Opinião

Mulher: dona da voz e da vez

Várias atitudes dos homens não agrada as mulheres e, nesse post, algumas convidadas falam sobre isso.

Neste especial, dividido em duas partes, convidadas dissertam sobre atitudes cotidianas dos homens que reprovam, as inferiorizem ou ataquem como mulher.

Por: 24 mulheres empoderadas

Suffragettes reivindicando a ampliação do direito de votar, movimentos em busca da igualdade legal e social, Simone de Beauvoir desconstruindo o papel da mulher em sociedade, lei Maria da Penha entrando em vigor, Geraldine Hoff Doyle e o We Can Do It!, marchas das vadias, repercussão do “bela, recatada, do lar” na internet. Esses são alguns dos vários exemplos que marcam a luta feminista e a saga do empoderamento feminino em todo território mundial, desde o século XIX até os dias de hoje. Com cunho social, filosófico e político, o feminismo reivindica os direitos das mulheres, que, cá entre nós, são delas por natureza. São décadas de busca, por exemplo, pela autonomia do próprio corpo, de equiparação salarial, maior zelo por àquelas que sofreram violências domésticas, psicológicas e sexuais, e a reprovação de quaisquer formas de discriminação.

Entretanto, inserida numa sociedade patriarcal, conservadora e machista, a figura feminina continua inferiorizada e mudanças, apesar de significativas, são pequenas. Por isso, mulheres de gêneros, sexualidades, raças, idades e classes sociais diferenciadas foram convidadas para dissertar sobre coisas rotineiras que os homens fazem, ou situações proporcionadas por eles, que não as agradem, as ofendam ou rebaixem a imagem da mulher – na vida pessoal, profissional, e em campos como a publicidade, a dramaturgia, a política, a saúde pública. Além disso, todas comentaram se acreditam ou não na mudança de posicionamento dos homens ou se, num futuro não muito distante, a mulher em sociedade pare de sofrer com tais atitudes.

Mulheres não gostam do “Gostosaaaa! Oh, lá em casa”.

Natália Garcia
Natália Garcia, 20 anos, estudante de Direito.

É extremamente difícil, hoje, uma mulher sair na rua sem se incomodar. Aqueles olhares que te atravessam, aqueles comentários, os assobios, o “gostosa”. Creio que é muito mais fácil ensinar as mulheres a temer do que os homens a respeitarem. Como se fosse obrigação estar na rodinha de amigos e falando de mulher.

Acredita em mudança desse cenário? Pra mim, há esperança. Não digo pra todos, mas para aqueles que estão à nossa volta e que podemos desconstruir todos os dias um pouquinho, seja apresentando opiniões, seja debatendo. Acredito que o mundo muda e que as pessoas mudam junto. Se estamos numa luta, hoje, no movimento feminista, é porque esperamos, buscamos e queremos a mudança de toda uma sociedade. Ou seja, que consigamos afastar as ideias, atitudes e direitos patriarcais e que realmente busquemos nossa ideologia de equidade.

Não gostam de cantadas na rua, num geral.

Lorena Figueiredo (1)
Lorena Figueiredo, 20 anos, técnica em Administração.

Nas ruas somos muitas vezes submetidas a olhares pejorativos devido a nossa vestimenta ou beleza. Passamos uma vida inteira sendo “obrigadas” a aceitar e escutar cantadas, digo, falácias de duplo sentido, ou até mesmo palavras de ódio, quando a nossa aparência não os agrada. Vivemos num momento em que a mente masculina parece que projeta que a mulher deve estar condicionada a funções que os inclua integralmente.

