medo dos pais. Caso contrário, os filhos passam a fazer o que bem entenderem, tanto em casa quanto em outros lugares.  Para ela, desde criança é preciso impor regras para que saibam cumpri-las quando crescerem. “Criança não pode ter liberdade demais, porque eles nos testam a todo instante. E só se põe limite em criança sendo autoritário”, comenta. “Conversar não adianta. Os pais viram as costas e os filhos vão fazer pior. Por eu exigir obediência, hoje todos gostam da minha filha, porque ela é uma menina educada”.

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Priscila e a filha, Hermione. (Foto: Arquivo Pessoal).

Priscila defende que a maioria dos adultos de hoje não foram criados com base na conversa e são batalhadores, diferentemente dos jovens atuais. “Eu acredito que até hoje nenhum pai errou por criar o filho com autoritarismo, com exigência. Antigamente, muitas crianças tinham medo só do olhar do pai, sem que ele precisasse falar nada. Agora, esses adolescentes de hoje não querem nada da vida porque foram criados na base da conversa”, exemplifica.

A visão dela vem da própria infância. Priscila foi criada por sua avó, que algumas vezes lhe dava palmadas. Para ela, isso não abala o psicológico. Mas quando a criança cresce em um ambiente onde é insultada e desrespeitada, sim, é preciso rever os conceitos. “Uma palmada não vai fazer mal a ninguém. Acho que faz parte. Espancar é uma coisa e dar uma palmada é outra. Dar um castigo e tirar privilégios faz parte da educação. Não vai maltratar a criança, tem que ter limite”, argumenta.

Acredito que essa criação que eu estou dando para minha filha está sendo a melhor maneira. Onde ela vai ela fica quieta, tanto que ela é elogiada por todos que a conhecem. Posso levar ela pro trabalho quando preciso, porque sei que ela não vai incomodar. Muita gente me elogia por causa disso, pelo jeito como eu crio ela. Aqui em casa somos só eu e ela. Eu a ajudo e ela me ajuda. Vai ter a liberdade dela e os amigos, mas também vai me ajudar”. – Priscila Schveitzer, técnica de enfermagem.

Na casa de Grasiela Porto Demarchi, 39 anos, é um pouco diferente. A terapeuta vive com a filha Maria Clara, de cinco anos, na ecovila de Piracanga, localizada no estado da Bahia. Lá, só se usam produtos biodegradáveis, não há portas nas casas, as pessoas vivem sem medo e as crianças são prioridade.

Para Grasiela, morar em Piracanga é uma experiência única e que ajuda muito na criação da filha. Viver em meio à natureza e conhecer todos os moradores são grandes diferenciais. “Vivemos como uma grande família. Minha filha tem um espírito coletivo muito forte e compreende as regras de boa convivência, pois somos responsáveis por tudo aqui. A ecovila se sustenta pelas nossas ações conjuntas e minha filha já sabe disso”, explica.

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Grasiela e a filha, Maria Clara. (Foto: Arquivo Pessoal).

Grasiela acredita que a liberdade é vital para a criação dos filhos, mas que os limites, estabelecidos com amor, também são necessários. “Sem liberdade, a criança passa a ser quem querem que ela seja e não quem ela é. Aqui deixamos as crianças o mais livres de interferências de projeções dos adultos quanto possível. Permitimos as crianças serem crianças e respeitamos muito seus espaços, seus corpos e suas expressões criativas. Mas coloco os limites necessários para minha filha compreender a convivência com o outro de forma harmoniosa e amorosa”, conta Grasiela.

“Limites colocados com estupidez e violência geram muitos traumas e rompem com a liberdade da criança de ser criança. Autoritarismo é querer impor algo por se colocar em lugar diferenciado de pai e mãe, e isso não é amoroso e nem saudável. Causa grandes estragos de convivência”, defende Grasiela. “Nenhum ser precisa de disciplina. O que é necessário mostrar para as crianças é que, para vivermos neste planeta todos juntos, precisamos de regras de convivência, que começa delimitando os espaços”.

Segundo Grasiela, as crianças de Piracanga são seguras de si, responsabilizam-se por tudo desde cedo e criam suas próprias consequências dos acordos não cumpridos. “Eles têm a mesma autoridade de dizer sim e não de um adulto e respeitamos isso, assim como eles nos respeitam. Cada um limita seu próprio espaço e isso resulta em uma convivência com mais respeito”, comenta.

A alternativa mais eficaz é a gente observar o nosso próprio comportamento. As crianças são reflexos dos pais. Às vezes olhando para a gente e corrigindo algo em nós, modificamos o comportamento da criança”. – Grasiela Porto Demarchi, terapeuta.

“Raramente damos uma consequências quando precisamos mostrar que algum acordo ou regra foi descumprido. Quando a criança não percebe, mesmo conversando, que não respeitou algum acordo ou regra, aí sim. Nunca batemos. Aqui raramente vemos crianças gritando e esperneando. E a Maria é uma criança muito amorosa, criativa, espontânea, sabe o que quer e sabe os seus limites”, completa.

