Comportamento

Bebidas artesanais: uma arte para apreciar com moderação

Bebidas artesanais ganham espaço no mercado brasileiro

Bebidas artesanais ganham espaço no mercado brasileiro

Texto: Bárbara Porto e Lucas Rosa
Edição: Marcelo Martim

Pode ser no Happy Hour com os amigos, no churrasco da empresa, no almoço em família, ou até mesmo como acompanhamento de um bom filme. Hoje em dia é difícil encontrar alguém que não goste de apreciar uma boa bebida. Por isso, o mercado das bebidas artesanais vem conquistando cada vez mais espaço.

O SEBRAE (Serviço de Apoio as Micro e Pequenas Empresas) acredita que atualmente existam mais de duzentas micro cervejarias no Brasil, concentradas principalmente nas regiões Sul e Sudeste. As cervejas artesanais correspondem a 0,15% do mercado, mas a expectativa é que ultrapassem 2% nos próximos anos.

Vídeo interativo da Rota da Cerveja em Santa Catarina produzido pelo blog BarDoCelso.com, referência em cervejas no país desde 2006.

Para quem ainda tem dúvidas, a cerveja é uma bebida alcoólica carbonatada, produzida através da fermentação de materiais com amido, principalmente cereais como a cevada e o trigo. Seu preparo inclui água misturada com  lúpulo, fermento, e outros temperos, podendo ser frutas, ervas e demais plantas. O vinho, por exemplo, é feito de uva, uma fruta que não possui amido. Whisky e vodka podem até ser feitos de cereais maltados, entretanto são destilados, logo não são cervejas, mas isso você sabe, né?

Quem está habituado a consumir apenas cervejas de marcas populares, não tem noção da diversidade de estilos dessa bebida.  Ela pode ser classificada por fatores como: método de produção, ingredientes, cor, sabor, aroma, receita, história, origem e entre outros fatores.

Essa grande variedade é chamada por alguns especialistas de cervejas especiais. Esse termo em alguns momentos se confunde com as cervejas artesanais. Essas são aquelas produzidas quase que de forma caseira.

As micro cervejarias, mesmo utilizando equipamentos modernos, ainda assim são consideradas como cervejarias artesanais pelo cuidado detalhado que têm com a sua produção. Isso vai desde os ingredientes básicos, passando pela receita de preparo, e chegando até aos conservantes finais, que devem ser naturais e não químicos.

Algumas empresas levam o conceito de artesanal ao pé da letra. Elas utilizam equipamentos pequenos, que cabem em qualquer cozinha, normalmente não possuem engarrafadoras e guardam suas produções em garrafas de cerveja normais.

Para resumir, quando ouvir falar em cerveja artesanal, pense em cervejas mais bem cuidadas, com produções mais restritas. O que não necessariamente são pequenas quantidades, mas sim produtos com resultados finais interessantes e diversificados.

Como você deve ter percebido, o universo cervejeiro é repleto de inúmeros estilos. Seria impossível apresentar todos eles de forma detalhada nessa reportagem. Como exemplo, podemos citar: weiss, pilsen, stout, abadia, strong ale, entre outros milhares.

Vamos agora falar dos tipos de cerveja. Mas pode ficar calmo, ao contrário dos estilos, os tipos de cerveja são apenas dois: Ale e Lager. Provavelmente você reconhece esses nomes, principalmente o segundo, afinal é o tipo mais vendido no Brasil. Um bom exemplo é as pilsens, Brahma e Antarctica. Duas famosas representantes do tipo Lager.

As Lagers são as cervejas de baixa fermentação, sendo produzidas em uma temperatura reduzida, por volta de dez graus. No geral, elas são mais secas, com maior predominância do malte e do lúpulo sobre os sabores e aromas.

Por outro lado as cervejas do tipo Ale são muito mais complexas e frutadas, o que dá a graça na bebida. Elas são cervejas de alta fermentação, feitas em temperaturas mais elevadas, por volta de 20 graus, e seus fermentos ficam suspensos nos tanques.

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Diferença na produção das cervejas Lager e Ale

Sobre essa variedade, Alexandre Mello, proprietário da Cervejaria Itajahy, explica: “Acompanho o universo das cervejas há alguns anos, mas ainda me impressiono com o público. É evidente que a procura tem aumentado, mas no geral o brasileiro foi mal educado quando o assunto é bebidas de qualidade. Mesmo com tanta variedade que é possível produzir, as mais vendidas são as pilsens comerciais”. Ele completa: “Eu fico feliz com o nosso estado. Atualmente, Santa Catarina tem um bom número de cervejarias, algumas delas premiadas internacionalmente”.

