Comportamento

Má interpretação ou intolerância?

Os diferentes contextos de declarações homofóbicas na mídia

Os diferentes contextos de declarações homofóbicas na mídia

Texto: Iana Girardi e Lucas Machado
Edição: Mariana Ricardo

A aversão e ódio a diferentes formas do ser humano expressar sua orientação sexual é um problema a ser enfrentado no mundo inteiro. Porém, de acordo com um estudo realizado em 2014 pelo Grudo Gay da Bahia (GGB), o Brasil merece mais atenção já que é considerado o país com mais casos registrados de homofobia – seguido pelo México e Estados Unidos.

Os dados compilados pelo grupo sugerem que um homossexual é morto a cada 28 horas no país, e mais da metade desses homicídios ficam impunes. Ao tratar de suas localidades, São Paulo lidera a lista dos estados com maior numero de assassinatos com 8,8% dos casos. Na sequencia, aparece Pernambuco e Minas Gerais (8,4%), Bahia (8%) e Paraíba (6,8%).

Alguns casos de homofobia surgem a partir de grupos religiosos, que utilizam como argumentos os dogmas que condenam a prática homossexual. Segundo um estudo realizado em 2010 pela Universidade de Brasília, o ensino religioso nas escolas promove intolerância religiosa e preconceitos entre seus alunos.

Um exemplo deste tipo de incentivo a intolerância é o caso que recentemente viralizou na internet envolvendo a cantora gospel Ana Paula Valadão. A artista publicou em seu perfil no Facebook um texto sugerindo um boicote à rede de lojas C&A depois que a marca anunciou em uma campanha a sua nova coleção genderless (sem gênero).

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Publicação na página oficial de Ana Paula Valadão no Facebook | Screenshot

No texto, Ana Paula também discorre de outras ofensas contra a comunidade e os direitos LGBT. Sua rede social foi tomada por diversos comentários contrários a sua proposta, e a cantora foi acusada de ser intolerante, preconceituosa e homofóbica.

Uma das pessoas contrárias aos comentários de Ana Paula Valadão é Cristóvão Vieira Oliveira, jornalista residente em Porto Belo (SC), que mesmo sendo heterossexual, recrimina esse tipo de atitude. Para ele, é necessário mais cuidado com o que é divulgado na internet, principalmente vindo de figuras públicas. “Eles não percebem a dimensão do perigo de seu posicionamento. São pessoas influentes, ou seja, se elas dizem que homossexualidade não é normal, parcela da população acredita e apoia”, explica. Cristóvão afirma também que esses comentários acabam gerando uma onda de violência e rejeição contra um grupo de minorias.

Outra figura pública a ser acusada por internautas de preconceito foi a apresentadora e empresária Patrícia Abravanel. Durante sua participação no Programa Silvio Santos, Patrícia declarou que não acha “normal” a relação entre indivíduos do mesmo sexo, afirmando também que é preciso firmar mais o que é homem e o que é mulher, e explicar a diferença para os jovens.

As declarações da empresária geraram uma grande repercussão e foi um dos assuntos mais comentados na internet no dia seguinte. Após ter suas redes sociais lotadas de comentários condenando seu posicionamento, Patrícia acabou pedindo desculpas em um texto publicado em sua conta no Instagram.

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Publicação na rede social Instagram, perfil de Patrícia Abravanel | Screenshot

O professor de Ética e Filosofia, Osmundo Saraiva Junior, alega que acusar de homofóbica qualquer declaração não necessariamente ajuda o movimento LGBT. Para ele, a população acaba não sendo educada quando se processa alguém pela sua opinião, e se perde a ideia de que a tolerância pode ser alcançada. “Me parece mais uma vingança pelo que foi dito e não uma tentativa de esclarecimento”, diz.

O estudante de Construção Naval e ator no Parque Beto Carreiro World, Eduardo Reinert, se posiciona contra os dois casos, tanto de Abravanel quanto da Valadão, porém, enxerga as afirmações de forma diferente. “Não levo tão a sério o caso da Patrícia, ela estava apenas dando sua opinião. Já a Ana Paula propôs até um boicote, isso eu vejo como pregação de ódio contra os homossexuais”.

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Eduardo Reinert | acervo pessoal

Eduardo, que hoje tem 18 anos, se assumiu gay quando tinha 14 e conta que teve certeza da sua orientação sexual quando percebeu que não conseguia ter relações com mulheres. “Mostrei uma foto para a minha mãe e disse ‘tá vendo esse menino? Então, estou namorando ele'”, relembra. Com uma irmã mais velha que também é homossexual assumida, o estudante fala que a reação da família foi mais tranquila. Quando perguntado sobre preconceito, Eduardo responde que sua defesa sempre foi a indiferença. “Quando escutava algum xingamento relacionado à minha sexualidade, a minha reação era ‘e dai? Sou mesmo'”, conta.

São opiniões como a da assessora parlamentar da Câmara de Vereadores de Balneário Camboriú, Luciana Alves Zanini, que homossexuais como o Eduardo precisam debater para avançar a conquista de direitos iguais. Mãe de três filhas, a mineira que agora mora no litoral de Santa Catarina acredita que se deve respeitar a base da família tradicional, ou seja, heterossexual. “Você não vê um casal de um homem e uma mulher se agarrando em público, então porque um casal gay deveria? Quem faz o que quer, escuta o que não quer. Precisamos manter a decência e respeitar uns aos outros”. Apesar da opinião contra a causa gay, ela afirma respeitar os homossexuais.

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Luciana Zanini | acervo pessoal

Eduardo rebate o comentário de Luciana a respeito da família tradicional, alegando que um dos seus maiores sonhos é ser pai e construir uma família, seja por adoção ou barriga de aluguel. “Para essas pessoas que afirmam que família é só homem-mulher, a única coisa que tenho a dizer é: procurem evoluir. Aceitem o diferente”.

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