Bem-Estar

Resgatando o direito de nascer naturalmente: a humanização do parto

O parto humanizado tem sido muito debatido nos últimos tempos, mas ainda é preciso conhecer um pouco mais sobre o assunto. Saiba mais sobre o trabalho das doulas e outros profissionais que contribuem para esse tipo de parto no Brasil, o país das cesáreas.

O parto humanizado tem sido muito debatido nos últimos tempos, mas ainda é preciso conhecer um pouco mais sobre o assunto. Saiba mais sobre o trabalho das doulas e outros profissionais que contribuem para esse tipo de parto no Brasil, o país das cesáreas.

Texto: Letícia Maia, Mariana Campos e Paula Leão
Edição: Alan Willian
Foto: Jerusa da Silva Horácio e MorgueFile

Imagine um trabalho de parto do jeito você deseja. Pode ser deitada, na água, em casa, em pé… Pode ter ou não anestesia. Com o acompanhamento de uma doula, também. E o melhor de tudo: você que escolhe. É esse o princípio do parto humanizado.

Segundo Martha Bachilli, médica obstetra, é considerado parto humanizado aquele que respeita a fisiologia e a autonomia da mulher, que leva em conta evidências científicas para permitir que as decisões sejam tomadas em um ambiente clínico e bioético adequado.  “O parto humanizado prioriza as vontades da gestante, sempre que isso não represente um risco para ela e para o bebê. Estimula a diminuição dos procedimentos desnecessários relacionados ao parto, minimizando o risco de violência obstétrica”, explica.

Ou seja, o parto humanizado compreende o nascimento do bebê com o mínimo de intervenções possíveis. Esse tipo de parto respeita os desejos da parturiente e garante seus direitos, sempre levando em conta o que é melhor para a gestante e para seu filho que está prestes a nascer. A definição também inclui a participação ativa do pai da criança, a fim de gerar vínculo e saúde emocional para todos.

Então por que poucas mulheres optam pelo parto humanizado? Apesar do tempo maior de recuperação, o Brasil possui um grande número de cesáreas: quase metade dos partos. Isso faz do país o campeão mundial destes procedimentos, de acordo com Martha. Só em Santa Catarina, as cesarianas representam 64,5% dos partos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), apenas 15% teriam necessidade de operação: por se tratar de um procedimento cirúrgico, a cesariana só deve ser executada quando há risco para a mãe ou para o bebê.

“Ainda que esta cirurgia beneficie um grande número de mulheres a cada ano, ela foi banalizada a ponto de criar uma cultura de que esta seria a maneira mais segura de nascer, o que não é verdade”, afirma Martha. Por conta das cirurgias, muitas mulheres e bebês morrem nesse período de vida. De 2010 a 2012, a taxa de mortalidade infantil em Santa Catarina foi de 11%, sendo que 5,7% foram mortes neonatais precoces (de 0 a 6 dias). Em 2013, houve 17 óbitos maternos.

Mas há iniciativas para diminuir esses números. A Rede Cegonha, política pública do Ministério da Saúde,  busca capacitar profissionais de saúde e instrumentalizar instituições a fim de que consigam oferecer auxílio a mães e crianças desde a gestação até a amamentação. Além disso, as futuras mães também têm a oportunidade de esclarecer suas dúvidas através de cursos e palestras. “Um bom pré-natal previne a mortalidade materna e infantil”, explica Patrícia de Souza, coordenadora da Rede Cegonha no Médio Vale do Itajaí.

“O trabalho da Rede Cegonha ajuda na diminuição do número de cesarianas, de intervenções durante o parto, principalmente em relação à episitomia e o uso de ocitocina sintética, e na melhoria do pré-natal de alto risco. Além de qualificar a equipe assistente e aumentar o número de médicos plantonistas, permite o acompanhamento do parto por doulas”, conta Martha.

Porém, não são todos os lugares que podem realizar um parto humanizado. É preciso que o hospital possua uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Pediátrica e Neonatal, para que possa atender a emergências. “Atualmente só o Hospital Santo Antônio, em Blumenau, e o Hospital Azambuja, em Brusque, oferecem o parto humanizado. Mas nós já temos planos de nos reunirmos com todos os hospitais da região para que todos possam ter essa condição, tanto de forma particular quanto pelo SUS”, afirma Patrícia.

