Arte e Cultura

Pesquisa em arte sequencial leva quadrinhos para a sala de aula

Quadrinhos e educação podem ser uma combinação inesperada, mas que funciona. Saiba mais sobre a pesquisa que utiliza as histórias de super-heróis para ensinar.

Quadrinhos e educação podem ser uma combinação inesperada, mas que funciona. Saiba mais sobre a pesquisa que utiliza as histórias em quadrinhos para ensinar.

Texto: Letícia Maia, Mariana Campos e Paula Leão
Edição: Juliana Costa

Já pensou em estar na aula e o professor lhe apresentar uma matéria ilustrada e embasada em quadrinhos? Estranho ou divertido? Fazer o aluno compreender e assimilar os conteúdos são tarefas cada vez mais árduas para os professores de diversas áreas do ensino. Elaborar projetos de pesquisa voltados aos interesses dos estudantes, mais ainda. Hoje já existe um projeto de pesquisa que junta quadrinhos com educação.

Iuri Andréas Reblin, de 38 anos, é professor de ensino superior em São Leopoldo (RS). Ele é um dos membros da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial (Aspas), pesquisador associado à Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (USP), com doutorado em Teologia e Pós-doutorado em Ciências da Comunicação. Iuri é um dos percursores e responsáveis pelo projeto de pesquisa que busca entender a forma com que as histórias em quadrinhos podem contribuir para o processo de ensino e aprendizagem no contexto escolar.

Vencedor do Prêmio Capes de Tese 2013, Iuri conta que o amor pelos quadrinhos vem de longa data e que a diversão passou a dar espaço ao conhecimento e às pesquisas na área voltada para a educação. “Cresci acompanhando muitos seriados, filmes e desenhos animados. Isso tudo criou um envolvimento com a cultura da mídia, com a cultura pop. Quando ingressei na graduação, minhas monografias semestrais e meu Trabalho de Conclusão de Curso acabaram sendo voltados a esses temas e estive envolvido com eles durante o mestrado, o doutorado e o pós-doutorado, publicando vários materiais na área”, comenta.

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Iuri Andréas Reblin. (Foto: Arquivo Pessoal).

As pesquisas em arte sequencial atuam hoje em diferentes vertentes, mas com o mesmo objetivo. Iuri explica que uma das vertentes engloba a coordenação de um grupo de pesquisa interdisciplinar sobre arte sequencial, mídias e cultura pop, que se reúne quinzenalmente para discutir os temas.  “O componente principal deste grupo de pesquisa é a produção de conteúdo para diferentes mídias, como o blog Infosfera, da Rádio Atlântida, aproximando a reflexão acadêmica do dia a dia das pessoas”, explica.

A outra vertente trata da realização de uma pesquisa direcionada aos estudos e estágios pós-doutorais na Escola de Comunicação e Artes da USP. A pesquisa analisa a relação entre religião e histórias em quadrinhos nas narrativas dos super-heróis e de que forma essas histórias podem contribuir para o processo de ensino e aprendizagem no contexto escolar. “A ideia inicial sempre foi mostrar que não são poucos que pesquisam quadrinhos e que usam estes estudos em sala de aula”, conta.

O estudo é inserido na educação em duas com duas direções, sendo uma destas a realização de oficinas com docentes da educação básica sobre histórias em quadrinhos e mídias em geral. Iuri explica que nessas oficinas, além de conversar sobre possibilidades de uso e realizar experimentações, há a socialização do que se tem pesquisado e produzido no meio acadêmico sobre quadrinhos em contexto de sala de aula.

“O fato é que há muita coisa produzida, mas que por muitas razões não alcança grande divulgação. Às vezes são publicados por editoras pequenas, sem grande poder de circulação. Outras vezes permanecem no formato de teses e dissertações. Por meio de oficinas, há um trabalho que visa fornecer subsídios, trocar experiências com quem está vivendo o dia a dia da escola”. – Iuri Andréas Reblin, professor e pesquisador.

Outra maneira de inserção da pesquisa sequencial na educação é a produção de material didático, voltado às aulas de ensino religioso, projeto atual que Iuri dá segmento em sala de aula. “Um dos objetivos é que a produção desemboque em um material de fácil acesso, de viés didático, para docentes da Educação Básica, dando algumas ideias sobre como aprender com quadrinhos em aulas de Ensino Religioso”, explica.

Gelson Weschenfelder, de 36 anos, é professor em Canoas (RS). Ele também utiliza os quadrinhos como forma de ensino e a ideia surgiu a partir da necessidade de tratar questões didáticas para introduzir temas filosóficos.  “Com esta dificuldade, veio a necessidade de buscar algo novo, diferente, que chamasse a atenção dos alunos para minha matéria. Foi assistindo de novo a alguns filmes de super-heróis que percebi que algumas frases que norteiam a vida dos personagens também trazem questões filosóficas”, conta.

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Gelson Weschenfelder. (Foto: Arquivo Pessoal).

Gelson explica que foi uma ótima experiência e que poder juntar duas paixões – filosofia e quadrinhos – deu um grande salto na sua maneira de dar aulas. São dez anos de pesquisa na área, juntamente com um mestrado e doutorado em educação, pesquisando histórias em quadrinhos e suas interfaces com a educação.

Os métodos utilizados para ensinar com os quadrinhos variam dependendo da disciplina. Gelson costuma usar alguns enredos das histórias como forma de introduzir questões das ciências humana, como história, geografia, teologia, sociologia e filosofia. Incentivar a criação e a imaginação nas criações de histórias e enredo é um dos objetivos do professor, já que para criar um quadrinho é necessário alguém que crie o roteiro, que desenha e que coloque os balões com as falas.

Os quadrinhos deixaram de ser apenas entretenimento para virar educação. Segundo as pesquisas em arte sequencial, leitores de histórias em quadrinhos têm uma percepção de mundo maior do que aqueles que nunca leram. Além de possuírem hábitos de leitura, os dados mostram que, no Brasil, 73% dos leitores de quadrinhos são graduados ou estão buscando uma qualificação no ensino superior.

Assim como Iuri, Gelson acredita que o entretenimento é um grande instrumento pedagógico. “Utilizo em minha pesquisa quadrinhos de super-heróis para tratar de questões filosóficas, históricas, sociológicas, antropológicas, incluindo ética, moral, justiça, história e mitos, resiliência, gênero, entre outros”, afirma.

Já Iuri utiliza bastante os quadrinhos de super-heróis com enfoque em questões religiosas e de construção da sociedade, cultura e da vida humana como um todo. Ele afirma ainda que os super-heróis são interessantes por lidarem com uma dinâmica e um impacto globalizante e com arquétipos universais, além de se inserirem diretamente na Indústria Cultural e Cultura de Massa.

Dentre os mais utilizados em sala de aula por Iuri e Gelson estão Snoopy – também conhecido como A Turma do Minduim ou Os Peanuts –, Mafalda e Um Sábado Qualquer. “No fundo, qualquer quadrinho pode se tornar um recurso para o processo educativo, dependendo da proposta do que se quer ensinar”, conclui Gelson.

 

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