Cidades

Bairro da Barra: berço da cidade e da cultura

Com a passarela que unirá a Barra Sul ao local e o futuro Mercado Público a tendência é que ele se torne um novo ponto turístico para Balneário Camboriú.

Um dos bairros mais antigos de Balneário Camboriú está ganhando novas atrações. Com a passarela que unirá a Barra Sul ao local e o futuro Mercado Público a tendência é que ele se torne um novo ponto turístico para a cidade.

Texto: Matheus Berkenbrock e Renata Rutes Henning
Edição: Douglas Schinatto
Fotos: Renata Rutes Henning

Muitas memórias e histórias vividas. O Bairro da Barra é conhecido como o berço da história de Balneário Camboriú, onde a cidade se tornou uma sociedade e também deixou de ser independente para pertencer a Camboriú. A Barra é um referencial da história da cidade e abriga a Igreja da Nossa Senhora do Bom Sucesso, que é uma das mais antigas do Estado e nomeou o que é hoje Balneário. Logo o bairro irá sofrer uma transformação, com a inauguração da Passarela que ligará a Barra Sul a ele, atraindo mais turistas para o local.

O primeiro morador de Balneário, que veio até a cidade para fundá-la, foi Baltazar Pinto Corrêa, que requereu terras para plantar e que foram concedidas no ano de 1826. Ele se instalou onde é hoje o Bairro dos Pioneiros. Pode ser que havia mais moradores, mas o primeiro com consentimento para ali se instalar foi ele. Porém, de acordo com o historiador Isaque de Borba Corrêa, todo o movimento populacional nasceu na Barra, depois de 1840. “Isso começou com a fundação da Igreja de Santo Amaro. Se a localidade não tivesse igreja não tinha nome. Mas eles não conseguiram construir, e então somente em 1849 foi finalmente construída a Igreja da Nossa Senhora do Bom Sucesso, feita de óleo de baleia, e que está até hoje lá”, explica. Por tanto, a vila sem nome passou a se chamar Nossa Senhora do Bom Sucesso. “Politicamente a cidade também nasceu nesse bairro, foi onde instalaram a delegacia, cartório, e demais prédios importantes”, diz.

A situação continuou assim até meados de 1890. Com a Proclamação da República surgiu um sentimento de mudança. “Um representante do governo, o engenheiro João de Melo, veio até a vila e decidiu que o local (Bairro da Barra) era impróprio, já que era uma faixa estreita entre o morro e o rio. A população não gostou e relutou, mas de nada adiantou”, informa. Após isso um grupo de políticos começou a formar a Vila do Garcia, hoje conhecida como Camboriú. Mesmo com a tentativa de impedimento do padre João Rodrigues de Almeida, figura importante que residia na Vila da Nossa Senhora do Bom Sucesso, as duas vilas acabaram se unindo. “A Barra parou nesse tempo. Foi pintado um quadro antes da divisão e eu tenho uma foto de 98 anos depois que mostra que o mato comeu tudo. Ela foi esquecida, já que não tinha ponte e nem BR. Para acessá-la tinha que dar a volta pelo Bairro Rio Pequeno, em Camboriú. O Bom Sucesso regrediu, foi um tempo de grande perda”, relembra. Apenas em 20 de julho de 1964 Balneário se desmembrou de Camboriú para se tornar a cidade que é hoje. O historiador salienta que o município passou a reconhecer a Barra como importante cenário da história de Balneário com os governos de Haroldo Schultz e Rubens Spernau. “Porém, acho que fazem pouco pela Barra. É um local bacana e que precisa de uma política cultural específica para ele. O dia que abrir a passarela, que eu considero um desaforo e desperdício para pouca utilidade, vão valorizar muito esse ponto. Precisamos cuidar para que a história e a cultura de lá não se percam… e infelizmente já perdemos muito”, opina.

A balsa

Hoje a única forma de acessar a Barra a pé é pela conhecida balsa, que funciona há anos. O barco tem espaço para colocar as bicicletas e funciona todos os dias, das 6h à 00h. Segundo um dos tripulantes da embarcação, Miguel dos Santos, 62 anos, todos os dias eles levam cerca de duas mil pessoas. Ele trabalha na balsa há dez anos, e diz que quando começou levavam apenas duzentas. “Com a inauguração da passarela ainda não sabemos se a balsa irá continuar, mas muitos moradores esperam que sim. O transporte por aqui é rápido, na passarela será um pouco demorado porque as pessoas terão que subir 16 andares pelo elevador, atravessar a pé e descer novamente os 16 andares do outro lado. Pode formar filas… acho que a balsa terá que continuar”, afirma.

Mora há 45 anos na Barra

Logo atravessando a balsa é possível encontrar o pescador José Pedro da Silva, 61 anos, o Zequinha. Ele nasceu na Praia do Estaleiro, mas aos 16 anos se mudou para a Barra, onde mora há 45 anos. Com carinho ele lembra da época da juventude, em que enquanto não estava trabalhando com a pesca estava passeando na praia, brincando com os amigos ou participando de festas. Zequinha comenta que antigamente aconteciam festas grandes no bairro, como a de Nossa Senhora Aparecida, Santo Amaro e a do Pescador. “Fazíamos procissão pelo rio… era lindo. Vinha muita gente, a tradição dessas festas era muito forte. Infelizmente hoje não é mais assim. Até acontecem algumas festas, mas não é como antes”, explica.

