Cidades

A rotina de quem se dedica aos moradores de rua

A reportagem acompanhou a atuação do Resgate Social, órgão responsável pelos andarilhos da cidade. Essas pessoas em vulnerabilidade social tem o direito, se quiserem, de ficar nas ruas. Porém, eles também recebem passagem rodoviária, comida, banho, lugar para descansar e podem ir para a reabilitação ou mercado de trabalho.

A reportagem acompanhou a atuação do Resgate Social, órgão responsável pelos andarilhos da cidade. Essas pessoas em vulnerabilidade social tem o direito, se quiserem, de ficar nas ruas. Porém, eles também recebem passagem rodoviária, comida, banho, lugar para descansar e podem ir para a reabilitação ou mercado de trabalho

Texto: Iana Girardi e Lucas Machado
Edição: Renata Rutes Henning

Um dos fatores que faz do Programa de Resgate Social de Balneário Camboriú um sucesso é a forma como realizam a abordagem dos moradores de rua. Antes chamado de “Migração”, o departamento realizava suas rondas com uma Kombi e uniformes sem identificação e sua abordagem acontecia de forma ríspida. Agora, tudo mudou. Com o novo nome, Resgate Social, e um estilo de abordagem humanizado, o serviço é conhecido e respeitado pelos moradores de Balneário e também pelas cidades da região. A mudança se deu graças a nova direção, que transformou o serviço no ano de 2009. A experiência de vida de seu diretor, Paulo Roberto de Souza, conhecido como Paulão, o faz ter muita empatia pelos moradores de rua, já que ele também foi um deles.

Paulão nasceu em uma família rica de cafeicultores do Paraná e veio a se tornar cozinheiro da Marinha Mercante brasileira. Aos nove anos, Paulão começou a beber, se tornou dependente do álcool e, anos depois, acabou perdendo tudo para o vício. Se tornou morador de rua. Hoje, sóbrio há 11 anos, Paulo Roberto se dedica a cuidar de pessoas que estão passando pelo mesmo problema que ele já enfrentou.

DSCF0238.JPG
Paulão já foi mendigo e hoje dirige o Resgate Social. (Foto: Renata Rutes)

Depois de sete anos no trabalho, o diretor ainda conhece muitos mendigos do seu tempo de andarilho, e diz que usa suas lembranças como forma de incentivo para seus ex-companheiros de rua. Ele se emociona ao relembrar os casos que conseguiu ajudar, e afirma que é isso que faz o trabalho dele valer a pena. “Esses dias encontrei um menino que era de Cabedelo, fazia 20 anos que ele não via a família. Liguei pra os familiares e eles achavam que o menino tinha morrido. Nós conseguimos uma passagem para esse rapaz, ele embarcou e a mãe vai recebê-lo. Isso compensa todo o nosso esforço.”

O Resgate Social de Balneário Camboriú, pertencente à Secretaria de Inclusão Social, trabalha 24 horas todos os dias, incluindo finais de semana e feriados. Segundo Paulão, o turno em que mais se encontra moradores de rua é o matutino. “Nossa rotina funciona assim, são quatro turnos de seis horas. Nas rondas, junto com o motorista da van, vão dois ou três fiscais”, explica. E é essa rotina que faz a assistência ser tão reconhecida pelas outras cidades da região. Sendo a única com um plantão 24 horas tanto na Casa de Passagem, onde os mendigos são levados para comer, descansar e se limpar, quanto na ronda. Balneário já recebeu outros 12 municípios buscando o modelo de abordagem daqui.

DSCF0236.JPG
Paulão (centro) e a equipe da manhã do Resgate Social. (Foto: Renata Rutes)

O número de moradores de rua na cidade dobrou em três anos. Hoje existem 20 mendigos nas ruas, todos eles monitorados pelo serviço social. Segundo o diretor da casa, nessa temporada o número chegou a 50, devido a crise em que o país se encontra. “As pessoas perdem o emprego, moram de aluguel e não tem dinheiro para pagar. Elas vêm para cá porque Balneário é uma cidade rica, com muito turista, então sempre acabam conseguindo esmola”.

Porém, por vezes, esses outros municípios acabam se tornando um problema. As assistências de cidades desde Florianópolis até Joinville não possuem um serviço tão completo como Balneário Camboriú, com fornecimento de albergues e passagens rodoviárias. Assim, Paulão explica, os andarilhos desses lugares acabam vindo parar aqui. “Às vezes, chegam aqui pessoas que vem a pé desses municípios, apenas com meu nome na mão. E a gente prefere devolver essa pessoa para a cidade de origem do que ter essa pessoa na rua, porque podem começar a cometer crimes como roubos, furtos e até homicídios”.