Acredita em mudanças desse cenário? A partir do momento que o homem passar a entender que nossas vestes, nosso comportamento ou nossa fala, inclusive simpatia, não os dá a permissão de nos tocar, dirigir a palavra em tons grosseiros e maliciosos. Que os mesmos não têm direitos sobre nós, mesmo sendo maridos, namorados. Que não somos obrigadas a nos submeter às vontades de ninguém, ser agredidas e humilhadas por isso. Não devemos nos sentir coagidas diante de situações abusivas e devemos sim nos manifestar, expor, e usar as leis que nos protegem para evitar que esse tipo de pensamento se espalhe, e conscientizar as pessoas que isso é e está muito errado. Um grande exemplo de atuação é o feminismo, que ultimamente tem crescido muito e se manifestado tanto publicamente quanto nas redes sociais. Isso como forma de mostrar à população que buscamos igualdade, respeito, e que respeitamos os demais, mas queremos ser tratadas perante a lei e o governo de tal maneira também. Quando esses valores começarem a ser compreendidos, reforçados, e entendidos da devida maneira, aí sim, teremos alguma mudança, espero que num futuro próximo.

Sério mesmo, camarada.

Jessica Mello
Jessica Mello, 20 anos, estudante de Publicidade e uma das escritoras do blog Cariocando.

O discurso machista, até mesmo sem ser totalmente escancarado, está entranhado na sociedade e é muito difícil homens não reproduzirem algum tipo de coisa que não ofende. O mais visto/ouvido ainda são as piadinhas sobre a mulher “puta” e aquelas chamadinhas ridículas na rua.

Acredita em mudanças desse cenário? Sinceramente, uma parte de mim muito esperançosa acredita que daqui há algum tempo as coisas vão melhorar 70%, porque acho que o conhecimento cura a ignorância tanto intelectual quanto a de alma. Mas sabemos que as pessoas, mesmo que aceitem certas coisas, não mudam sua opinião. Então, ainda teremos problemas, mas acho que já saberão ficar mais “na sua”.

Nem de abordagens agressivas em redes sociais.

Regina Campos
Regina Campos, 19 anos, modelo.

Na internet também acontece muito disso. Pelo fato da minha exposição ser um pouco aflorada, já recebi e ainda recebo muita mensagem desnecessária e ofensiva de homens que nem sequer me conhecem.

Acredita em mudanças desse cenário? Acredito sim! Em pouco tempo muita coisa vem mudando. Acho que com a ajuda das redes sociais nós mulheres tivemos a oportunidade de nos expressar ainda mais. O movimento feminista não se resume só as redes sociais, é claro, mas grande parte dessa mudança está vindo dela, pois abrange um público maior. Acredito que com luta conseguiremos abrir a mente de pessoas que ainda insistem em ser machistas e opressoras, mas, infelizmente, isso levará muito tempo.

“Você só ‘pega’ outra menina porque nunca encontrou um cara que te pegue de jeito”.

Paula Saban
Paula Saban, 20 anos, estudante de Pedagogia.

Isso dá um puta nojo. Ouvir isso quando você está com a pessoa que gosta faz se sentir oprimido, sem poder fazer nada. Ter que lutar todos os dias pra ser feliz com a sexualidade que escolheu é não se atrever a ser invisível diante das escolhas e continuar a existir mesmo com as circunstâncias dolosas.

Acredita em mudanças desse cenário? Sim, com o preconceito em um todo. Acredito que as coisas ainda possam melhorar e qualquer coisa que hoje pareça “diferente” amanhã se encaixe nos padrões. Se a gente não acreditar que pode melhorar, quem vai?

Ofende achar que ser lésbica “é um convite”.

Yasmin Moraes
Yasmim Moraes, 20 anos, estudante de Publicidade e Propaganda.

Em minha posição pessoal de lésbica, há muitas atitudes e falas de homens (héteros, em sua maioria) que me incomodam. Antes de mais nada, gostaria de deixar bem claro aos homens: ser lésbica não é um convite. Não é um convite para fazer um ménage. Não é um convite para você falar de forma aberta sobre sua vida sexual, que pouco me interessa. Não é um convite para você apontar para outras mulheres e as assediarem moralmente só porque “gostamos da mesma coisa”. Não é um convite para você achar que é uma fase, que você poderia ser o “corretivo” desse gênero sexual. Não sou um desperdício e com certeza não sou o homem da relação, porque o sentido fundamental do lesbianismo é justamente não ter homem algum na relação.