O pescador foi casado por 35 anos, e conheceu sua esposa na Barra. Ele tem duas filhas e um casal de netos. Todos eles também residem no bairro. Ele afirma que ama a Barra, e que o local mudou muito nesses 45 anos, evoluindo junto da cidade. “Acho que a principal coisa que mudou foi a questão da segurança… sempre vi a Barra como um local tranquilo, mas ultimamente o número de crimes está aumentando. Falta policiamento”, comenta. Ele opina que a passarela fará toda a diferença, e que tende a atrair mais turistas para o bairro, já que hoje a maioria passa por lá apenas para acessar as praias.

Zequinha afirma que em sua opinião a pesca continua totalmente atrelada ao desenvolvimento do bairro, mesmo que menos do que antigamente. “Quando eu comecei era muito forte a cultura dos pais e filhos pescarem juntos, hoje a maioria dos jovens que se envolveria com a pesca trabalha na Marina Tedesco”, conta. Na opinião dele, o Mercado Público não atrairá os pescadores, porque boa parte já passa direto para os revendedores. “Infelizmente acho que algum dia a pesca acabar, porque não há incentivo e os jovens não querem mais trabalhar com isso. Eu vivo da pesca, e sei que boa parte dos meus colegas também vivem, além das mulheres que trabalham com artigos da pesca, como o couro de peixe usado em artesanatos”, explica.

Cultura                                                                         

Hoje, o bairro abriga um bom número de moradores descendentes dos nativos da cidade. Para tentar preservar isso, a Fundação Cultural (FCBC) transformou a Casa Linhares em um Ponto de Memória. “Fizemos isso a pedido da comunidade. O Ponto reflete não só a Barra, como também toda a cidade. Reconhecemos a importância e relevância desse primeiro bairro e temos o cuidado de salvaguardar a sua cultura”, explica a presidente da Fundação, Guilhermina Stuker.

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Exposição “Armazém dos Secos e Molhados” fica até julho no Ponto de Memória de Balneário Camboriú, que fica na Barra.

Guilhermina salienta que são realizadas anualmente duas grandes festas no bairro: o Festival do Folclore, que ocorre em agosto, e o Festival de Frutos do Mar, em dezembro. “O nosso objetivo com esses eventos é manter acesa a cultura. O do Folclore é a imaterial, e o dos Frutos do Mar é a alimentar. A pesca foi e ainda é de grande importância para os moradores da Barra, além de ser uma importante atividade econômica ela também está muito presente como alimento”, afirma. A presidente lembra a importância da passarela da Barra, que irá facilitar a passagem do público, que irá chegar até o bairro e se deparará com o contexto histórico-cultural. “É um bairro muito diferente do restante da cidade, o que é excelente”, diz.

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Igreja de Nossa Senhora do Bom Sucesso é uma das mais antigas de Santa Catarina e foi feita com óleo de baleia.

Turismo

O secretário do Turismo Hélio Dagnoni concorda com Guilhermina e afirma que a passarela irá levar o turista até a Barra, que ainda não é tão visitada quanto deveria. “Discute-se muito no Plano Diretor para que a Barra continue do jeito que está. É um ponto tradicional onde os turistas e moradores podem ir para ver onde a nossa Balneário nasceu. Vejo que a passarela vai fazer a Barra crescer assim como o teleférico fez com a Praia de Laranjeiras”, descreve. Hélio lembra outro atrativo turístico que será montado nas proximidades do bairro: o Mercado Público de Balneário Camboriú. O prefeito Edson Renato Dias já possui o projeto, que está tramitando na Secretaria de Planejamento Urbano. “Será um local para todos os públicos. Você poderá comprar o seu peixe, como também ir à noite para um happy hour. Será um mercado público chique”, afirma.

Mercado Público

A principal novidade da Barra é o futuro Mercado Público, que abrigará também o Mercado do Peixe e Carreira do Pescador. Toda o local será reurbanizado. Segundo o prefeito Edson Renato Dias, em breve o terreno onde o complexo será construído será adquirido pela prefeitura. “A partir daí vamos elaborar o projeto, licitar a obra e, acredito, iniciá-la dentro de quatro meses”, diz. A ideia é que o Mercado fique pronto um ano após o início das obras. A intenção é que o Mercado do Peixe seja utilizado pelos pescadores artesanais, nativos, que residem no bairro, através de um convênio com a Colônia de Pescadores. “Vamos construir, montar os boxes e passar o uso, dentro das exigências legais. O Mercado Público será moderno e vai permitir vários tipos de comércio. Vamos ter uma série de regramentos que deverão ser seguidos e licitar os espaços para exploração comercial. A intenção é que tenhamos ali um centro comercial com restaurantes, lanchonetes, lojas, entre outros”, salienta.

A Carreira do Pescador será um espaço em que o pescador poderá trazer sua embarcação para a terra e fazer as manutenções necessárias. Nesse projeto também constará o Museu Municipal, que hoje fica instalado no Parque Cyro Gevaerd (Zoológico da Santur) e que também representa a cultura e a história da cidade. “Este complexo vai unir turismo, riquezas culturais, lazer e desenvolvimento econômico em um espaço que compreende a Barra Sul e o Bairro da Barra. Vamos trazer o morador da região central e o nosso turista para o berço histórico da nossa cidade e vamos oferecer ao nosso morador nativo a oportunidade de se desenvolver economicamente e com qualidade de vida”, afirma.

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