Bem-Estar

“Não é a toa que são chamados de especiais”

O dia a dia de uma criança pelo olhar da educação inclusiva

O dia a dia de uma criança pelo olhar da educação inclusiva

Texto: Mariana Ricardo e Thamiriz Garcia
Edição: Andressa Zuffo

Cauã tem oito anos, vai à escola todos os dias, faz as tarefas de casa e brinca. Tem amigos, e muitos, de diferentes idades. Interage com as crianças, acompanha o desenvolvimento dos outros alunos e participa de apresentações. Ele também tem uma mãe dedicada, e ela tem um mundo azul para cuidar, pois Cauã foi diagnosticado como autista.

Eles precisam de ajuda para cuidar desse mundo com muito carinho, e é aí que entra o trabalho de educação inclusiva. “Tive sorte com as professoras do Cauã, sempre foram muito interessadas no assunto, buscaram se aprofundar para fazer o ambiente dele, se adaptaram. Ele frequenta a escola, se dá super bem com os amiguinhos. Existe uma agente que o acompanha. Tem outro aluno especial na turma dele que inclusive é o melhor amigo dele” – conta Ana Santos, mãe de Cauã.

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Cauã brinca com balões. | Foto: Acervo pessoal

Para a pedagoga Sabrina Makowiecki, Ana teve mesmo sorte em encontrar esse apoio para o pequeno Cauã, pois a maioria das escolas não possuem “professores preparados e estrutura para atendê-los, tornando difícil a rotina do aluno, principalmente porque a rotina é um item crucial para a vida de uma criança autista.”

E em alguns casos é necessário, sim, buscar ajuda fora de creches e escolas. Matheus também é autista, tem apenas três anos e apresenta um quadro mais avançado do que o de Cauã. Desde o primeiro aninho, ele frequenta a creche regularmente e recebe o apoio das professoras. Mas os pais encontraram em fevereiro desse ano um suporte maior para o desenvolvimento de Matheus, o trabalho da APAE que hoje realiza terapias e atendimentos especiais para crianças e adultos.

Receber o diagnóstico nem sempre é fácil, assim como a Ana, para Tamires, que é mãe do Matheus, também foi um susto. Ela conta que até mesmo chorou. “Para mim foi bem difícil, um baque até cair a ficha. Eu chorei, principalmente quando vim aqui na APAE, porque  pensei ‘O meu filho vai ter que frequentar uma entidade para crianças especiais’, mas aqui eles dão esse suporte, vão em casa, fazem entrevistas, conversam. Aos poucos vai diminuindo esse aperto.”

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Atendimento pedagógico realizado com Matheus na APAE | Foto: Mariana Ricardo

São sentimentos assim que a educação inclusiva tem a missão de plantar em cada uma das famílias que buscam conforto e auxílio no desenvolvimento das crianças. É mais do que fornecer atenção especial, é compreender as singularidades de cada um, e adaptar o ambiente para tal. Para a pedagoga, “incluir é preparar, é atender todas as necessidades de forma que auxilie tanto a criança com necessidade como a todas, que ambas aprendam uma com as outras, que profissionais aprendam com as crianças e estejam disponíveis e preparados para recebê-los, somando todas essas atribuições, é possível ver desenvolvimento e resultado ao fim do ano.”

E esse tipo de resultado é visível nas famílias de Cauã e Matheus, que sorriem ao ver a evolução de cada um nos pequenos detalhes. “Eu tenho orgulho do meu filho! Cada passo dele me deixa muito feliz, ele vence barreiras que eu me surpreendo sempre! No final do ano passado, por exemplo, ele se apresentou na escola sem vergonha nenhuma, parecia que fazia aquilo todos os dias, eu fiquei muito surpresa, não esperava!” – conta Ana, mãe de Cauã. Já Tamires conseguiu perceber a evolução em Matheus apenas nesses três meses de acompanhamento da creche juntamente com a APAE, “Cada palavrinha que ele solta, por mais que não seja completa, é uma vitória! São poucas palavras, mas cada uma é uma felicidade!”

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Cauã após apresentação na escola no final de 2015 | Foto: acervo pessoal

O trabalho de inclusão exige parceria e força de vontade, tanto dos ambientes escolares, como os de educação especial, e até mesmo o familiar. Cada caso é único e a adaptação faz parte do processo essencial de educação inclusiva. Assim como Cauã frequenta apenas a escola, Matheus frequenta a creche e uma entidade especial. É preciso que os pais estejam abertos a receberem ajuda e, o principal, que todas as pessoas envolvidas estejam munidas de informação.

