Arte e Cultura

Complexo de Azambuja: uma história centenária

Texto: André Schlindwen e Juliana Costa Masera
Edição: Leandro Pereira
Fotos: André Schlindwen

As construções em meio ao vale consistiam numa igreja e seminário de um lado e hospital do outro. Em frente ao antigo prédio dos seminaristas havia uma grande horta para separar o local da rua em pavimento baixo e um muro alto com pórticos na entrada. O atual Museu ainda não existia, seu edifício abrigava o Seminário, e antes, o Hospital. Assim era o complexo de Azambuja cerca de cinquenta anos atrás.

Brusque 4 seminario azambuja
(Foto: )

Valério e Alzira Voss moram no bairro de Azambuja desde os anos sessenta. Na metade dos anos 70, quando Alzira trabalhava na cozinha do Seminário, o local abrigava 110 seminaristas, número que desde então, só diminuiu. A antiga horta e o muro não existem mais, a rua ficou maior e o espaço ganhou um estacionamento. “Esse muro eu ajudei a desmanchar, porque no outro lado tinha um morro que o padre tirou e aterrou a rua”, conta Valério.

Diferente dos tempos atuais, as tradicionais festas do bairro eram muito maiores em décadas passadas. Uma delas, a de Nossa Senhora de Azambuja, recebia pessoas de todos os lugares. “Quando tinha festa de agosto, na estrada não dava para passar de tanta gente, o morro era só gente. Eram muitos ônibus que vinham”, lembra Alzira.

13061929_984878254923555_6086768633980736330_n
Festa de Azambuja (1979). (Foto: Lanchonete Casa de Nina – Brusque)

Quando menino, vindo da pequena cidade interiorana de Guabiruba, Éder Cláudio Celva conheceu o Santuário de Azambuja. Seu maior contato com a Nossa Senhora do Caravaggio era nas missas e orações, já as festas, de tão grandes e populosas, não caíam no gosto da família. Éder cresceu e junto, sua fé. Em 2006 tomou uma firme decisão: pegaria suas malas e partiria para o Seminário mais próximo, o Seminário Menor da Aquidiocese de Florianópolis, localizado no Vale de Azambuja, em Brusque. Após nove anos, chegou à ordenação. Padre Éder teve suas primeiras atuações em uma Paróquia de Tijucas e no início desse ano, recebeu o encargo de voltar para “casa”, como ele menciona. Hoje, o padre é formador do Seminário, vigário paroquial do Santuário e vice-diretor do Museu Arquidiocesano Dom Joaquim.

13234915_10209049559587025_359538778_o

– Eu desenvolvi um apresso muito forte por Tijucas, mas eu sempre digo que um padre toda semana precisa tirar o pó da mala, pois a nossa casa é o mundo e nós devemos florescer onde estamos plantados.

Fisicamente, o vale de Azambuja continua o mesmo de quando Padre Éder era apenas Éder, na sequência: Seminário, Museu, Santuário, Gruta, atrás da Gruta o Morro do Rosário; à frente, Hospital. Segundo o padre, as mudanças mais marcantes aconteceram no início da história do vale de Azambuja.

– Azambuja era um grande vale úmido que criava sapos e mosquitos, literalmente sem futuro, pois nem o nome era muito bonito. Foi o Padre Antônio Eising que viu futuro nesse vale e, juntamente com poucas famílias de origem Italiana, fundou uma Santa Casa de Misericórdia que acolhia doentes, órfãos, idosos sem lar e quem necessitasse de ajuda. Próximo à Santa Casa havia uma simples capela.

Para que o trabalho na Santa Casa se concretizasse, o Padre Antônio Eising chamou algumas Irmãs da Divina Providência, vindas da Alemanha, para auxiliá-lo. Dali em diante, o vale deslanchou. Em 1927, juntou-se ao Hospital e ao Santuário um Seminário. Ainda instituições pequenas, que foram crescendo e recebendo novas edificações. Foi quando o Seminário recebeu um novo prédio que, em 1960, idealizado pelo Padre Raulino Reitz, nasceu o Museu.

13224998_10209049559827031_1778399888_o

Cultura presa entre paredes

 O Museu Arquidiocesano Dom Joaquim foi aberto ao público em 03 de agosto de 1960, por ocasião das comemorações do primeiro Centenário de Brusque. Antes disso, na década de 30, o pequeno Museu contava apenas com manuais antigos, livros em latim e ornamentos do Seminário. A primeira coleção que chegou ao local foi de Joca Brandão, que recebeu em troca do seu acervo pessoal o financiamento do estudo do seu filho. Dele vieram os primeiros itens de mineralogia, louças, quadros e outros. Hoje, o Museu apresenta um dos mais ricos acervos em exposição no Estado de Santa Catarina. São aproximadamente 4 mil peças agrupadas em três andares.

Esse universo encantou Marcílio Felipe Vandresen, que há dois anos trabalha no Museu.

– Entrei para o Seminário e depois de três anos desisti, porém fui convidado a permanecer como funcionário do Museu e resolvi ficar em Brusque ao invés de voltar para minha cidade natal, Anitápolis.

Marcílio fala sobre as peças de maior afeição do Museu e a principal é o relógio que fica no terceiro andar da casa. Ainda sobre o acervo, ele revela existir uma Bíblia, que está guardada para sua preservação, que já possui mais de 1500 anos, sendo o item mais antigo do Museu Arquidiocesano Dom Joaquim.

Este slideshow necessita de JavaScript.

O que mantem o Complexo de Azambuja

A responsável pelo Complexo de Azambuja continua sendo a Arquidiocese de Florianópolis, como nos seus primórdios. No entanto, cada instituição recebe uma distinção: O Santuário tem uma administração própria, o Museu também, o Seminário tem seu reitor e o Hospital, com sua administração, segue os moldes de todo hospital tradicional e oferece atendimento pelo SUS.

– Todos pertencem à mesma igreja, mas são separados contábil e civilmente, diz o Padre Éder.

Além disso, as festas proporcionam recursos financeiros para a manutenção das instituições.

 Festas centenárias

As tradicionais festas de Azambuja são aguardadas pelos moradores de Brusque e região com ansiedade. Difícil encontrar quem nunca prestigiou um evento desses pela cidade. No total, são três festas anuais: a primeira, Festa da Nossa Senhora do Caravaggio, no último sábado de maio; a Festa Junina, no mês de julho; e a última e maior, a Festa da Nossa Senhora de Azambuja, no terceiro domingo de agosto.

13223572_10209049559747029_1504216879_o

A mais antiga é a festa de maio, que iniciou em 1892, em homenagem a aparição de Nossa Senhora do Caravaggio. Em 15 de agosto de 1900 é celebrada pela primeira vez a festa da Assunção de Nossa Senhora. Consta que nesta, participaram em torno de 2 mil romeiros. A Festa Junina, atualmente organizada pelos Seminaristas, tem direito à boi-de-mamão e folguedos populares. Estas festas vão além da manifestação de fé das pessoas, segundo o Padre Éder, as festas de igreja são fundamentais para a vida em família e em comunidade.

– Nós humanos precisamos de tempos de pausa, de descanso e de festas. A congregação de pessoas de cidades e paróquias vizinhas é saudável e fortalece vínculos.

As festas de Azambuja são uma alegria, independente da estação. A rua que percorre o Vale de Azambuja se enche de barraquinhas vendendo os mais variados itens de vestuário, decoração e gastronomia. A música contagia, amigos antigos se reencontram e se torna visível que, mesmo após tantos anos, as festas continuam sendo um sucesso. Eis é o objetivo, jamais perder essa rica tradição.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s