Comportamento

Religiões Pagãs: crenças que desconhecemos

O Paganismo tem crescido muito no Brasil, mas ainda se sabe pouco sobre essas novas religiões. Conheça mais sobre elas e sobre seus praticantes.

O Paganismo tem crescido muito no Brasil, mas ainda se sabe pouco sobre essas novas religiões. Conheça mais sobre elas e sobre seus praticantes.

Texto: Letícia Maia, Mariana Campos e Paula Leão
Edição: Alan Willian
Fotos: Og Sperle
Gráfico: Paula Leão

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Og Sperle, presidente da União Wicca do Brasil.

Para entender melhor o conceito de religião, é preciso saber seus três significados: “Religar”, “Reler” e “Ressignificar”.  Religar o homem a algo, fazer uma releitura sobre algum evento e dar outros significados. É assim que Álvaro Prestes Ribeiro, 28 anos, Técnico em Meio Ambiente, abre sua fala quando questionado sobre o que seria religião para ele.

O morador de Porto Alegre (RS) e estudante de Engenharia Ambiental é adepto do Politeísmo há 14 anos, uma das crenças mais antigas do mundo, presente nas primeiras civilizações humanas. Ela teve seu surgimento associado às necessidades da humanidade de explicar os fenômenos que não entendia e enxergar o sagrado no mundo através da natureza. “Me considero um politeísta, o que não é uma religião, mas uma forma de ver as divindades presentes em todas as religiões institucionais” , afirma.

Álvaro salienta que os Deuses sofrem quando a natureza é maltratada pelo homem, mas que eles também sofrem quando o homem é maltratado pelos próprios homens.

“Como não tenho uma religião convencional, não posso falar sobre costumes, crenças ou filosofia, mas ser politeísta é respeitar o sagrado que existe no mundo”, comenta Álvaro.

Com uma forte ligação com práticas e rituais que marcam o passar do tempo na natureza, ele fica atento às fases da lua, mudanças de estação, eventos astronômicos, entre outros. Álvaro conta que não escolheu ser politeísta: seus estudos sobre religião e história o fizeram compreender que não era possível acreditar apenas em uma divindade.  “Eu acredito em muitos deuses e me sinto muito à vontade em acreditar nas divindades cristãs, pois elas também são aspectos do sagrado”, explica.

Dentro da diversidade em que se vive de religiões e livre escolha de cada um sobre sua fé, ele conta que ser politeísta é primeiramente respeitar a escolha do outro, os deuses e seus costumes. Mas não significa que não hajam pontos de vistas diferentes e críticas sobre as outras crenças. “Eu respeito as religiões cristãs, mas não acredito que exista um só Deus e nem que só quem está dentro das igrejas possui possibilidades de ir para o céu, de alcançar a vida eterna ou paraíso”, explica.

“Esta crítica não tem como objetivo demonizar a religião do outro, mas sim reconhecer nelas aspectos que não se enquadram na minha maneira de vida”. – Álvaro Prestes Ribeiro, adepto do Politeísmo.

Diego Martins, 30 anos, estudante de Sistemas de Internet, também é politeísta, mas nomeia sua religião como Mitologia Celta, ou também conhecida como a crença dos Tuatha de Danann. Adepto há mais de 10 anos, ele tem como base de vida seus ensinamentos e deveres. “Minha religião, originalmente, não possui um nome. Como a maioria das religiões, só foi nomeada em tempos mais modernos e apenas para facilitar a sua identificação”, afirma.

Diego acredita que não escolheu a religião, mas sim que ela o fez, e defende que diferente do que muitos pensam, não é uma cultura ‘morta’. O conceito básico da religião se dá na contemplação da natureza junto com o universo. Quanto mais unificado o adepto se tornar dela e de tudo a sua volta, maior será sua compreensão dos mistérios existentes nesse mundo e mais próximo dos Deuses chegará.

“Quando conheci a crença, conscientemente, vi que ela era exatamente tudo que eu acreditava e já seguia, no que concerne à filosofia de vida. Então, foi um processo bem natural de integração à ela”, afirma.

Para os Celtas, a Deusa suprema se chama Dana, considerada mãe de todos os Tuatha de Danann e criadora de todo universo. Existe também uma divindade masculina, Cernunnos, também chamado de Deus cornífero, o qual possui longos chifres. Ao contrário do cristianismo, para os Celtas os ornamentos na cabeça não representam a maldade, mas a honraria. Dentre os adeptos, os maiores cavaleiros ostentavam em seus elmos grandes chifres  que simbolizavam respeito entre os adversários. “A presença de chifres em Cernunnos e a comparação dele com o diabo cristão é o que fez com que as pessoas tenham uma visão errada sobre a crença”, explica Diego.

