Arte e Cultura

Pelos caminhos da fé: caminhada de Brusque à Madre Paulina completa 20 anos de tradição

A caminhada pela fé de Brusque à Madre Paulina mobilizou religiosos.

Texto: André Schlindwen e Juliana Costa Masera
Edição: Leandro Pereira
Fotos: Juliana Costa Masera

Não é preciso despertador para acordar. Antes das 5h da manhã, a música religiosa adentra as janelas e invade as casas da rua Nova Trento, em Brusque. O ponto de partida é em frente ao Mercado D’Avó e, ali, a movimentação já é grande. Esta referida avó, citada no nome do mercado, é Maria Aparecida Costa ou, como prefere ser chamada, Cida. Tem sua casa agitada logo cedo. Voluntários sobem e descem as escadas carregando panelas e utensílios de cozinha, pois foi ali que, no dia anterior, prepararam o cachorro-quente que será servido ao longo do caminho. Foram 25 quilos de salsicha e 20 quilos de tomates e cebolas. É preciso muita comida para reabastecer as energias dos participantes. No total, são 24 quilômetros de caminhada. Asfalto, areia, um pouco de lama, devido à chuva fina que cai, subidas, descidas e muita fé envolvida.

Esta é a 20ª Caminhada da Fé, o tradicional percurso de Brusque à Madre Paulina que desde o seu início é organizado pelas mesmas pessoas, e dona Cida, aos 68 anos, é uma delas.

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Dona Cida no preparo das refeições que são oferecidas aos participantes

– É um prazer ajudar! Por mais que seja um pouco cansativo é só uma vez ao ano.

Neste domingo (15 de maio), dona Cida acordou antes das 3h da manhã para ferver a água do café. Além de cachorro-quente, oferecido na metade e no fim do trajeto, são disponibilizados copinhos de água, laranja, balas e o indispensável café, que esquenta a manhã gelada. Também fazem parte da estrutura oferecida aos fiéis o acompanhamento da Polícia e Guarda Municipal, ambulância e carros de apoio.

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Os participantes se alimentam com os preparos da equipe. (Foto: Charlene Costa)

E lá vai ela! Dona Cida corre para lá e para cá conferindo todos os detalhes e sem deixar que nada seja esquecido. Outro voluntário que faz parte dessa equipe é Joaquim Costa, o popular Manico. Foi dele que surgiu a ideia de promover uma caminhada com o intuito de manifestar a fé das pessoas, seja em forma de agradecimentos, penitências ou promessas.

Vinte anos de tradição

Manico conta que a ideia de promover uma caminhada começou com uma conversa de bar, sendo que ele mesmo era dono do Bar Chega Mais na época. Nesse bate-papo, alguns amigos sugeriram o destino: o Santuário de Madre Paulina. Manico, que sempre lutou pela sua comunidade, e que, inclusive, promove todo o ano o Papai Noel da rua Nova Trento, decidiu abrir a caminhada, que inicialmente seria entre amigos, para as demais pessoas da região.

Um dos amigos, Sovenir Silvestre, conhecido por Vânio, foi um dos que mais apoiou a ideia inicialmente. Até poucos anos atrás, Vânio patrocinou o evento, pois era dono de uma empresa de aparelhos de ginástica. Após ele falecer, a empresa continuou ajudando e cedendo prêmios para o tradicional sorteio que ocorre no fim da Caminhada da Fé.

Após anunciar o evento, muitas pessoas mostraram interesse e, no primeiro ano, ele contou com quase 600 pessoas. A Caminhada da Fé cresceu e ganhou forças. Nesses 20 anos de trajetória, o maior número de participantes alcançado foi de aproximadamente 1600 fiéis.

Toda edição acontece no terceiro domingo de maio de forma gratuita. É solicitado fazer a inscrição para garantir alimento e ônibus para todas as pessoas, já que, após chegar ao Santuário Santa Paulina e prestigiar à Missa, são disponibilizados ônibus que retornam a Brusque com os participantes.

O apoio de patrocinadores é fundamental para que a Caminhada da Fé ocorra.

“Segura na mão de Deus e vai…”

O relógio marca 5h30, é hora de partir. Ainda é escuro e a chuva fina insiste em cair. A oração inicial acontece debaixo das sombrinhas e em meio às capas de chuva, e anuncia a largada. Nesse momento as pessoas estão aglomeradas e caminham em grupo, porém logo à frente já se dispersarão, sendo que nem todos caminham no mesmo ritmo.

