Arte e Cultura

O (Re) começo da Igrejinha

Uma nova história começa a ser reescrita em um dos marcos iniciais de Itajaí

Texto:  Luzara Pinho
Edição: Matheus Berkenbrock

Dia 27 de maio de 1995. O grande dia. Depois de sete anos de namoro, Karla Wolff e Edson Russi decidem se casar. A igrejinha era preparada mais um dia para celebrar a união de casais. As flores tomavam conta de toda a igreja e preenchiam o altar. O espaço pequeno não era empecilho para a realização de lindas cerimônias de casamento. Era a igreja preferida de noivas e noivos. Nesse dia, o casal iniciou uma nova fase da sua história e passou a fazer parte também da história da Igreja Imaculada Conceição.

Depois de 21 anos, as boas lembranças permanecem. “Casar é a realização de um sonho e casar na igrejinha realmente foi um privilégio, pois era a preferida das noivas. Ela era disputada, era comum na época acontecerem mais de quatro casamentos por dia. As noivas até dividiam decoração para economizar e poder realizar a cerimônia no dia desejado”, conta Karla.

Batizados, primeiras comunhões, eventos religiosos, celebrações sempre preenchiam a igrejinha de fiéis e adoradores. Mas a rotina diária da Igreja Imaculada Conceição, no coração de Itajaí, foi interrompida pela ação do tempo. Em agosto de 2013, parte do teto da igrejinha desabou, sendo necessário assim interditar a estrutura. Desde então, há cerca de três anos, quem passa pela frente do local encontra apenas boas lembranças de um dos pontos turísticos e religiosos mais importantes da cidade.

Mas a promessa é que os bons tempos de celebração na Igreja Imaculada Conceição voltem em breve. No começo do mês de maio, foi assinada pelo prefeito de Itajaí, Jandir Bellini, a ordem de serviço para o restauro da Igrejinha.  Conforme informações da Prefeitura de Itajaí, as obras devem ser concluídas em aproximadamente 24 meses, prazo em que a estrutura passará por restauro geral.

A reforma reascende em toda a comunidade a alegria de ver a igrejinha em funcionamento, espalhando as mensagens de fé e preenchendo novamente a praça em torno e os bancos da igreja com seus fiéis.

Nascido em Itajaí, o estudante de medicina Thiago Alicio acredita que o restauro veio para continuar a bela história da igreja. “A igrejinha é um símbolo da cidade, tem um forte caráter religioso para seu povo. Essa reforma, desde que mantenha as características originais, manterá a tradição e o significado para a cidade e comunidade”, ressalta.

Para a jornalista Amanda Elisa Weber, também natural de Itajaí, a Igrejinha guarda muita história. “A preservação de patrimônios como esses é essencial para a história e para o futuro de uma cidade. A restauração deve ser feita de forma rápida e com qualidade”.

A História

A importância da Igreja Imaculada Conceição e o papel crucial na construção da história de Itajaí começaram no ano de 1824, quando foi construída. O historiador e secretário de Educação de Itajaí, professor Édison D’Ávila, explica que a igrejinha se situa no começo da formação do aglomerado urbano de Itajaí. “Esse aglomerado se inicia por causa do porto, pois o local de embarque e desembarque de mercadoria foi trazido para aquela região, onde se localiza a Praça Vidal Ramos”.

“Ela foi o marco referencial para o surgimento do aglomerado urbano. Em torno dela os moradores vieram se estabelecer. Surgiram as primeiras ruas, a praça, a rua da Matriz, a rua Lauro Muller, dentre outras. Ela foi o elemento referencial e o elemento espacial que orientou a formação inicial de Itajaí”.

O professor explica que ali, o comerciante Agostinho Alves Ramos, vindo de Florianópolis, se instalou no local, conseguiu um terreno e veio com a intenção de aproveitar a oportunidade de comércio que havia na região, especificamente a existência de boas madeiras no vale. Ao chegar, toma as providências para conseguir a doação de um terreno ao lado de sua casa comercial para construção de uma capela.

A família Coelho da Rocha doou então o terreno para Agostinho e então a partir de 1824 começou ser construída, pelo escravo Simeão, a Igreja Imaculada Conceição. “Não podemos deixar de considerar que, como comerciante, ele via na construção de uma igreja ao lado de sua casa um forte atrativo de futuros fregueses. Mas Agostinho também era religioso, não há duvida, trouxe com ele uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, que estava na igrejinha antes de ser interditada”, comenta o professor.

Com o passar dos anos, a construção da igreja passou por diversas etapas, até chegar a sua configuração original. Conforme D’Ávila, antes dos anos 20, se pensou em fazer uma nova matriz no mesmo local. Algumas alterações foram feitas na igrejinha, mas só na década de 50 a nova matriz passou a ser construída no local onde se encontra hoje. “Quando a matriz foi inaugurada, se pensou em demolir a igrejinha velha, mas a população se manifestou. A igrejinha sempre teve uma ligação afetiva muito forte com a comunidade, haveria uma resistência muito grande se seguissem adiante com a ideia de demolição”.

Devido ao afeto e carinho da população com a Igreja Imaculada Conceição, o restauro não resgatará apenas a estrutura física, mas as memórias e histórias de Itajaí e seu povo. “Além de ser a mais antiga construção de Itajaí, é um referencial social para a cidade. É valido e relevante o restauro da igrejinha, não apenas pelo contexto religioso, mas também pelo seu valor histórico, arquitetônico e também de importância social indiscutível”, finaliza Édson D’Ávila.

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