Acredita em mudanças desse cenário? Creio que seja meio utópico a mulher ficar livre de ataques machistas. Porém, é possível que isso diminua. Acredito que sempre terá algum homem que acabe demonstrando seu lado misógino, porém, aumentará o número do público masculino ligado ao feminismo. Nós mulheres percebemos, ao longo da vida, que provavelmente seremos tratadas com desprezo, maus olhares, com censura, agressividade e muito assédio. Com isso, percebemos que devemos nos impor, devemos falar, gritar, nos empoderar. Já ficamos caladas durante muito tempo. O nosso potencial vai além do que uma cabeça masculina poderia assimilar.

A Yasmim transformou essa fala em arte, algum tempo atrás, aqui nessa publicação da página dela “Com Amor, Yasmim”.

É chato quando homens não ouvem os posicionamentos femininos e impõem suas falas às delas em discussões.

Bruna Vicente Ribeiro
Bruna Vicente Ribeiro, 22 anos, vice-presidente  regional da União Catarinense das e dos Estudantes (UCE) e co-fundadora da Coletiva de Mulheres do Vale do Itajaí (COMVI).

Odeio quando homens, independente se o meu posicionamento é conciso e minha fala é inteligente, continuam falando mais alto e por cima da minha fala numa tentativa de me silenciar. A falta de respeito é nítida quando homens se escutam e debatem, mas quando uma mulher fala pressupõe que não há importância. Tem origem na nossa cultura machista de taxar mulher de louca, emocionalmente instável, incapaz. Naquela falácia que nossos hormônios não nos permitem fazer análises amplas e críticas, que somos muito sentimentais.

Acredita em mudanças desse cenário? A esperança precisa sempre estar presente nas pautas de reforma de uma sociedade desigual para alcance de uma igualitária e equânime. Eu não acredito que uma cultura milenar mude drasticamente e em tão pouco tempo. No entanto, acredito que as futuras gerações nascerão com uma resistência muito concisa frente a esses padrões que colocam as mulheres de forma inferior. Nesse sentido, a sociedade terá uma autonomia maior para criar instrumentos de combate à opressão e luta pelo respeito e equidade cultural e social – englobando aqui tanto o Estado quanto à vida orgânica em sociedade e suas expressões artísticas.

Ou não se dispõem a entender o ponto de vista da mulher.

Camila Cazarin
Camila Cazarin, 21 anos, estudante de Biomedicina.

Como mulher e parte de uma minoria, vivencio constantemente a resistência masculina para com pensamentos que vão além do que eles acreditam, sendo opressores não conseguem enxergar outro ponto de vista. Como, por exemplo, em minha sala de aula: meus colegas, homens, brancos, de classe média e heterossexuais, persistem em dizer que quando me sinto ofendida com piadas machistas de professores estou vitimizando esse tipo de situação, pois já é um discurso habitual no meio que somos inseridos.

Acredita em mudanças desse cenário? Desde o início da vida social, o homem vem como um indivíduo opressor sem nunca sofrer um impedimento. Sendo assim é impossível mudar algo que já foi pré estabelecido. O movimento feminista entrou em ação para dar voz a essas mulheres que não enxergavam o direito de escolha. Não é prioridade do feminismo educar homens e sim empoderar mulheres, fazendo-as entender que somos independentes e auto suficientes. Mostrar a elas que existe sim uma maneira de quebrar os estereótipos impostos a nós.

Ou, pior ainda: diminuem as falas das mulheres quanto a questões profissionais.

Ananda Torres
Ananda Torres, 20 anos, estudante de Cinema.

O que eu tenho mais vivido e me incomoda mais é a atitude dos homens de muitas vezes diminuir a mulher como profissional e com capacidade intelectual. Pra tu ter voz numa reunião de algum projeto, por exemplo, parece que tu tem que gritar, se afirmar muito mais que um homem faria. Os homens te interrompem, duvidam da sua capacidade ou simplesmente não querem que tu fale.

