Comportamento

O jornalismo em crise

Uma análise da sociedade política e midiática

Uma análise da sociedade política e midiática

Texto: Bárbara Porto e Lucas Rosa
Edição: Luana Cristina

Às vésperas da votação do processo de impeachment a revista IstoÉ publicou uma matéria intitulada: Uma presidente fora de si. Nela, Dilma é apresentada como uma governante instável, que toma remédios fortes, quebra móveis dentro do Planalto, agride verbalmente seus funcionários e tantas outras revelações. Uma matéria infeliz. Não só pelo tom acusatório, mas pelo importante fato de não existir um nome que respalde as afirmações.  Entre as fontes utilizadas estão: o presidente de uma empresa estatal, um motorista, importantes assessores, um interlocutor frequente, mas em nenhum momento as fontes são devidamente identificadas.

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Matéria foi publicada na revista impressa e no portal online da IstoÉ

A abordagem do conteúdo é extremamente superficial, e sem credibilidade alguma, diante de tanto disse-me-disse. A revista semanal que se declara como independente, tem uma tiragem superior a 354 mil exemplares, além de sua página online, onde a matéria também foi publicada. Se considerarmos a expressividade e alcance que esta revista tem, podemos concluir que dezenas de milhares de pessoas tiveram acesso a matéria citada acima. Muitas delas vão se basear apenas nas informações desse veículo, sem se quer questionar a procedência e falta de apuração nas fontes, provavelmente irão considerar o conteúdo revelador. Afinal, foi publicado na IstoÉ, uma revista que está para completar 40 anos de circulação nacional.

Reportagem completa aqui

Exemplos como estes, onde valores primordiais do jornalismo são ignorados, servem para mostrar os perigos de um trabalho sem ética. Se práticas como essas continuarem, o futuro do jornalismo pode estar em xeque. É correto afirmar que vivemos uma crise política e midiática? O que esperar daqui para frente? Quais veículos de comunicação devemos confiar?

Para responder essas questões e nos ajudar a analisar o atual cenário político e midiático, conversamos com o jornalista Rogério Christofoletti, professor e pesquisador da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

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Professor e jornalista Rogério Christofoletti

A matéria apresentada no começo desse texto, foi o primeiro exemplo que o doutor em comunicação citou durante a nossa conversa. “A revista IstoÉ, mostrou uma reportagem misógina, sexista, e porque não dizer machista. Ela afirma que mulheres não sabem agir sobre pressão, perdem o controle fácil e são mais instáveis do que os homens. O pior de tudo é que essas acusações não tem embasamento, sendo que nem uma fonte real foi apresentada.

Na opinião do professor, esses exemplos antiéticos estão ligados a fatores que vão além de ideais políticos. “Nos últimos anos, o governo vem reduzindo a verba destinada a publicidade, e as revistas são um dos veículos que mais tiveram cortes. Lógico que eles ficaram insatisfeitos. Mesmo assim não justifica eles tentarem denegrir a imagem de uma figura pública de propósito. Eu falei da IstoÉ, mas você pode encontrar exemplos em praticamente todos os jornais.”

O assunto tão discutido neste texto é tema central no livro ‘Questões para um jornalismo em crise’, organizado por Christofoletti. Nele, pesquisadores e outros profissionais da comunicação fazem questionamentos e dialogam sobre o cenário complexo e nebuloso acerca do jornalismo atual. São reflexões sobre a prática produtiva dentro e fora das redações. Os autores são jornalistas e pesquisadores, da disciplina de “Estudos Avançados de Produção Jornalística”, ministrada pelo Programa de Pós-Graduação da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

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O livro foi lançado em 2015 pela editora Insular

ÉTICA NO JORNALISMO

Sabemos que mentiras e falsas acusações, principalmente sem fundamento não é algo legal. Entretanto o que está previsto na ética do jornalismo? Para ter como base os comportamentos éticos estabelecidos no dia-a-dia de um jornalista, utilizamos o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, que teve a sua última edição publicada pela Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj) em 2007. O código se divide em cinco capítulos. No primeiro, fala do direito a informação. Nessa parte, são relatados os processos necessários para que a informação seja produzida e distribuída de forma correta. O segundo capítulo trata da conduta profissional do jornalista e o terceiro, da responsabilidade profissional do jornalista. Essa parte mostra a base dos princípios do jornalismo e de que forma o profissional é responsável pelo conteúdo que publica. No quarto capítulo, que trata das relações profissionais, mostra como devem ser as condições de trabalho do jornalista. Por fim, o quinto e último capítulo fala da aplicação do código.

