Bem-Estar

Amamentação: não é ordem, é orientação

Quem pensa que toda mãe tem a obrigação de amamentar, se engana. Muitas não conseguem e se culpam por isso, sem necessidade

Quem pensa que toda mãe tem a obrigação de amamentar, se engana. Muitas não conseguem e se culpam por isso sem necessidade.

Texto: Bárbara Porto Marcelino e Lucas Rosa
Edição: Luana Cristina
Fotos: Arquivo Pessoal e Bárbara Porto Marcelino

Quando uma mulher engravida, tudo ao seu redor se transforma. A casa passa a ter mais um quarto, o marido perde a sua identidade para virar “o papai” e a sessão infantil do supermercado passa a entrar na lista de compras. A rotina em geral centraliza-se na chegada desse novo ser. Mas a maior mudança é a que acontece internamente, no corpo e na cabeça das futuras mamães. Embora os benefícios da amamentação sejam amplamente divulgados, esta ainda é uma das principais questões que geram dúvidas. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que o aleitamento materno seja exclusivo até os seis primeiros meses do bebê. No entanto, há casos em que a mãe fica impossibilitada de amamentar e complementa – ou substitui – a alimentação da criança com fórmulas especiais de leite em pó.

Para a professora, ginecologista e obstetra Dra. Ana Comin, a recomendação da OMS não é uma ordem e, sim, uma orientação para que as mulheres tentem amamentar, para que não desistam nos primeiros dias, devido à dor ou à demora na descida do leite. “Realmente a amamentação pode provocar dor nos primeiros dez dias, mas hidratando o mamilo com o leite e fazendo banho de luz a mãe supera isso e vem a recompensa da amamentação. A demora na descida do leite também não pode ser motivo de desistência”, ressalta. Ainda assim, acrescenta: “existem, sim, situações em que a mãe não consegue ou o bebê infelizmente não faz a pega. Na opção de não fazer a pega, a mãe pode tirar o leite e ofertá-lo em copinho ou até em mamadeira. Já nos casos em que a mãe não tem leite, o que é raro, o pediatra vai eleger o melhor leite para aquele bebê ter um bom desenvolvimento”.

Confira, neste link, mitos e verdades sobre a amamentação

Amanda Felippe, estudante de 21 anos e mãe de Luísa, conta que, nas primeiras vezes, o leite não saiu, só o colostro – um fluído amarelado que é liberado antes do leite e que deve ser dado ao bebe, pois é rico em proteínas. “É a melhor sensação do mundo saber que ela se alimenta por mim. No começo, sentia muita dor, eu amamentava chorando. Meu peito não sangrou, mas ele rachou um pouco durante os primeiros 15 dias. Até pensava em desistir, mas sempre soube que é muito importante para ela e, então, continuei”, admite.

FOTO 2
Amanda e sua filha Luisa

A maior parte das dificuldades das mães que não conseguem amamentar, segundo a Dr. Ana, está associada à insegurança e a pensamentos como: “e se eu não conseguir, e se eu não tiver leite?”. A ansiedade, por sua vez, atrapalha a descida do leite. “Outras mães, uma minoria, não têm o desejo real de amamentar, apenas querem agradar o marido ou a avó do bebê, mas não se dedicam. E sabemos que amamentar é cansativo, demanda calma, perseverança, tranquilidade e dedicação, pois bebês não nascem sabendo mamar. E ainda existe uma porcentagem que não consegue amamentar devido cirurgias em mamas”, explica Dra. Ana.

Veja aqui as diferentes posições para amamentar de maneira confortável

A profissional esclarece, ainda, que é durante a amamentação que se completa o desenvolvimento das mamas. Isso faz com que elas mudem de formato e consistência. “A flacidez dos seios ocorre devido à gravidez, não por amamentar”, ressalta. O corpo prioriza energia na amamentação, para produção de leite e para proteger a saúde da mãe. Esse aspecto contribui para outros fatores hormonais já existentes nesta fase, deixando, por exemplo, cabelos mais ressecados e frágeis. As mudanças hormonais também aumentam no cérebro, na área que envolve o raciocínio e as motivações. A falta de sono ocorre pelas preocupações com o bebê e pela rotina de aleitamento, e a preocupação associada ao pouco sono pode gerar perda da memória.

