Opinião

Mulher: dona da voz e da vez (p. II)

Damos continuidade no compilado de opiniões de convidadas sobre atitudes dos homens que não as agrada ou ataque como mulher.

Cantadas nas ruas, objetificação sexual das transexuais, reflexo da criação, achar que ser lésbica é “um convite”. Muito já foi dito na primeira parte desta publicação, mas ainda continua

Por: 24 mulheres empoderadas

Você acompanhou aqui o relato de mulheres de gêneros, sexualidades, raças, idades e classes sociais diferenciadas, quanto a ações cotidianas que os homens fazem que não as agrade, as ofenda ou rebaixem a imagem feminina. Por ter ouvido dezenas de mulheres, a Agência Prefixo precisou dividir a reportagem. Abaixo, você confere a segunda parte com mais opiniões das nossas convidadas.

“Não quer ficar comigo? É lésbica, então”.

Aryana Cardoso
Aryadna Cardoso.

Uma vez sai com amigos e um cara que eu só conhecia de vista pediu pra ficar comigo. Eu não estava afim, disse não. Depois disso ele falou para uma galera que eu era lésbica e começou a fazer um monte de piadas, que pra todos eram “brincadeira”, mas pra mim não.

Acredita em mudanças desse cenário? Eu acredito que sim. O movimento feminista cresceu, as mulheres se reconheceram como fortes e independentes, perceberam que podem ocupar qualquer lugar. Eu vejo a mudança acontecendo. Sei que não é em todo lugar, mas já consigo ver mulheres ocupando lugares que, até então, eram ocupados só por homens. Vejo mulheres quebrando isso de “coisa de homem” e sempre os vejo afrontando elas por isso. Sonho com o dia que eles tenham que apenas aceitar calados.

Mulheres não gostam da inferiorização da capacidade feminina sobre política.

A valorização da mulher como ser competente é inapreciada. Vemos pela situação atual da política em que quase toda percentagem de mulheres foi retirada da bancada. Querem aprovar leis para diminuir nossos salários, impor uma imagem de que somos submissas, desinformadas e que seremos sempre complacentes ao poder que nos rege e nunca nos posicionaríamos contra. – Lorena Figueiredo.

Acha que falta mulher na política? Eis um texto de opinião escrito por Talissa Peixer, umas das repórteres aqui da Agência Prefixo, sobre essa falta de representatividade.  

Ou quando as acham incapazes de fazer coisas no ambiente de trabalho.

O que acontece bastante é que muitos homens acham que por eu ser mulher não tenho capacidade de fazer algumas coisas. Por exemplo, como eu trabalho com cinema, a gente tá no set, tá filmando. Tem que montar equipamento, montar shoulder rig pra câmera, iluminação. E, às vezes, o homem toma frente disso, pega da minha mão, o que eu tô montando e “não, não, deixa que eu faço”, “eu faço mais rápido, porque estou mais acostumado, tenho mais força”. Essas coisas te diminuem: achar que tu não é capaz de fazer uma coisa só porque é mulher. – Ananda Torres.

“Mulher que usa batom vermelho é puta”.

Trabalhei com crianças há uns meses, como monitora. Antes de mim, só homens tinham ocupado esse lugar lá. Um dia meu chefe me chamou atenção, pois uns pais reclamaram de mim porque eu usava batom vermelho e isso poderia influenciar as meninas a serem putas. Eu fiquei muito mal ouvindo isso, mas entendi que o machismo já está enraizado na sociedade e que mulheres sofrem com isso todos os dias. – Aryadna Cardoso.

É devastador quando a hostilidade vem de uma pessoa que “te ama”.

Camille
Camille Soares, 19 anos, estudante de Engenharia Química.