Há participantes de todas as idades, estilos e motivos para estarem ali. A única coisa em comum é a vontade de chegar lá. Neusa Bottamedi participa há 5 anos da Caminhada da Fé e o motivo é simples:

– Não tenho penitência nem promessa, venho simplesmente para agradecer.

Sua filha a acompanha, mas segundo ela, essa manhã relutou em sair da cama e caminhar na chuva.

Para a alegria da filha de dona Neusa e de todos os peregrinos, o tempo melhorou logo no início. A chuva foi embora e o céu abriu, dando espaço para um clima agradável e uma caminhada mais tranquila.

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Trechos do percurso

Antes das 8h da manhã, já têm pessoas chegando na parada intermediária, onde acontece a pausa para o famoso cachorro-quente da Caminhada da Fé. Cansaço? Que nada! Todos estão com muita fome e o tradicional pão com salsicha revigora as energias para a próxima etapa. Se é a fome que torna o alimento mais gostoso, isso ainda não foi identificado, mas dona Cida conta que teve até mãe levando cachorro-quente pra filha que sempre participou da Caminhada e esse ano, por motivos maiores, teve que ficar em casa.

Reabastecidos, pé na estrada novamente. Até então o caminho foi de asfalto, calçamento em um cenário tipicamente urbano. Agora o trajeto muda: estrada de chão, muitas árvores, mato e com isso, morros mais intensos. São duas as subidas mais altas da caminhada e, em uma delas, os participantes recebem bilhetes que devem ser guardados para, no fim da missa, concorrer a brindes num sorteio. E não é que nesse mesmo local a dona Cida, que saiu de carro lá da parada do cachorro-quente, estava subindo o morro à pé?!

– O carro não quis subir, acho que estamos fora de forma!

E isso para ela não é problema, devagar a colaboradora chegou ao topo e ingressou no carro novamente rumo à parada final, para servir mais cachorro-quente.

Reta final

Depois das subidas é preciso descer. E lá vão os participantes na “descida que todo Santo ajuda”. Uns com pedaços de madeira para servir de bengala, outros mancando, outros rindo, conversando ou rezando. Cada um com sua técnica para espantar o cansaço e as dores musculares. E se é pra falar em dor, seu Alberto Prengi, aos 73 anos, dá uma lição de vitalidade. Quase no fim da caminhada, ele vai com a mochila nas costas, calça e camisa social sem reclamar.

– Participei de todas as 20 edições da Caminhada da Fé. Vim desde a primeira.

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Seu Alberto Prengi e sua esposa na reta final da Caminhada da Fé

A jovialidade de seu Alberto contagia e dá força para seguir até o Santuário da Madre Paulina. Já é possível ouvir música e uma agitação maior. Virando a curva, está Manico e Djhonatan, seu filho, esperando os fiéis com uma câmera, para registrar o momento final, e um aperto de mão, parabenizando pela chegada.

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Depois de 24 quilômetros percorridos

Mais cachorro-quente, café e refrigerante. Os participantes se alimentam e acomodam-se para aguardar o horário da missa, às 13h45. Talvez um dos momentos mais difíceis, pois quando as pernas param de caminhar, começam a “encarangar” e o sono maltrata. Uma cochilada na missa, mas nada que Deus não perdoe, pois o esforço valeu a pena, e depois é hora de torcer para ganhar um dos prêmios do sorteio.

A premiação varia de rodízios de pizza até esteiras e aparelhos de ginástica doados por patrocinadores. Independentemente do tamanho do prêmio, tudo é recebido na maior alegria e empolgação.

Por fim, todos se direcionam ao estacionamento do Santuário para embarcar no ônibus e regressar para casa. É difícil encontrar quem não esteja cansado, com sono ou dores, porém a sensação de dever cumprido é a que prevalece.

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Madre Paulina recebe de braços os fiéis que firmemente caminharam até seu Santuário

um comentário

  1. Esta sua reportagem esta tão bem escrita que até emociona. Além de ótima escritora você é muito inteligente parabéns.Que sejas bem feliz nesta profissão que foi escolhida por você.Que Deus te ajude neste caminho e te proteja sempre; e o depender de nós estaremos sempre aqui para ajudar-te.Muitos beijos

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