Dentre as práticas vivenciadas, os Celtas procuram viver em paz com os semelhantes, respeitar a natureza, preservar o planeta e a harmonia entre todas as coisas e incorporar os ensinamentos passados pelos deuses e todos os seres místicos ligados aos elementos presentes na terra. Além disso, como toda religião, possuem momentos de espiritualização, composto por orações e conversas com os deuses e a meditação como parte fundamental das atividades.

“Da gentileza no trato com as pessoas até a constante busca por conhecimentos que venham a favorecer o mundo com novas técnicas que possam ajudar a vida na Terra são partes importantes e essenciais de como trazer os ensinamentos da crença para o meu dia-a-dia”, explica Diego.

Atualmente existem muitas derivações dessa crença. Entre elas, a mais famosa é a Wicca, uma religião neo-pagã, mítica, politeísta, de culto dualista e orientação matrifocal, que estimula o desenvolvimento pessoal e coletivo, através de uma relação harmônica com o meio ambiente e da convivência pacífica entre as pessoas, pautada na tolerância e no respeito à diversidade.

Og Sperle tem 44 anos, é empresário, publicitário e psicoterapeuta e morador do Rio de Janeiro. Ele é sacerdote, bruxo e iniciado na religião Wicca há 26 anos. Presidente da União Wicca do Brasil, ele afirma que as pessoas procuram as religiões pagãs para ter respostas às questões existenciais humanas, além de equilíbrio mental, conforto emocional e desenvolvimento espiritual. “Um sarcedote da religião Wicca também é chamado de bruxo, mas, isoladamente, um bruxo não é necessariamente um wiccano. Ou seja, todo wiccano é um bruxo, mas nem todo bruxo é um wiccano”, explica.

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Og Sperle durante o Expo Religião 2016, no Rio de Janeiro.

“Quando eu conheci a religião, já estava apaixonado por ela, foi meio que por acaso. Precisava de mais respostas e não encontrava onde eu estava. Esse querer, sem saber o porquê, nós costumamos dizer que é o ‘Chamado da Deusa’”, conta.

A Wicca tornou-se uma religião muito popular nas últimas duas décadas, porém Og Sperle já adianta que não é fácil ser um wiccano. “É necessário conseguir romper com muitos paradigmas e conceitos que estão enraizados em nosso inconsciente, num processo de regressão à condição original do homem: de viver em harmonia com o meio ambiente e com o todo, sem medo ou culpa”, conta.

Hoje, existem mais de 1 milhão de adeptos das religiões de matriz pagã, sendo destes, 300 mil seguidores da religião Wicca. Na crença wiccana não há um livro sagrado como em outras religiões, pois as antigas tradições e ensinamentos eram transmitidos, na maioria das vezes, oralmente. O único dogma é um provérbio conhecido como Rede Wiccan, ou Conselho Wiccano, que adverte o seguinte: “Faça o que quiseres, sem a ninguém prejudicar”.

“A Wicca é uma Religião que não faz uso, nutre ou apoia quaisquer expressões de Maniqueísmo, Proselitismo ou preconceitos, como a crença na existência do ‘bem’ e do ‘mal’, como forças contrárias e em eterna disputa”, afirma. O uso de discursos, sermões e pregações públicas com o objetivo de convencer, converter e arrebanhar fiéis e qualquer tipo de preconceito ou exclusão de pessoas de quaisquer grupos, gênero, orientação sexual, cor, religião, procedência, deficiência física, forma de pensar ou qualquer outra espécie é completamente proibido na prática.

O Paganismo, por ser uma grande árvore antiga e de inúmeras fés, ensina que, assim como a natureza e sua biodiversidade, os seres diversos e a coexistência com o diferente é mais do que saudável e deve ser sempre respeitada. Por ser uma religiosidade com uma enorme diversidade de tradições, é comum perceber que existe uma verdade para cada indivíduo e que todas essas estão de alguma forma, corretas e são capazes de coabitar juntas no planeta.

“Temos que ter em mente o núcleo de verdade contido no respeito: cada pessoa tem o direito de viver e de conviver no planeta Terra com suas crenças e fé em absoluta liberdade”. – Og Sperle, presidente da União Wicca do Brasil.

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Fonte: Og Sperle, presidente da União Wicca do Brasil.

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