A visão dos especialistas

A psicóloga e pedagoga Karina Kaltenbach Ullrich define que dar limites aos filhos os prepara para a vida, mas que isso não deve ser feito com abuso de poder por parte dos pais. “Fora do ambiente familiar, os outros nem sempre estarão dispostos a realizar as suas vontades. As crianças terão, portanto, que se deparar com o desejo do outro também e conviver em sociedade. Porém, o autoritarismo não garante a construção de limites na infância, até mesmo pode gerar efeito contrário. A criança necessita também ser escutada”, explica.

“É possível ser a autoridade sem que seja preciso ser autoritário. Autoritário lembra imposição e essa nem sempre é a melhor ferramenta”, defende Karina. “O que se faz necessário é o comprometimento dos pais diante da educação dos filhos, agindo com respeito, considerando o filho como sujeito, escutando e orientando”. Segundo ela, os pais devem ter em mente que os filhos nem sempre ficarão satisfeitos com a orientação que lhes foi dada, mas que isso se faz necessário naquele momento.

Stephanie Machado Barbosa, também psicóloga, afirma que o aconselhável é impor respeito, não medo. “Ser autoritário é ser dominador. O que a criança precisa é de alguém que a respeite e não que a domine”, comenta. Segundo ela, o afeto também faz diferença na imposição de limites, contribuindo para o vínculo familiar, então é preciso encontrar um equilíbrio. “O autoritarismo impõe medo na criança, o que não é benéfico para a sua percepção de mundo. A falta de limites ensina que a vida é do jeito que a criança quer, e não é essa a realidade. Ambos fazem com que a criança se torne, possivelmente, um jovem revoltado e um adulto frustrado”, defende.

Para Karina, é importante que a criança perceba as consequências dos atos dela, para que ela não os repita e entenda que não se deve fazer isso, mas que o castigo depende de cada criança, que reage de forma diferente. “O castigo, quando necessário, não deve persistir por mais de uma semana. O ideal é um ou dois dias, para que neste período ela saiba por que está de castigo. Já presenciei situações em que a criança estava mais de castigo do que sem, então a função do castigo se perdeu e ela não sabia mais porque estava de castigo”, orienta.

Segundo Stephanie, definição de castigo é relativa e que é mais importante pensar na forma como é imposto do que o castigo em si. “Existem situações em que a frustração é necessária para se aprender, e isso é visto, muitas vezes, como castigo”, explica. Ela ainda aponta que é preciso refletir sobre a conduta da criança e entender qual a sua necessidade para fazer a escolha de dar ou não um castigo a ela.

Além disso, Karina destaca que nem sempre é necessário bater e tirar privilégios para educar. “Existem várias outras formas de disciplinar os filhos sem precisar se utilizar destes artifícios”, completa. Stephanie também não aconselha, mas que cada caso é diferente. “O ruim é virar rotina, se tornar a única forma de educar. Tudo depende do que os pais dão conta para fazer o filho aprender”, comenta.

Acredito que cada pai e que cada mãe sabe o que dá conta e o que não dá conta na criação e educação de seu filho. Por isso, equilíbrio sempre existe e é interessante sempre buscá-lo. Não existe um manual prático, mas a vivência sempre manda sinais”. – Stephanie Machado Barbosa, psicóloga.

Estatísticas e legislação

Segundo dados de 2014 do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), quase um bilhão de crianças entre dois e 14 anos sofrem punições físicas de seus responsáveis regularmente. Isso corresponde a dois terços das crianças dessa faixa etária no mundo.

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(Infográfico: Mariana Campos).

A Lei número 13.010, de 26 de junho de 2014, prevê a proibição de castigos físicos e tratamentos cruéis a crianças. Anteriormente conhecida como Lei da Palmada, hoje leva o nome de Lei Menino Bernardo, em homenagem a Bernardo Uglione Boldrini, menino de 11 anos que foi morto pelo pai, madrasta e amiga da madrasta no Rio Grande do Sul em 2014.

Art. 18 – A. A criança e o adolescente têm o direito de ser educados e cuidados sem o uso de castigo físico ou de tratamento cruel ou degradante, como formas de correção, disciplina, educação ou qualquer outro pretexto, pelos pais, pelos integrantes da família ampliada, pelos responsáveis, pelos agentes públicos executores de medidas socioeducativas ou por qualquer pessoa encarregada de cuidar deles, tratá-los, educá-los ou protegê-los.

Parágrafo único.  Para os fins desta Lei, considera-se:

I – castigo físico: ação de natureza disciplinar ou punitiva aplicada com o uso da força física sobre a criança ou o adolescente que resulte em:

a) sofrimento físico; ou

b) lesão;

II – tratamento cruel ou degradante: conduta ou forma cruel de tratamento em relação à criança ou ao adolescente que:

a) humilhe; ou

b) ameace gravemente; ou

c) ridicularize.

3 comentários

  1. Importante abordagem esta matéria sobre educação de filhos. Os pais vão também aprendendo a ser pais ao longo do relacionamento com as próprias crianças. É também colocam em análise neste exercício os próprios valores recebidos em sua própria educação.

  2. Este tema é muito interessante e nos faz refletir sobre alguns conceitos referentes à educação do filhos. O que acontece é que, nós pais, geralmente queremos o que nos é conveniente. Por isso eu defendo a expressão da liberdade e do amor. Muito boa esta abordagem… Parabéns!

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