O vídeo abaixo demonstra o que acontece com o bebê quando está sendo amamentado

Duas crianças nasceram prematuras – Lívia, com 1,790 kg e 40 centímetros, e Laura, com 2,235 kg e 44 centímetros. O parto foi cesárea, o leite não desceu na hora, e a mãe, Michelle Olm, de 29 anos, ficou preocupada. “No primeiro dia tive uma produção boa, consegui deixar armazenado para as duas bebês. A Lívia veio para o meu seio no segundo dia de vida, mas, meu bico é invertido, tive dificuldades de amamentá-la. Já a Laura veio para o seio no quinto dia após o nascimento. De três em três horas, eu amamentava as duas, foram 25 dias exclusivos do peito. Ainda assim, percebi que meu leite foi secando e, no fim dos dias de UTI, só chorava, não me alimentava, nem água conseguia tomar e, então, passei a dar complemento na mamadeira e intercalar com o peito”, revela.

Quando as meninas já estavam com três meses, Michele decidiu dar somente a mamadeira, pois quando as aproximava do peito, as bebês choravam. No seio, conta que elas seguravam a sua mão enquanto mamavam e, no caso da mamadeira, as pequenas olham nos olhos da mãe. “Elas permaneceram com o corpo em contato com o meu. Sendo alimento materno ou não, amor não se transmite ao amamentar, é no dia a dia. Não me sinto inferior a nenhuma mãe que amamenta seu filho até os dois, três, quatro anos de idade. Tenho duas filhas saudáveis, ativas e, em um ano e meio, nunca as levei a um hospital, elas estão se desenvolvendo perfeitamente”, finaliza.

Livia Laura
Lívia e Laura, a dupla super ativa da mamãe Michelle

O apoio necessário

A professora e doutora em Filosofia da Saúde pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Yolanda Flores e Silva, explica que, no contexto social, falta amparo às mães. Um bebê pode nascer em uma família onde já existem outras crianças pequenas, que também necessitam de atenção e cuidados em tempo integral porque, mesmo após um ano, ainda estão aguardando vagas na creche do bairro.  “É uma chantagem que fazem com as mães, sem levar em conta a jornada de vida delas. É como se elas fossem obrigadas a amamentar as crianças. Elas têm que ter o direito de querer ou não. Nem sempre uma mulher sadia vai poder prover um leite sadio para o bebê”, explica.

Mulheres que vivem em comunidades próximas a plantações de soja, por exemplo, possuem agrotóxico no sangue, fato que impossibilita o aleitamento. De acordo com Yolanda, o leite pode ser substituído por leite de cabra, leite de arroz, leite da goma da farinha de mandioca e até mesmo leite da castanha do Pará, muito utilizado pelas mulheres do norte do país.

Conheça um caso semelhante aqui.

Amamentação em público

No primeiro mês de vida, embora durmam bastante, os bebês costumam mamar de três em três horas. Se ele estiver se desenvolvendo normalmente – se alimentando bem e ganhando peso –, você não precisa acordá-lo em horários rígidos só para amamentar. Antes de um mês não é aconselhável que o bebê saia de casa, depois desse período a mãe já pode levá-lo para passear. E se no meio desse passeio seu filho, que só mama no peito, ficar com fome?

São poucos os lugares e, até mesmo, empresas que possuem lugar específico para a amamentação. Nessas ocasiões, a mãe não tem outra opção senão amamentar em público. A situação ainda gera polêmica, como o recente caso que viralizou na internet da mulher que amamenta seu filho na praça de alimentação de um shopping e é hostilizada com ataques verbais de um homem.

Juliana dos Santos, de 35 anos, é mãe do Raí, que acabou de completar um ano de idade. Ela lembra que nas ocasiões em que amamentou seu filho em lugares públicos não se sentiu desconfortável. O principal motivo, para ela, é como a mãe se sente em relação à situação. “Eu nunca pensei muito sobre isso, porque não me incomoda. Acho que se mãe se sente confortável é o que importa. No geral, sempre tem alguém que vai dizer o que é melhor ou certo. Aprendi a ignorar”, declara Juliana.

aqui
Para Juliana, na hora de amamentar em público, o importante é se sentir bem

Em São Paulo o debate sobre o assunto rendeu uma lei, que vigora desde 2015. A medida prevê a punição e multa de R$ 500 a qualquer estabelecimento “destinado a atividades comerciais, culturais, recreativas ou à prestação serviço público ou privado” que impossibilite a mãe de amamentar seu filho dentro de suas instalações. “Não se trata de uma escolha. Não vou deixar meu filho com fome, independentemente do local onde eu estiver”, diz Juliana.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s