O que mais me agride vem diretamente do meu pai. Ele é e sempre foi uma pessoa ausente na participação da minha vida. A nossa relação não passa do básico. Nada além disso. Eu poderia ficar horas relatando várias histórias que aconteceram que me diminuíram, não somente como mulher, mas como ser humano. A história que eu quero contar é a seguinte: estávamos eu, minha mãe e irmã sentadas à mesa e meu pai estava assando a carne, como típico churrasco de uma família tradicional. Não lembro bem qual era o assunto em discussão, só sei que era sobre meu irmão. Creio que pelo fato dele, depois de ter começado a namorar, raramente dormir em casa ou passar um tempo com a gente. Minha mãe, no meio da conversa disse a seguinte frase: “O Digo (meu irmão) na casa da Irís (namorada dele), a Nessa (minha irmã) esperando pra sair com o Dylan (namorado da minha irmã). Só falta a Mille arranjar um boy pra ela”. Em meio às risadas de meus outros familiares, eu me calei, pois sei que minha opinião não machista não tem vez em jantares como esse. Conversa vai, conversa vem, meu pai diz o seguinte: “É, o Digo na casa da Irís, a Nessa, se fosse homem, estaria na casa da namorada, e a Mille, bom, já que é mulher tem que discriminar mesmo”. Fiquei pensando como eu deveria reagir diante de uma situação dessas, entre o nó na garganta e as lágrimas querendo escorrer dos meus olhos.

Acredita em mudanças desse cenário? Acredito, deixando de acreditar. É extremamente complicado e delicado tentar mudar esse tipo de pensamento nos homens. Os que pensam assim viveram rodeados de machismo e acabaram adotando como estilo de vida. Acho que tudo isso é uma questão do que os rodeia, dos dogmas e ensinamentos que foram passados para esses homens. Acredito que todos podem mudar, é só querer. Infelizmente, na maioria dos casos, esses homens não querem mudar, batem o pé dizendo que isso está certo, são muito cabeça dura. Tentar mudar o pensamento desses babacas só não é mais difícil e doloroso do que passar por situações machistas apoiadas por eles mesmos. A real mesmo é que é um mal geral, são raros os que se colocam no lugar do próximo, que adotaram pra vida aquele ditado “não faça com os outros o que não queres que os outros façam contigo”. Se houvesse mais empatia e respeito, ahhh, seria lindo de viver.

Os ensinamentos passados de geração para geração aos homens não agrada.

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Carina Gabrich, 22 anos, estudante de Fonoaudiologia e co-fundadora da Coletiva de Mulheres do Vale do Itajaí (COMVI).

Acho que ser mulher por si só é muito difícil. Vivemos em uma sociedade que mulher empoderada, feminista, “diferentona” é vista com maus olhos. Somos impostas a todo momento a seguir regras invisíveis, sem questionamento, “porque alguém disse que é assim e fim”. Os homens têm a masculinidade como apoio de conduta, mesmo ela sendo muito frágil. Grande percentual masculino sabe de suas vantagens e fica numa situação de extremo desconforto quanto estão na posição de troca de papéis com uma mulher, por exemplo. Me enoja os ensinamentos que passamos de geração a geração. Ensinamos a nossas meninas a terem medo e obedecer e aos meninos a proteger e zelar, tendo que ser macho impositor. É sinal de fraqueza, de homossexualidade, de fragilidade se o homem não tem um posicionamento machista na sociedade. Eles julgam as mulheres por ações que eles fazem, se sentem incomodados quando outro homem tem um posicionamento respeitoso, igualitário. “Por que você não comeu ela, brother? Você é viado?”. Nós, como seres humanos, temos muito medo do julgamento do outro, nos limitando a todo o momento das nossas vontades.

Acredita em mudanças desse cenário? Nossa luta não é de hoje, mas graças ao acesso a tecnologias, a comunicação é mais rápida, o que ajuda muito os movimentos feministas. Mesmo que não seja diretamente, você sempre está em alguma discussão, recebendo informações, conhecimentos, opiniões e assim aos poucos se posicionando. Acho que o movimento feminista, por ter muitas vertentes, está sendo construído para ser efetivo a todos. Enquanto não temos a copulação de todos objetivos em um só movimento, cabe a nós, mulheres, feministas (ou não), adquirir informações e repassá-las de maneira clara, analisando qual será a abordagem para diferentes situações. Falo isso porque, no meu núcleo de amigos, a palavra “desconstrução” é a que me simboliza. Não devemos seguir nesse pensamento machista pré-histórico. Temos que nos indagar e indignar a todo instante. Mudar termos, repensar antes de julgar, se colocar no lugar do outro, não disseminar algo errado e imposto. A mudança acontece quando as pessoas estão prontas para mudar e vejo que estamos em um mundo mais aberto para o novo. Então acho que logo teremos não homens feministas, mas mais seres pensantes e a desconstrução de pré conceitos.