Acredita em mudanças desse cenário? Olha, eu espero que sim. Eu não sei se é possível uma mudança dos homens, quando isso já está muito enraizado. Mas aí é que tá. O movimento feminista, no meu ponto de vista, dá empoderamento feminino. Os meus esforços, e meu suor, e minha luta e minha conscientização são voltadas para as mulheres, empoderar as mulheres. Por meio do empoderamento feminino esses caras aí não tem outra chance, não tem outra opção a não ser abaixar a bola e mudar o posicionamento. Vai chegar uma hora, meu amigo, que tu vai ter que abaixar a cabeça e ver que a mulher tá aí e é sim capaz de tudo que tu é.

Mulheres não gostam da hierarquização entre gêneros.

O que incomoda muito, também, são as posições hierarquizadas entre os gêneros. A maior representação do homem hétero, cis e branco está na política nacional. A falta de equidade, como o salário inferior, por exemplo. São questões atuais e em pauta, são problemas que as pessoas tropeçam todos os dias e pouquíssimas levantam a voz pra se posicionar, pra correr atrás e buscar mudança. – Natália Garcia.

O reflexo da diferença de criação as inferioriza.

Ana Lourenço
Ana Lourenço, 21 anos.

Dentre todo o machismo diário, o que sempre me acompanhou e o que mais me incomoda é o da diferença de criação. Tenho um irmão mais velho e chega a ser nojento a diferença de tratamento. Começando pelas tarefas da casa: onde já se viu homem tirando o próprio prato da mesa? Homem lavando a louça? Varrendo? Que absurdo! Cadê a mulher dele? Pois é, absurdo o fato de que estamos em 2016 e as mulheres ainda são tratadas como empregadas dentro da sua própria casa. Isso sempre me incomodou de perto. Eu vivo com isso desde que me conheço por gente e se eu questiono “por que o meu irmão tá ali jogado no sofá e eu tenho que limpar as coisas dele?”, tenho como resposta uma simples gargalhada ou “deixa ele ali”. São palavras, mas não são respostas.
Pra aprofundar mais, vamos entrar no assunto de namoro. Meu irmão sempre foi galinha, sempre. Aqui em casa sempre foi entrada e saída de muitas meninas, até de “amigas” minhas. O que a minha mãe acha disso? Não sei, nunca ouvi ela falar nada sobre. Pra ela é normal, homem tem que satisfazer seus desejos, sua vontades. Querem saber o que acontece se eu, com 21 anos, trago um menino aqui pra casa? Não sei também. Não fui autorizada.
Quer ver então quando é debate/conversa sobre algo importante como política ou atualidades. Qual mulher que nunca deu a sua opinião e se sentiu ignorada? E que em seguida ouve um homem falando exatamente o que ela falou e ele ganha aplausos? A verdade é essa, as pessoas acham que mulher não tem moral pra falar sobre política, aborto, e legalização de drogas, por exemplo. Quantos meninos a gente já não viu fumando maconha e se achando o cara? E daí vem uma mulher que gosta de fumar e é rotulada como “poser”, “só quer chamar a atenção mesmo”.
Afinal, limpar toda a casa, me privar da minha sexualidade e não poder dar palpite em assuntos sérios realmente faz todo o sentido ao ler coisas como “machismo é vitimismo”, não é mesmo?

Acredita em mudanças desse cenário? É difícil falar que todas as pessoas do mundo serão afetadas e que irão mudar seus conceitos. Acho que é por isso que há tantas campanhas sobre como educar crianças e começar por elas. Acredito que já estamos fazendo diferença na sociedade sim, e não só em relação aos homens. Hoje em dia vejo o quão diferente as mulheres estão umas com as outras e principalmente com elas mesmas. Não saber que estamos sozinhas nos dá uma força enorme de continuar lutando e seguir em frente. O futuro é incerto, não tenho como falar como vai ser daqui há 30, 50, 100 anos. Se não for do jeito que esperamos que seja… Bom, minhas netas estarão no meu lugar na luta. Talvez a gente não consiga mudar o mundo, mas vamos conseguir fazer impacto nas pessoas que estão ao nosso redor. Se cada um fizer sua parte, conseguimos alcançar mais pessoas.