Uma delas é a própria Cervejaria Itajahy. A empresa foi fundada por Alexandre em parceria com alguns amigos em 2013. O objetivo deles era incluir o nome da cidade no cenário cervejeiro nacional, e até mesmo internacional. Nesses três anos de produção, eles conquistaram prêmios no Concurso Brasileiro de Cervejas, no Festival Italiano de Cervejas, em Milão, no South Beer Cup e na Copa Cervezas de America.

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Prêmios da Cervejaria Itajahy

A Cervejaria Itajahy produz atualmente quatro estilos diferentes de bebidas. Segundo Alexandre, esse é um bom número no momento, mas assim que conseguir ampliar as instalações, novos estilos serão produzidos. Uma curiosidade é que todas as bebidas levam o nome da cidade portuária em seus títulos.

A Itajahy Pilsen é uma cerveja leve, com coloração clara e espuma cremosa. Tem um suave aroma floral devido aos lúpulos europeus utilizados na receita. A Itajahy Weiss, por sua vez, é uma cerveja de trigo com estilo alemão, refrescante e ideal para os dias mais quentes. Ela apresenta aroma condimentado que lembra cravo e banana. A terceira é a Itajahy Porter, essa é uma bebida de coloração escura, com sabor e aromas que lembram café e chocolate amargo. Para finalizar, tem a Itajahy Pale Ale, a bebida é de estilo American Pale Ale, com coloração acobreada e leve. Possui amargor forte e muito aromático. Seu aroma remete a frutas cítricas, característica dos lúpulos americanos.

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Se você tem interesse em conhecer os produtos da Cervejaria Itajahy, saiba que ela fica na Rua Uruguai, 1314, no Bairro Fazenda. Mais informações no site

Além da cervejaria, Itajaí também possui uma loja de bebidas especiais, localizada no centro da cidade, mais precisamente na avenida Marcos Konder. A Beer House foi criada em outubro de 2012, e de lá pra cá o público só aumenta. A popularidade pode estar ligada a boa localização, aliada ao grande acervo disponível. Atualmente, são mais de 200 rótulos de cervejas, entre nacionais e importadas, além de duas torneiras com chopes rotativos, sempre com uma de sabor mais leve e outra mais intensa.

Embora o foco seja a cerveja, a loja apresenta muito mais que isso. Para acompanhar a degustação dos clientes, eles oferecem pratos de preparo rápido como porções de frios, queijos, linguiça campeira e entre outros.

A Beer House é uma espécie de bar e loja, com venda de kits cervejeiros, souvenirs, camisetas e, é claro, cervejas. Tudo isso em um ambiente temático, que torna a experiência ainda mais aconchegante.

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Primeira casa especializada em cerveja de Itajaí. Foto: Reprodução Facebook

Esse carinho que a cidade tem pela cultura cervejeira rendeu até mesmo um festival. O Rock´n Beer tem como proposta promover a combinação entre rock autoral e cerveja artesanal.

Ele acontece anualmente no mês de setembro, em Itajaí, no Litoral Norte de Santa Catarina. Após o sucesso nas três primeiras edições, os idealizadores decidiram realizar o festival deste ano no pavilhão principal do Centreventos Itajaí, um espaço com capacidade para receber mais pessoas. A data está marcada para nove e dez de setembro. Um dos organizadores do festival, Flávio Roberto de Oliveira, diz que embora fosse um sonho, não esperava que o Rock´n Beer crescesse de forma tão rápida. “Hoje as bandas e cervejarias nos procuram com antecedência para participar da próxima edição”. Além disso, pela primeira vez em sua história, o festival terá uma edição fora de Itajaí, na cidade de Blumenau, nos dias 15 e 16 de julho, na Vila Germânica.


Da cerveja ao vinho

Quando se ouve o termo bebidas artesanais, normalmente vem à mente as cervejas, e foi por isso que começamos falando delas. Entretanto é um erro achar que apenas essas bebidas podem ser feitas de forma artesanal. Um bom exemplo são os vinhos, que também podem ser produzidos de forma única e detalhada. Por isso, visitamos uma vinícola.

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Vinícola Villa Prando, em Itajaí. Foto: André Schilindwein

É com a mesma sutileza de quando enchemos a taça que o aroma da bebida hipnotiza o nosso olfato. Quando bebemos, o nosso paladar experimenta a suavidade, que independente do tipo, somente um bom vinho é capaz de proporcionar. Se você também gosta, saiba que não precisa ser um Sommelier para perceber os prazeres dessa bebida sensorial. E se você mora em Itajaí, nem precisa ir muito longe.