Confira o código na íntegra aqui

“A última atualização do código de ética está para completar dez anos, e por mais bem elaborado que ele seja ainda não fala sobre conceitos como jornalismo nas redes sociais e na internet por exemplo. No Canadá essas questões de jornalismo e tecnologia tem regras a alguns anos”, afirmou o professor.

Rogério também comentou o fato do código ter sido feito pelos funcionários, sem a conscientização dos patrões. “Um bom exemplo de conflito de interesses é que o jornalista pode se recusar a fazer algum trabalho se ele ferir os seus princípios. Isso é um avanço, mas como o código não foi construído junto com os patrões, na maioria dos casos quando o repórter confronta as escolhas editoriais acaba sendo demitido.”

Assista entrevista completa com Christofoletti feita pelo programa Viva Voz da Univali

Vamos concordar que perder o emprego atualmente não é uma realidade que as pessoas queiram enfrentar. Por isso, muitos jornalistas, de uma forma errônea, abandonam os princípios da profissão para entrar em uma disputa de valores às vezes imorais. Esse cenário, onde o jornalismo briga por espaço e poder junto com a política, mostra uma crise que vai muito além da economia. Sobre isso Rogério comentou:

“A crise não está apenas no Brasil, mas o país sofre com a soma de erros políticos que vêm antes mesmo da gestão petista. Os conflitos de interesses e a busca por poder que estamos vendo causam problemas na sociedade. E esclarecer essas situações é uma das principais funções do jornalismo. Entretanto, alguns veículos tomam partido na situação, e deixam de ser isentos. Isso acaba levando a uma guerra ideológica sem controle.”

O professor também reforçou que em um momento como esse, é extremamente importante buscar se informar das mais diferentes formas possíveis. “Se você está habituado a acompanhar um determinado jornal, experimente também ver o ponto de vista de outro veículo”.

MÍDIAS INDEPENDENTES

Com a proposta de fazer jornalismo de uma forma diferente das grandes indústrias da comunicação que grupos de jornalistas independentes vem ganhando espaço em meio a crise.

Um deles é o portal Jornalistas Livres, tendo como lema estar em defesa da democracia. O grupo busca realizar uma cobertura colaborativa contra o que eles chamam de manipulação política da mídia tradicional, apresentando produções narrativas independentes. O site distribui suas matérias nas seguintes editorias: política, economia, saúde, negros, feminismo, educação, Rio Doce, índios e LGBT.

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Jornalistas Livres estão no mercado desde março de 2015

Acesse o portal aqui

Outro exemplo de meio independente é a Mídia Ninja. Eles se denominam uma rede de comunicadores que produzem e distribuem informação em movimento. Eles apostam na colaboração para o compartilhamento de conteúdos. O objetivo deles é realizar reportagens, documentários e investigações no Brasil e no mundo. Em seu site eles afirmam: “nossa pauta está onde a luta social e a articulação das transformações culturais, políticas, econômicas e ambientais se expressa”.

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Segundo o grupo “a internet mudou o jornalismo e nós fazemos parte dessa transformação”

Conheça a Mídia Ninja aqui

Para o jornalista Matheus, que trabalha em SP, estas mídias se diferem dos meios de comunicação massivos em vários aspectos. Como a estrutura, com equipamentos modernos, aporte financeiro estável e logística implantada, “além de uma credibilidade aparente, conquistada por anos de trabalho, o que não quer dizer que ela não esteja sendo mais e mais abalada atualmente”, explica Matheus. Outra diferença para ele é o fato de que as mídias independentes tem uma liberdade de ação maior, já que não necessariamente seguem presas a determinadas linhas editoriais de interesse dos proprietários. “Embora as mídias independentes também sejam presas aos pensamentos e ideologias que as movem, além de atingirem um público diferente, mais jovem e habituado com as tecnologias atuais e menos habituado aos jornais e noticiários mais tradicionais”, conclui.

Sobre o futuro, tanto Matheus quanto Christofoletti usam a palavra esperança como referência. “Atualmente eu estou dividido. Por um lado alguns acontecimentos me decepcionam, mas ainda tenho esperança que o cenário pode melhorar”, explica o professor. Já Matheus é menos otimista. “Honestamente não vejo um futuro muito positivo para o jornalismo. Mas espero realmente estar enganado. O que me dá esperança são justamente esses coletivos e mídias independentes que vem surgindo e que não são compostos necessariamente por jornalistas, pelo menos não de formação”, reflete Matheus.

 

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