A objetificação sexual de travestis e transexuais as fere.

Maia Cardoso
Maia Cardoso, 21 anos, formada em Design de Produto pela Universidade Estadual de Maringá (UEM).

Primeiramente, vou sempre me posicionar como mulher e travesti, então é uma visão um pouco diferente. A relação entre o homem hétero cis e a mulher transexual ou travesti é bastante complicada. Sempre nos tornamos objetos sexuais, não dignas de sair na rua, nem de afeto, nem de amor. Muitas vezes nos vêem e nos tratam como produtos prontos para realizar os seus desejos. É como se fôssemos uma versão que topa tudo. Claro que isso é usado como forma de proveito a partir de nossa solidão: as mulheres trans se sujeitam a essas situações porque são sós. Enfim, essa forma de nos objetificar e nos resumir ao sexo é bastante ofensiva, e é dessa forma que os homens mais nos oprimem. Lembrando que muitos riem de nós em público, mas nos procuram à noite.

Acredita em mudanças desse cenário? Há muitos homens que já não se encaixam mais nesse perfil opressor. Mas falando em sociedade, não acredito que isso irá se dissolver tão fácil. A hierarquia masculina é muito forte e estável. A sociedade ainda nos objetifica muito. Acredito que o respeito tem crescido sim, e claro que é sempre bom ser positiva. Mas acredito que um mundo sem machismo é uma utopia bastante distante.

Muitas falas e discursos, em si, atacam as mulheres.

Yara Cristina
Yara Cristina, 20 anos, estudante de Ciências Biológicas.

A ofensa a uma mulher começa com aquelas falas machistas que já conhecemos muito bem. “Lugar de mulher é em casa, na cozinha e cuidando dos filhos”. “Mulher não sabe dirigir”. “Sexo frágil”. “Mulher só quer homem rico”. “Mulher não entende de futebol, muito menos de carro”. “Mulher solteira que fica com todo mundo é piranha. Porque, sabe como é, né? A chave que abre todos os cadeados é a chave mestra, o cadeado que se abre para todas as chaves não serve pra nada”. “Mulher que anda na rua de roupa curta não se dá ao respeito”. Entre vários outros absurdos que costumamos ouvir todos os dias. A falta de respeito nos ofende e nos agride todos os dias. São as cantadas na rua, a culpabilização das vítimas de estupro, as duras críticas em relação a nossa aparência física, o tratamento da mulher como objeto (principalmente sexual), os estereótipos, etc.

Acredita em mudanças desse cenário? Infelizmente acho que talvez não acabe totalmente. Assim como após anos de luta, o racismo e a LGBT fobia ainda existem. Mas, acredito que, como nesses dois casos, o machismo diminua e muito também. Enquanto houver homens de cabeça aberta, que nos ouçam, que nos respeitem, ainda há esperança. Temos muita luta ainda pela frente, mas eu acredito sim que o movimento feminista ainda vai nos trazer muito mais liberdade, segurança e respeito. A mulher tem que ser quem e o que ela quiser. E o lugar dela também é onde ela quiser!

A insegurança no fato de andar na rua, sozinha, à noite, é desagradável.

A mulher não tem mais segurança. Eu costumo voltar do trabalho à noite e sozinha. Boa parte do meu trajeto é a pé, e já fui seguida diversas vezes. Tenho um conhecimento básico de defesa pessoal e conheço onde moro pra poder sair dessas situações bem, mas a questão que quero levantar é que, se não temos como sair de casa sem ter que ficar olhando as espreitas, esperando que nada nos aconteça, o que devo pensar quando um homem estranho me abordar na rua e começar a andar no mesmo trajeto que eu? Ou numa noite qualquer, o que procurar fazer caso note um indivíduo com passos iguais aos meus? Sendo que a cada dia mais a porcentagem de abusos sexuais e estupros aumenta no país. O que me assegura que este indivíduo tem boas intenções comigo? Cabe a mim ajudar caso ele venha falar comigo, devo me sentir ou não me sentir confortável? É exagero sentir medo? Não se sentir segura? – Lorena Figueiredo.