A família da pequena Júlia, de três anos, é um exemplo de todo esse trabalho. O diagnóstico de Síndrome de Down foi difícil, principalmente para a mãe Alesandra. “Eu chorei muito, embora minha família tenha me apoiado bastante. Depois que saiu o resultado do exame, fomos orientados a buscar ajuda com um neuropediatra e outros profissionais”.

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Júlia em uma dos atendimentos com a psicopedagoga | Foto: acervo pessoal

E assim fizeram. Hoje a rotina da Júlia é muito agitada, mas a pequena evolui a cada dia. Todas as segundas-feiras ela vai à fonoaudióloga e à terapeuta ocupacional. Nas terças, ela tem fisioterapia e outra sessão de fonoaudiologia. Já nas sextas-feiras, ela frequenta uma psicopedagoga. Tudo isso em associações gratuitas, organizações não governamentais. “Não temos ajuda do governo. Para conseguir esta ajuda a família tem que viver em condições bastante precárias. O auxílio é difícil de conseguir, embora eu ache que qualquer criança com qualquer deficiência deveria receber.” – diz Alesandra.

Apesar das barreiras, hoje existem diversos ambientes voltados para o trabalho de educação inclusiva, sejam eles mantidos pelo governo ou não. Além disso, a conscientização de familiares e da sociedade em geral tem auxiliado para a propagação desse trabalho, através de informações e especializações de profissionais. Independente da maneira que essa educação é oferecida, o importante está em proporcionar conforto para a família e contribuir para o desenvolvimento do aluno, social e pedagogicamente.

“Hoje eu choro quando lembro que chorei, porque chorei sem necessidade. Deus enviou uma benção para mim, uma menina alegre, feliz, que traz felicidade para todos que ela vê. Todo mundo que conhece a Júlia, ama. E é um amor muito verdadeiro que ela passa para a gente! Chorei muito, mas hoje choro por ter chorado. Deveria ter confiado em Deus, porque o que ele me mandou é a alegria maior que uma pessoa pode ter, um serzinho especialzinho, não é à toa que são chamados de especiais. Ela é a alegria da família inteira!” – Alesandra, mãe da Júlia.

Lei Brasileira de Inclusão

Conhecida antigamente como Estatuto da Pessoa com Deficiência, a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (LBI – Lei 13.146/15) entrou em vigor em fevereiro deste ano, após tramitar por 15 anos no Congresso. A garantia dos direitos passou a valer 180 dias depois da sanção.

De acordo com o texto da Lei, é classificada como pessoa com deficiência aquela que tem impedimentos de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial que podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas.

Conheça alguns dos benefícios assegurados através da Lei:

– Proibição de escolas privadas cobrarem a mais por alunos deficientes;

– Reserva de 10% das vagas nos processos seletivos de educação superior e técnica;

 – Planos de saúde ficam proibido de discriminar pacientes em razão de sua deficiência;

– Teatros, cinemas, auditórios e estádios devem reservar espaços e assentos;

– Hotéis deverão ofertar quartos acessíveis;

– Criação do auxílio inclusão (renda auxiliar para o trabalhador deficiente);

– Revisão da lei de cotas, obrigando empresa com número de 50 a 99 funcionários a contratarem ao menos uma pessoa com deficiência;

– Todas as calçadas deverão ter acessibilidade, sendo de responsabilidade do poder público fazer a obra;

– Pessoas com deficiência intelectual terão direito ao voto e casamento.

APAE

Reconhecida por todo o Brasil, a APAE – Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais – é uma “associação em que toda a comunidade se une para prevenir e tratar a deficiência e promover o bem-estar e desenvolvimento da pessoa com deficiência”.

As APAEs têm como principal missão prestar serviços de assistência social no que se diz respeito a melhoria da qualidade de vida da pessoa portadora de deficiência, conscientizando cada vez mais a sociedade. Hoje, são mais de 2.000 filiais por todo o Brasil, tendo sede e fórum em Brasília.

“Temos diversos programas e buscamos fazer um trabalho de troca entre APAE, escola regular e família. Vejo um progresso no trabalho de educação inclusiva, tanto por parte do poder legislativo e executivo, como também de todos. O segredo está sempre na informação”. Afirma Juliana Nering, coordenadora pedagógica da APAE Itajaí.

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