Outro obstáculo no caminho do serviço é a resistência dos mendigos em aceitarem a ajuda necessária. O diretor explica que mesmo com programas assistenciais e políticas públicas especialmente voltadas a eles, há muitos que preferem morar nas calçadas das cidades. “Quando a pessoa está muito tempo na rua, ela acaba criando vínculos, ganha as coisas dos outros, a cachaça de um, a coberta de outro, então porque a pessoa vai sair da rua? Ela ganha tudo de graça”.

Um dos grandes exemplos dessa resistência ao Resgate é Sérgio Sales, 52 anos, que foi encontrado próximo ao supermercado Angeloni. Sales é um dos mais antigos moradores de rua da cidade. Ele mora em Balneário há mais de 10 anos. “Eu era motorista de caminhão, trabalhava em Curitiba com o meu irmão e acabei brigando com ele”, conta.

DSCF0242.JPG
Sérgio Sales mora há 10 anos nas ruas de Balneário. (Foto: Lucas Machado)

Após o conflito, Sales se mudou para a capital catarinense do turismo, onde começou a vender sorvete, mas acabou largando tudo por conta de seus vícios. Otimista, o morador de rua afirma que há várias vantagens de levar a vida que vive, entre elas, o fato de que não paga aluguel e nem imposto. Mesmo sentindo falta da família, Sales diz que não vai sair da rua tão cedo, por conta de sua dependência.

De acordo com os funcionários, o serviço que luta para mudar a vida dos moradores de rua é muito conhecido pela comunidade, que sempre denuncia os focos de pessoas desamparadas. “Muitos nos ligam, não para enxotar os mendigos, mas para tentar ajudá-los”, conta Paulão. Para ele, o forte do resgate é a persuasão. “Uma vez um menino me falou ‘quero me internar porque não aguento mais estar dormindo e vocês me acordarem’, e é esse o nosso negócio, insistir”, lembra.

DSCF0247.JPG

O Resgate Social atua 24h, todos os dias – inclusive domingos e feriados. (Foto: Renata Rutes)

A Prefixo acompanhou de perto uma ronda realizada pelo serviço no dia 10 de maio. Com início às 7h, a van do Resgate percorreu diversos pontos da cidade em que havia moradores de rua. Dormindo no chão, com poucas roupas e caixas de papelão ao redor, nenhuma das pessoas abordadas aceitou ir à Casa de Passagem.

Além de Sales, o Resgate também abordou um casal que chegou em Balneário em janeiro, vindos de Caçador. Eles estavam dormindo em um estacionamento também nas proximidades do Angeloni. Antes de descer, a equipe do Resgate avisou a reportagem que os dois eram bravos, principalmente a mulher. Quando uma das funcionárias desejou um bom dia a ela, ela respondeu de forma ríspida: “Bom dia pra quem? É difícil isso acontecer”. Quando o homem notou a câmera fotográfica dos repórteres, fez gestos obscenos. Os dois são alcoólatras, e junto deles estava uma cachorrinha, deitada de vestido em uma caminha. É comum andarilhos terem cachorros, que, segundo o Resgate, muitas vezes são mais bem cuidados do que os donos.

DSCF0244

Grande parte dos andarilhos possuem cães de estimação. (Foto: Renata Rutes)

Em um terreno da Avenida do Estado, estava um casal de argentinos. Os dois homens chegaram em Balneário na semana passada e estão fazendo malabares pelos sinais do municípios. Eles desejam ir até o México a pé. A equipe do Resgate contou que os dois não aceitam as regras muito bem: quando abordados eles responderam que ‘iam pensar se sairiam ou não’ do local. Ambos já haviam sido encaminhados à Casa de Passagem, onde poderiam tomar banho, trocar de roupas e comer, mas eles queriam apenas a última opção. Recusaram-se a tomar banho, ‘porque já estão acostumados a ficar do jeito que estão’. Mesmo assim, a esperança de Paulão de tirá-los da rua continua viva. “Nós ganhamos eles no cansaço”, brinca.

DSCF0256
Andarilhos argentinos querem chegar ao México e não quiseram tomar banho. (Foto: Renata Rutes)

um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s