Fazer apologia sexual com a mulher, para exemplificar algo, também não.

Eliza Dore Milanezi
Eliza Doré Milanezi, 24 anos, jornalista.

Uma coisa me incomoda muito é quando os homens usam exemplos com conotação sexual pra qualquer coisa. Isso acontece dentro da sala de aula, com amigos ou na família. Não precisa colocar a mulher sendo representada de uma forma sexual pra dar um exemplo de algo sendo que isso nem cabe ali.

Acredita em mudanças desse cenário? Com certeza há esperanças de todas as mulheres que se identificam com o movimento de alguma forma, sem fé não haveria luta. Mas isso vai ser um processo mais longo do que já é. Nessa história têm muitas vitórias, porém ainda falta uma compreensão maior da sociedade num geral. Existem coisas que ainda são involuntárias, por exemplo, eu escuto meu pai falando “ué, mas homem e mulher é tudo igual”, mas eu sei que o meu pai é o tipo de homem que acha que tem que ser servido porque é o macho alfa da casa. Uma questão cultural que veio com ele e que aos poucos foi mudando. Fico feliz que ele ache realmente que somos todos iguais, mas têm coisas que ficaram impregnadas na essência dele. Isso é algo que a gente carrega. Talvez no futuro, muitos desses adolescentes de hoje, que acham importante essa batalha, passem isso pros filhos deles, mas no meio do caminho podem acabar sendo infectados com uma ideia contrária.

Precisamos falar sobre agressões, independente do tipo.

Muitos homens já me agrediram moralmente e até fisicamente, em ambientes de trabalho, de ensino, ou apenas por andar na rua. – Yasmim Moraes.

Isso inclui violência psicológica.

Andressa Zuffo
Andressa Zuffo, 21 anos, estudante de Jornalismo.

O que me causa maior ofensa como mulher, apesar de todos esses fatos serem muito incômodos, é a hipocrisia de muitos homens e a violência psicológica para diminuição do outro. Mentiras me machucam demais e no último relacionamento que vivi, a mentira foi o posicionamento que o meu parceiro mais tomou. Denegriu muito meu eu e me perdi. Esta foi a maior ofensa que sofri: ser enganada.

Acredita em mudanças desse cenário? Sem dúvidas há esperança sim. Acredito muito na mudança do outro e que, por meio da conscientização e da própria educação dos meninos e homens, isso possa mudar. Tudo é uma questão de empatia. Faça ao outro o que gostaria que fizessem com você. Se as pessoas em um geral, homens e mulheres, se colocassem no lugar do outro, as coisas seriam diferentes.

E a hipersexualização de mulheres negras.

Maria Borges
Maria Borges, 21 anos, administradora da página Zumbi Vive no Facebook.

Não dá para fugir das questões raciais. Nós, mulheres negras, somos muito hipersexualizadas. Isso é conjunto de machismo e racismo, uma misoginia em dose dupla. Desde a puberdade, ouço coisas sobre minha vida sexual, antes mesmo de saber o que era sexo. Homens nos veem como melhores de cama. Como quem aguenta tudo. Que nosso corpo é muito quente, mas só servimos para isso mesmo. Para ter outro laço afetivo, somos escandalosas reclamonas. Temos que servi-los sempre e estar sempre dispostas a fazer sexo. Me incomoda muito achar que o que faço de melhor é sexo e que meu intelecto é sempre questionável.

Acredita em mudanças desse cenário? Se eu não acreditasse em mudança, eu não lutaria por melhoras, não colocaria o dedo na ferida, me indignando com o ato. O machismo é tradição porque na lei de todo o patriarcado vem o conservadorismo, onde mulheres se calam e aceitam os posicionamentos bastantes abusivos dessa sociedade machista. As coisas começaram a mudar quando as mulheres começaram a se unir e reclamar para que as coisas mudassem. Daí veio os direitos das mulheres, as conquistas, fez o sentido do feminismo. Aos homens eu peço que ouçam as mulheres. Quando eles começarem a permitir-se a ouvi-las, será o início dessa desconstrução social. Até mesmo quando um homem reproduz o que as mulheres já vêm gritando há tempo, tem mais credibilidade, isso ainda sim é machismo. Quando o homem sobpôs a reconhecer os privilégios sociais por ser homem, e ouvir as mulheres, aí sim terá uma mudança drástica social por direitos.

