Arte e Cultura

Sou gaúcho, sim senhor! Catarinenses mantêm viva a cultura gaúcha

Nem mesmo a chuva atrapalhou a realização do 15º Rodeio Crioulo Nacional do CTG Esteio da Tradição em Barra Velha. O evento reuniu milhares de tradicionalistas da cultura gaúcha

Apelo familiar fortalece o meio tradicionalista gaúcho como um fenômeno sócio-cultural e mantém vivo os costumes do campo.

Texto: Alan Willian e Talissa Peixer
Edição: Luzara Pinho

Frio, chuva e lama. Esse foi o cenário para o 15º Rodeio Crioulo Nacional que aconteceu em Barra Velha, entre os dias 17 e 19, no CTG Esteio da Tradição. As botas de couro deram lugar às galochas de borracha e o pelego de lã está coberto por um plástico. O cavalo já está encilhado e agora o peão faz os últimos ajustes no laço. Quando a porteira do brete abrir, será ele e o boi. Não que isso tenha sido motivo de medo para o pequeno Gustavo Chiuff. Com apenas 9 anos de idade ele já coleciona troféus e na sua cidade natal certamente não seria diferente. Pulso firme e lá foi mais uma armada certeira. O laço cai com perfeição sob o chifre do gado.

O tiro de laço é a principal modalidade campeira dos rodeios crioulos. Diferente da cultura country onde o foco são as montarias em touro, aqui a cultura gaúcha é cultivada através das atividades que remetem a lida no campo e, principalmente, aos costumes riograndenses. Apesar de nascido em Santa Catarina, Gustavo vai logo avisando, “eu sou gaúcho.” A resposta parece estar na ponta da língua para todos aqueles que cultivam essa tradição. O pai, Oséias Chiuff, afirma que “ser gaúcho é estado de espírito.”

Aliás, Oséias é o parceiro do filho na competição. Como uma cultura familiar, o rodeio institui categorias como Avô e Neto e também Pai e Filho. Em Barra Velha não teve boi que tirasse o laço das guampas e nem adversário que tirasse o troféu das mãos da dupla. Após três armadas, como é conhecida cada vez que o peão entra na cancha para laçar, o título veio. “Ele começou desde pequeninho laçando na vaca parada. Quando ele pediu pra laçar no boi vivo fiquei com medo, mas agora o menino tá melhor que o pai,” disse Oséias.

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Oséias e Gustavo passeiam na cancha e levam o título / Foto: Arquivo Pessoal

E assim como nas competições, o comando do Centro de Tradições Gaúchas também tem passado de pai para filho. Ederson Borges tornou-se o patrão do CTG após a morte de seu pai Eduardo Borges em 2012. O garoto que cresceu ajudando o pai agora tem em suas mãos o controle de um dos principais rodeios do estado. “Isso aqui é um legado. Foi construído com muito carinho e busco sempre fazer do jeito que meu pai gostaria que fosse,” contou. Edinho, como é conhecido, conta com a ajuda da irmã, a jovem Edinéia Borges.

Apesar de ser conhecido como um meio rústico, os rodeios também tem seu toque feminino. Prendinha, Prenda ou Adulto, seja lá qual for a categoria, elas invadem a cancha e fazem bonito na hora de laçar. Edineia também já conquistou alguns troféus, mas dentro do CTG da sua família ela prefere ficar na administração.

A emoção toma conta da família Borges na hora da abertura oficial do rodeio. Após a entrada da cavalaria é hora de agradecer e pedir proteção à padroeira: Nossa Senhora Aparecida. As lembranças do pai Eduardo Borges, devoto fiel da santa, tomam conta não só da família, mas de todos os presentes. Vitor Hugo, ou Vitinho como é conhecido, pega o microfone e logo solta um verso que faz até mesmo o gaúcho mais rude derramar algumas lágrimas. Edinho não se contém com a homenagem e se emociona.

Além do tiro de laço e gineteada que compõem a parte campeira, a cultura gaúcha tem também a parte artística. Assim como o verso de improviso, tem também as declamações de poesia, sapateados e, é claro, os fandangos de galpão. Daí é só escolher seu par e sair dançando pelo salão.

Cultura em SC

Em sua maioria, os CTG’s constituídos em outros estados brasileiros e até mesmo no exterior foram fundados por migrantes riograndenses, dando origem a um fenômeno sócio-cultural. O estado de Santa Catarina foi o primeiro a receber esse fluxo de migrantes no século passado e atualmente é o segundo maior em número de CTG’s e, consequentemente, adeptos do gauchismo fora do Rio Grande do Sul. De acordo com o presidente do Movimento Tradicionalista Gaúcho de Santa Catarina, Orides Luiz Pompeo, o estado possui atualmente 623 CTG’s filiados ao movimento.

No entanto, diferente dos outros estados, a maioria dos Centros de Tradições Gaúchas não foram formados por riograndendes e sim pelos próprios catarinenses que simpatizavam com a cultura. O primeiro CTG criado em Santa Catarina é de 1957, com o nome de “Fronteira da Querência” em Concórdia, região Oeste do estado. O segundo, 1959, foi o “Barbicacho Colorado” em Lages. O Oeste recebeu a maior leva de migrantes até a metade do século passado. A partir de 2000 esse fluxo mudou para o litoral. Atualmente a região do Vale do Itajaí possui o segundo maior número de CTG’s no estado, perdendo apenas para a região de Lages.

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Disposição dos CTG’s em território brasileiro. Gráfico: Edinéia Pereira da Silva

Rodeios em Crise

Apesar do crescente número de CTG’s pelo estado de Santa Catarina, a cultura começa a passar dificuldades. Seu principal adversário são as entidades protetora dos animais. A briga judicial mais recente aconteceu em abril desse ano em Joinville, Norte do Estado. O rodeio do CTG Chaparral por pouco não foi cancelado na data em que comemoraria seus 40 anos. Uma decisão do Ministério Público cancelou o rodeio três dias antes da sua realização. Motivo? O mesmo de sempre: alegava que haveria maus tratos dos animais durante o evento. No entanto, uma liminar no penúltimo dia reverteu a situação e o rodeio aconteceu.

O patrão do CTG, Ciro Harger, lamenta que a cultura esteja sendo banida e avalia em 95% a chance do rodeio não acontecer em 2017. Ele afirma que seu rodeio é alvo de ações judiciais todos os anos movidas pela mesma entidade, porém acabam sendo derrubadas por falta de prova. “Isso nos prejudica muito. Soltar uma notícia dessa dias antes do evento afasta os visitantes. Muitos competidores cancelaram a vinda para Joinville por causa dessa indecisão,” disse.

Tramita no Senado Federal a PL 1767/2015, de autoria do Senador paulista Capitão Augusto (PR). A ementa eleva o Rodeio, bem como suas manifestações artístico-culturais, à condição de patrimônio cultural imaterial do Brasil. A aprovação desse projeto é aguardada com ansiedade por todos os tradicionalistas que esperam realizar seus rodeios sem mais ameaças de interrupção.

 

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