Após deixarmos o centro da cidade, aos poucos a natureza foi ganhando espaço no trajeto. As árvores contornavam a subida de uma estrada de terra que mesmo densa era bem sinalizada. Estávamos no bairro Itaipava, mais precisamente na Alameda Mata Atlântica. Nesse belo e bucólico recanto, o engenheiro agrônomo Honório Prando mora e administra a vinícola Villa Prando.

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Instalações da vinícola no Bairro Itaipava. Foto: André Schilindwein

No quintal da casa de dois andares, feita com tijolos à vista, alguns cachorros rodeavam os carros estacionados, como se fossem flanelinhas. Logo ao lado do terreno, sem nem mesmo uma divisória, estava a base da vinícola. Um galpão, imponente por fora, mas simpático e convidativo por dentro, como um bom estabelecimento deve ser. Na entrada, já era visível caixas lacradas, garrafas em prateleiras como se fosse uma vitrine e grandes recipientes com bebidas em fase de maturação. Mesmo assim, o som do rádio ligado, o barulho dos mascotes da família e o bom humor dos donos ajudavam a quebrar o clima rígido de uma fábrica.

Há quem acredite que o vinho apreciado com moderação é sinônimo de bem estar e disposição. Honório é um bom exemplo disso. Sempre animado e com o mesmo orgulho de um artista que apresenta sua obra, ele contou a origem da Villa Prando.

“O vinho artesanal sempre fez parte da minha família. Quando eu era criança, mesmo sem poder experimentar, meu pai já me ensinava a preparar todas as etapas da bebida. Acredito que foi assim que eu me apaixonei por trabalhar com as maravilhas da terra, por isso mesmo que me tornei engenheiro agrônomo. Com o tempo tive a ideia de criar a vinícola junto com alguns amigos. A princípio era algo só pra gente, mas foi dando certo e virou um pequeno negócio”. É lógico que não chega a ser uma grande fábrica, até porque todos os processos são feitos da forma mais manual possível. Entretanto chamar de “pequeno negócio” é modéstia do seu Honório.

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A produção de vinhos de Honório começou como hobbie e hoje se tornou profissional.     Foto: Reprodução

Se você mora ou costuma frequentar Itajaí, provavelmente reparou que devido ao clima não tem muitas videiras na cidade. Entretanto, descobrimos que tem uma vinícola. Sobre isso, Honório comenta: “Nada te impede de importar produtos de outras regiões. Um exemplo é a castanha do pará, que mesmo morando em Santa Catarina temos acesso”. Ele falou também que faz questão de escolher pessoalmente as uvas quando viaja. A respeito de publicidade Honório afirma: “Não faço uma grande divulgação da vinícola por medo de não conseguir suprir a demanda de público. Prefiro os clientes fieis e os que vêm de forma espontânea, pelo boca a boca”.

Como falamos anteriormente, o vinho pode trazer benefícios à saúde, desde que seja apreciado com moderação. Para que os benefícios não se transformem em danos. A quantidade ideal recomendada pelos médicos é de uma taça (aproximadamente 100 ml), ou duas por dia, se essas forem apreciadas junto com as refeições. Isso porque o vinho age na corrente sanguínea de duas formas, como anti-coagulante e vasodilatador. Isso ajuda na redução da pressão sanguínea. Essas duas características fazem do vinho um importante aliado contra o infarto. Vale ressaltar que a uva contribui para acelerar o metabolismo, o que pode ajudar no controle do peso.

Em 2014, foi realizado no Costão do Santinho, em Florianópolis, o 11º Concurso Nacional de Vinhos Finos do Brasil. Na competição, foram inscritos vinhos de Pernambuco, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraná. Na ocasião, Santa Catarina teve dez vinhos premiados, sendo um deles com Grande Ouro, cinco com Ouro e quatro com Prata. Um dos cinco vinhos catarinenses premiados com ouro foi o Brisa do Mar, da Villa Prando.

Nesse momento você deve estar pensando: vou precisar juntar as economias da família para experimentar essa iguaria. É aí que você se engana. Uma garrafa de um litro do vinho Brisa do mar custa R$ 70. “O preço baixo é uma forma de concorrer com os vinhos internacionais. O status do vinho é uma ilusão. Existem variedades para todos os gostos e bolsos”, explica Honório.

Apesar do reconhecimento mundial e a tradição da Villa Prando, a vinícola ainda não é popular entre os moradores de Itajaí. Mas mesmo assim, Honório deixa o convite para quem quiser conhecer mais sobre a produção e degustação de vinhos e a história da bebida. As visitas podem ser agendadas pelo telefone (47) 3348.5710.

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