Bancar o “machão” não é um close certo.

Sabe o que existe ainda? Homem que se acha muito macho, que pega no braço com força ou que quer mandar do tipo “para de fumar, que feio mulher fumando”. Feio é eu ter que escutar homem querendo dizer o que eu posso ou não fazer. – Eliza Doré Milanezi.

O que falar de atitudes machistas de homens que se dizem politizados?

Maria Zucco
Maria Zucco, 20 anos, estudante de Jornalismo.

Durante toda a minha vida passei por momentos nos quais tive que me reafirmar e me dedicar em dobro para provar que não era menos capaz somente por ser mulher. São situações rotineiras em uma sociedade cuja consciência é impregnada pelo machismo e valores patriarcais. No entanto, os acontecimentos que mais me deixaram enraivecida aconteceram em meios nos quais me sentia protegida de atitudes constrangedoras. Foi em círculos de esquerda que me deparei com seres que acreditavam que, talvez pelo seu status hierárquico dentro da organização ou simplesmente pela sincronia de algumas ideias, eram irresistíveis para qualquer garota do mesmo lado político que o deles. Os toques inapropriados, para os quais não dei intimidade, o tratamento condescendente, as atitudes arrogantes, nunca imaginei que isso aconteceria em meio a pessoas que se dizem tão politizadas. Seus egos do tamanho do mundo não os deixa enxergar que são também parte do problema de subjugação da mulher na sociedade. Se questionados, certamente nunca admitiriam seu machismo, mas cada vez mais encontro esse tipo de sujeito em espaços que um dia presumi seguros.

Acredita em mudanças desse cenário? Penso que a mudança de atitude pode sim ser universal algum dia, só não acredito que este é um futuro que nossa geração irá viver. O problema da desvalorização da mulher não está somente na cultura de cada sociedade, mas também em seu sistema econômico, de diversos modos, ela ainda é percebida como propriedade de seu pai ou parceiro, mesmo que de forma inconsciente. Enquanto os princípios capitalistas patriarcais imperarem, não será possível uma total libertação feminina, sem o empoderamento econômico necessário, ela ainda será vista como incapaz, um ser que precisa de cuidados especiais. Ainda há um longo caminho a ser percorrido, e nosso país não está na vanguarda do progresso nesse sentido. Mesmo dentro de movimentos que têm o mesmo princípio, há muita divergência de modus operandi e engessamento de comportamentos que devem ou não ser seguidos. É preciso compreender que cada indivíduo deve ter o direito de escolher o papel que bem entender dentro da sociedade, e essa utopia não parece fazer parte de um futuro próximo.

A falta de respeito com mulheres que estão num relacionamento sério incomoda.

Maria Fernanda Litzenberg
Maria Fernanda Litzenberg, 18 anos, fotógrafa.

Posicionamento e atitudes na fala não faltam. Não consigo nem enumerar, mas tenho pensado muito na falta de respeito que os homens demonstram ter em relação a mulheres que estão em um relacionamento sério. Isso tem me incomodado muito, porque tem acontecido com frequência e eu me sinto enojada. Não foram poucas às vezes em que, ao me aproximar de um cara, no decorrer da conversa ele para de prestar atenção no que estou falando pra olhar apenas pra minha figura feminina. É claro que atração física é algo natural, mas dentro de um contexto. E essas situações se mostram fora de contexto, quando você diz não, ou mesmo previamente ter dito que está num relacionamento, e é ainda maior quando você diz que é lésbica. A variante da situação é imensa, mas acredito que aconteça sempre da mesma forma, sucedido por um fora e pela insistência do macho babaca.

Acredita em mudanças desse cenário? Se falarmos dentro do contexto brasileiro, é necessária uma breve análise das questões socioeconômicas, culturais e políticas que envolvem o Brasil. Ao mesmo passo que é nítida a crescente do movimento feminista, a popularização, e o empoderamento de mulheres nas faixas mais periféricas, também é fácil de se perceber num país que vive na sombra do conservadorismo histórico. Nessa sociedade de contrastes, eu tento caminhar na linha do otimismo, acreditando que essa onda de fascismo não impregne a sociedade brasileira, mas que se torne a fonte energética para mais questionamentos e empoderamento feminino.