Insegurança essa, beeeeem, fundamentada.

Por exemplo, o dia em que eu estava voltando da faculdade à noite e um homem questionou “por que uma mulher tá sozinha na rua a essa hora?”. Por quê? Não podemos estar sozinhas na rua ou em qualquer outro lugar à noite? Não somos pessoas livres? Ou não podemos porque existem homens que além de não respeitarem as mulheres, nos “atacam” na maioria das vezes à noite com abusos, assédios e agressão? Também já me ofendeu quando eu estava saindo da aula, ainda dentro da universidade, e um homem parou ao meu lado e começou a se masturbar olhando pra mim. Neste caso, fica clara a visão das mulheres como objeto sexual. – Yara Cristina.

O relato da Yara sobre o assédio que sofreu na universidade em que estuda você pode ler na íntegra aqui

É agressivo “encoxá-las” em trens, ônibus e outros transportes públicos.

Hoje em dia, vira e mexe, saem matérias a respeito. Casos em que o indivíduo se aproxima das mulheres e ocorrem aquelas situações desconfortáveis. Moças que, por passar por situações como essas, acabaram ficando com os fluídos do indivíduo em suas roupas. Comigo já aconteceu várias vezes de ser cercada em ônibus, em situações que o indivíduo fica ereto. O mais humilhante é que na maioria das vezes você não tem para o que recorrer, pra onde ir, e com quem falar porque as pessoas vão te tratar como alguém extremista, que só quer aparecer. Dificilmente alguém vai acreditar em assédio. Esse assunto é um grande agravante e pode traumatizar a mente de uma mulher, assédio não é algo pequeno, nem deve ser tratado assim. – Lorena Figueiredo.

Mulher não vai pra balada procurar homem. Vai para se divertir!

Quando uma mulher sai de casa para uma festa sozinha, ela não está indo procurar um homem para si, nem muito menos ela deixa de ter valor por estar só e curtindo sua vida. Os valores se invertem quando a mente apenas se baseia apensar que a mulher é, e sempre será, o sexo frágil da relação, que é dependente do homem em todos os âmbitos de sua vida. – Lorena Figueiredo.

E isso nos leva a outro ponto: a felicidade de uma mulher não depende do homem.

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Marina Bessani, 20 anos.

Uma coisa que eu ouço constantemente, de pessoas da família, não só de homens, é em questão de namorado. Sempre que têm a oportunidade, as pessoas dão opiniões de como eu posso fazer para arrumar um namorado, como se eu estivesse desesperada atrás de um ou minha felicidade dependesse inteiramente de ter um homem na minha vida. “Você tem que arranjar um namorado logo ou vai acabar sozinha”. “Você precisa agir mais como mocinha pra arranjar um namorado, você tem que se comportar”. “Esse cara não vai querer namorar com você se você tiver essa atitude”. Por que eu iria querer namorar um cara que quer fazer eu me sentir inferior? Por que acham que eu tenho que namorar esse cara? Por que eu tenho que me comportar? No caso, não beber, não fazer brincadeiras e não ser eu mesma pra algum cara querer namorar comigo. Eu não preciso de um cara que fique comigo achando que eu dependo inteiramente dele ou que não me conheça de verdade. Se um dia eu voltar a namorar vai ser com alguém que escute o que eu falo, que me respeite e me trate como igual.

Acredita em mudanças desse cenário? Acredito que sim, mas vai demandar tempo. A sociedade é machista desde sempre e para as pessoas pararem de enxergar o feminismo, movimento novo comparado a isso, como vitimismo vai demorar um tempo. É hora de enxergar o feminismo como um movimento da minoria, realidade e melhoria da sociedade.

Acha que acabou? Não, ainda não.
A segunda parte desta publicação você lê na próxima quarta-feira (1), às 20h.

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