Arte e Cultura

Proximidade x Realidade: a vida de fã

Até onde vai o limite entre fã e ídolo? Conheça as facetas dos tietes.
Texto: Leandro Pereira e Marcelo Martim
Edição: Luzara Pinho
Foto de capa: Reprodução Internet

Eles são completamente apaixonados e têm muito carinho para oferecer. São capazes de fazer o inusitado por àqueles que admiram. Não se importam com a distância. Alguns ainda nem se viram, mas já se consideram íntimos. Eles conhecem cada detalhe da história de quem amam. Se contentam com pouco. Alguns ultrapassam os limites e a maioria condena o comportamento. Alguns são jovens, outros velhos. Eles garantem que a idade não importa. Eles dedicam parte de sua vida ao outro – e às vezes não recebem o retorno merecido. Mas não desistem, eles entendem.  Eles são os fãs.

O ano era 2007. A Rede Globo de televisão reprisava a novela “Da Cor do Pecado”, a qual trazia os atores Taís Araújo e Reynaldo Gianecchini como protagonistas. Aos 10 anos, Camila Novaes, hoje com 19, sabia que seu carinho pela atriz Taís Araújo era especial. Com o passar dos anos, o interesse pela vida da atriz e do seu companheiro também ator, Lázaro Ramos, cresceu. “Aprendi desde muito cedo o quanto é importante ligar a televisão e se sentir representada”, relata a fã.

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Camila apresenta uma das paredes do seu quarto dedicada ao casal (Foto: Arquivo Pessoal)

Foi a união do carinho e admiração pelo casal que surgiu a ideia de criar um Fã Clube (FC) para reunir outras pessoas que compartilhavam deste sentimento pelo casal. O FC se consolidou por meio de uma página no Facebook que atualmente soma 40 mil fãs e por um perfil no Instagram com oito mil seguidores. “Todos são aceitos e convidados a participarem das nossas redes. Contamos até com pessoas de outros países”.

Fã que é fã já fez algo inusitado pelo seu ídolo. Camila não fica de fora. “Já pedi para uma amiga ficar horas na porta do teatro para conseguir um autógrafo pra mim. Já comprei passagens para o Rio de Janeiro sem o consentimento dos meus pais para poder assisti-los. Virei noites na internet votando para eles ganharem premiações, entre outras coisas”, conta.

Camila conta que a equipe do FC leva muito a sério todo o processo de produção de conteúdo para que nada desagrade o casal. Mesmo assim, em alguns posts há uma minoria insistente que propaga ódio com comentários maldosos. A fã também conta que é preciso tomar cuidado para deixar claro que a página é administrada somente por fãs, para não confundir quem visita.

Quando questionada dos limites entre fã e ídolo, Camila argumenta:

Fã é fã, algo que não se explica. É admirar alguém que mal nos conhece, amar, torcer pelo sucesso. E tudo isso sem querer nada em troca. O limite é saber respeitar a privacidade deles.

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Taís e Lázaro na pele de Michele e Mr. Brau da série Mr. Brau – TV Globo (Foto: Bruno Rangel/Divulgação)

E quando a relação fã x ídolo estremece?

Para a psicóloga, Regina P. Gomig, ter ídolos é um mecanismo de projeção que está relacionado à fama e afinidade.  “Como a fama não é para todos, inclusive por opção ou qualquer outro motivo, escolhemos alguém que substitui nosso desejo, no entanto há a questão da afinidade, esta pessoa faz algo que admiramos ou gostamos e o próprio sucesso e fama, é o ideal de todo ser humano”.

Recentemente a relação entre fã e ídolo quebrou seu paradigma. A apresentadora Ana Hickmann sofreu uma tentativa de homicídio em um Hotel em Minas Gerais por um rapaz que se dizia fã. Visivelmente desequilibrado o rapaz destratou as vítimas e atirou. Os disparos atingiram a assessora de Ana.

Casos como este reforçam um transtorno desenvolvido na mente de quem pratica, como explica Regina: “Convivemos com casos recentes no Brasil de transtornos tanto na vida dos fãs como para o artista, assim como o caso mais antigo e conhecido mundialmente: o fã de John Lennon que acabou matando ele. Às vezes as pessoas que acabam criando um comportamento obsessivo em relação ao ídolo, são pessoas que possivelmente já trazem predisposição ou já estão acometidas de transtornos emocionais. Aparentemente, o suposto fã da apresentadora apresentava sintomas de quadro de despersonalização, fuga da realidade e não aceitação da posição de fã”.

A psicóloga afirma que o fã precisa conhecer seu lugar e ocupá-lo, assim como o ídolo. Isso se reflete numa troca positiva de experiências. “Essa relação pode evoluir até virar uma doença se a pessoa possuir uma personalidade carente, tiver dificuldade com limites e despersonalização”, conta.

A psicopedagoga, psicoterapeuta, especialista em Medicina Comportamental, Lou de Olivier, relata em dos seus artigos sobre o tema a razão de se criar ídolos. Confira um trecho:

O ator de TV ou cinema entra em cena e, sem que nada diga, é calorosamente aplaudido. Se sorrir ou acenar ou ainda jogar beijos, pode levar a plateia à loucura. O cantor que, às vezes nem canta tão bem, começa a dançar e as garotas já se excitam. Se ele fizer passos sensuais e/ou rebolar um pouco, lá estão elas gritando histéricas. Em meio a essa parafernália, quem vai perceber se o sujeito canta bem?

Pessoas até comuns, que têm seus 15 minutos de fama, e despem-se para fotos em revistas especializadas, bastam para que as edições esgotem-se rapidamente.

E o que dizer dos fãs que se emocionam e chegam aos prantos em aeroportos à espera de seus “ídolos”? Deixam, às vezes, de comprar algo que realmente necessitam para adquirir o recente lançamento ou o ingresso para um show, ocasião em que serão espremidos, destratados, acotovelados, inclusive correndo risco de vida em meio a uma multidão em transe. Mesmo assim, os fãs continuam espalhando aos quatro cantos que “amam” artistas com os quais não têm nenhuma intimidade, muito menos motivos para amar. Mas de onde vêm esses sentimentos desenfreados?

Talvez se falássemos sobre a histeria coletiva, amplamente estudada, tanto por Freud quanto por Jung, podemos transcorrer sobre algumas respostas a esta questão, mas o debate acerca deste tema é complexo, e precisaremos de um novo artigo para isso.

Leia o artigo na íntegra.

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