E os “clubes do Bolinha” as objetificam.

Jana
Jana Zdebskyi, 25 anos, mestranda de História na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) com bolsa CNPq.

Acho que o que mais agride são as formas cotidianas de violência. Olhares e cantadas na rua são atitudes que diariamente reafirmam a postura de dominação e objetificação do corpo das mulheres que os homens ainda exercem. Esses olhares de assédio colocam a mulher em uma situação muito constrangedora e muitas vezes sem possibilidade de reação, já que no senso comum esse tipo de assédio não é considerado uma violência de fato. Além disso, todos os comentários que vemos em “clubes do bolinha” fazem julgamentos a respeito da sexualidade das mulheres. Muitos homens não têm a mínima reflexão crítica sobre alguns de seus atos quando estão reunidos em grupos de amigos, reproduzem muito ideias de “não vamos ficar com a fulana porque ela é rodada”, “ciclana é só pra dar uns pegas porque já passou o rodo”. A velha ideia de que a mulher deve ser bela, recatada e do lar ou então é vagabunda e não se dá ao respeito. Ainda existem grandes tabus à sexualidade das mulheres. A valorização da virgindade e da castidade feminina como virtudes colaboram pra que não haja emancipação das mulheres. Nesse âmbito da expressão dos desejos e isso também é uma forma de subalternização e submissão.

Acredita em mudanças desse cenário? Acredito sim. Mas isso envolve a mudança de diversas estruturas. O machismo está ligado à estrutura social patriarcal que está a serviço de um sistema econômico que necessita de uma mulher fiel que produza filhos legítimos herdeiros da fortuna de um homem que se apropria da capacidade de reprodução das mulheres. Está estruturado em um sistema de crenças, costumes, na educação sexista, na linguagem. Todas essas estruturas sociais precisam ser transformadas. Não basta deslocar as mulheres de um lugar de subalternidade, é preciso deslocar também os homens do seu lugar de dominação.

No fim, precisamos falar, urgentemente, sobre o machismo velado no dia-a-dia.

Sofia Knoll
Sofia Knoll, 20 anos, estudante de Relações Internacionais.

Existe um machismo velado no dia a dia das mulheres que é pouco comentado passando despercebido na maioria das vezes, justamente por estar enraizado em nossa sociedade. Essas pequenas demonstrações de machismo, ao meu ver, são as mais difíceis de serem combatidas justamente por não se mostrarem como algo prejudicial de imediato, mas que, com o tempo, nos limitam como mulheres. Tanto na vida acadêmica, na vida profissional e na minha vida pessoal, enfrentei situações de desconforto e que simplesmente poderiam não ter acontecido. Na minha opinião, o motivo em comum de todas essas situações é que muitos homens ainda enxergam as mulheres apenas como um bibelô que serve para deixar o cotidiano deles mais bonito. Infelizmente, muitos homens ainda não aceitaram que as mulheres têm suas próprias opiniões, seus próprios desejos e suas próprias ambições, e que se não os agrada de alguma forma, não iremos mudar. Estamos cada vez mais independentes e não há nada que possa ser feito para retrocedermos. Os homens podem tentar nos restringir como eles quiserem: nos desmerecendo academicamente ou profissionalmente ao falar que somos muito emotivas, nos julgando por como queremos nos vestir e cuidar do nosso corpo, nos constrangendo com comentários inapropriados (e exigir nosso agradecimento, afinal, era pra ser supostamente um elogio), nos interrompendo diversas vezes para não concluirmos nosso pensamento e, o pior, nos julgando como loucas e sem senso de humor se nos revoltarmos diante de qualquer uma dessas atitudes.

Acredita em mudanças desse cenário? A sociedade brasileira sempre foi e continua sendo muito machista. Claro que não podemos deixar de reconhecer as vitórias que as mulheres obtiveram até agora. Entretanto, a maior dificuldade para maiores transformações está em nossos governantes. Atualmente, o perfil das pessoas que ocupam cargos importantes e influentes na política brasileira é extremamente preocupante. Tanto isso é verdade que neste mês surgiram diversos projetos que, caso venham a se concretizar, serão verdadeiras derrotas para todas as mulheres do Brasil. E não apenas isso, os projetos que visam melhorar a condição da mulher em sociedade na maioria das vezes são barrados e nem chegam para aprovação em última instância. Assim, é difícil que mudanças significativas ocorram na sociedade se o nosso governo continua patriarcal. Sim, isso não nos impede de tentarmos fazer a mudança acontecer diariamente por nós mesmas, limitando os discursos e atitudes machista que nos rondam, só que são mudanças que não tem longo alcance e que são em curto prazo. O que precisamos mesmo é rever todo o nosso sistema, para que a educação, a saúde, a mídia e o ambiente de trabalho possam promover o empoderamento feminino e a igualdade de gênero. Enquanto isso não ocorre estaremos aqui, resistindo e existindo, para pressionar a política brasileira até que essas mudanças ocorram. E sobre os homens machistas do nosso cotidiano, penso que enquanto os eles não tomarem uma iniciativa própria para rever esses conceitos, o machismo continuará a ser reproduzindo. Entretanto, se eles preferiram se iludir com o papel de homem e mulher que a sociedade patriarcal impõe e não abrirem os olhos para a revolução que está acontecendo em volta deles, a realidade vai ser difícil de aceitar, porque não estamos mais aqui para agradá-los. Agora nós temos voz e nos faremos ser ouvidas, doa a quem doer.

Além de parar de diminuir a voz e o poder de uma mulher.

Ana Laura Aiolfi
Ana Laura Aiolfi Padilha, 21 anos, estudante de Direito e co-fundadora da Coletiva de Mulheres do Vale do Itajaí (COMVI).

Nossa sociedade é forjada em concepções e atitudes histórico e culturalmente fortalecidas, que menosprezam a figura feminina e que refletem nos dias atuais, mesmo que em algumas vezes com menos intensidade e de forma mais velada em comparação com a alguns anos atrás. Dentre essas concepções e atitudes, percebo que os homens têm maior espaço para fala, maior credibilidade em seus posicionamentos, maiores salários e maior liberdade com relação à sua sexualidade e ao seu direito ao próprio corpo, unicamente por serem homens. Diante destes privilégios, há uma aceitação social acerca da posição de submissão imposta às mulheres, de repressão à nossa sexualidade, do nosso silenciamento pelos homens, aceitação essa que acontece tanto pelos homens quanto por mulheres, eis que muitas são ensinadas a isso. Os posicionamentos anti-feminismo, as violências físicas e psicológicas, a atitude de menosprezo pela voz e inteligência das mulheres, a visão de que mulher é objeto enquanto homem é sujeito e que, portanto, homens possuem direito sobre nossas escolhas e nossos corpos, são fatores que me agridem e me ofendem como mulher.

Acredita em mudanças desse cenário? Acredito que a sociedade tem evoluído bastante. Com as redes sociais, o feminismo ganhou muita visibilidade. Assim, muitas meninas e mulheres puderam conhecer a importância deste movimento, a perceber seu valor na sociedade e passaram a se empoderar, se amar e ajudar umas as outras. A mudança no comportamento das mulheres é fator principal. Com isso, alguns homens têm percebido seus privilégios e passaram a apoiar o movimento feminista, tendo atitudes como desconstruir preconceitos de seus amigos. São passos, por exemplo: quando uma mulher não aceita ser silenciada, há uma evolução aí. Quando uma mulher percebe seu relacionamento abusivo e se impõe, se empodera e se afasta, há uma evolução também. Aos poucos estamos construindo uma equidade, que não será imediata, mesmo porque o feminismo vem há décadas, passo a passo, trazendo essas evoluções. O machismo e a misoginia são ensinados e passados de geração em geração, mas hoje percebo que o feminismo também, cada vez mais. Há esperança, mesmo em meio à tantas figuras públicas e influentes como aquele-político-que-não-deve-ser-citado (não vamos dar mais ibope pro cara, né?), que tem seus seguidores cegos e fiéis, mas que acaba por se queimar sozinho. O ódio não pode ser mais forte que o amor. O opressor só será forte enquanto as (os) oprimidas (os) não perceberem a dimensão da sua força. Estamos no caminho.

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