A coordenadora também explica por que é preferível optar pelo parto humanizado, em vez da cesariana pré-marcada. Ouça o áudio abaixo:

Martha assinala a resistência por parte de alguns médicos obstetras para aceitar o parto humanizado. “Além de representar uma ruptura no cuidado obstétrico, aceitar esse novo modelo implica na aceitação também de novos atores na cena do parto, como a enfermagem obstétrica e as doulas”, explica.

“Embora ainda haja um longo caminho a percorrer, acredito que a mudança do modelo obstétrico veio para ficar”, afirma a médica. “As mulheres estão cada vez mais empoderadas, os grupos de apoio estão cada dia mais disponíveis para troca de experiências e os profissionais estão sendo cada vez mais apresentados aos bons resultados dessa prática para as mães e os bebês”.

Um dos maiores eventos sobre parto humanizado é o Congresso Online de Nascimento Natural e Humanizado, que está em sua segunda edição e é organizado pelo Movimento Nascer Melhor. Durante o congresso, diversos palestrantes falam sobre o tema gratuitamente. A ação acontece do dia 19 a 25 de maio. Acesse o site clicando aqui.

Amor de doula

O trabalho de uma doula vai além do parto. Antes disso, atua como apoio psicológico e físico da gestante e da família, recomenda livros, filmes, massagens, conversa… Pode, ainda, ajudar no puerpério, inclusive com auxílio no aleitamento, caso ela seja treinada para isso. “Ela pode ser aquela amiga que ajuda em aspectos que nem a parturiente sabe que precisa”, afirma a doula Jerusa da Silva Horácio.

“A doula passa segurança e oferece informações baseadas em evidências à gestante para que ela possa escolher a forma como quer que seu parto aconteça. É a ponte para que a mulher faça uma escolha estando informada e consciente. Mostra que o parto pode ser uma experiência prazerosa e que não é só sofrimento, tensão, dor e medo e que a cesárea não é a salvadora”, avalia Maria Eduarda Lapolli, que além de doula é educadora perinatal e fisioterapeuta.

Durante o parto, a doula é uma acompanhante preparada, oferecendo apoio físico e emocional. Faz massagens, indica posições, relembra a respiração. E muitas vezes acaba acalmando também o acompanhante da parturiente com palavras de conforto e segurança. “Ela é o olhar de afeto, a mão que abriga, o carinho necessário”, explica Jerusa.

“A equipe técnica – médicos e enfermeiros – fica mais envolvida em monitorar sinais vitais e verificar se há risco durante o parto. A doula entende da parte técnica e pode explicar para a mulher sobre o que está acontecendo, mas também oferece métodos de alívio para facilitar o nascimento do bebê. É um carinho e uma atenção que as pessoas envolvidas tecnicamente com a mulher não conseguem fornecer”, conta Maria Eduarda.

Jerusa, vítima de violência obstétrica em sua primeira gravidez, decidiu tornar-se doula para ajudar as mulheres a terem partos respeitosos. Ela participa também do projeto Útero de Pano e confecciona slings, que são suportes para carregar o bebê que simulam o ventre materno. Dessa forma, a criança fica mais próxima da mãe até completar dois anos de vida, auxiliando em seu desenvolvimento.

“Eu vejo a doula como uma pessoa em quem a mulher pode confiar, se entregar para viver o momento. A mulher sabe que terá a doula ali, amparando, e estará com ela em tudo. Esse apoio é fundamental. Acredito que as mulheres estão buscando doulas justamente para sentir que estão no caminho, para saber que alguém estará com elas. Que a doula sempre terá uma massagem, uma palavra, uma dica”. – Jerusa da Silva Horácio, doula.

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Jerusa, suas duas filhas e um dos slings confeccionados.

Maria Eduarda acredita que o número de doulas tem aumentado por conta da divulgação nos meios de comunicação e da mobilização nas redes sociais. Por causa dessa visibilidade, mais mulheres têm buscado esse apoio. “Ser doula é uma militância, um ativismo, é querer fazer a diferença na vida de outra mulher. Aquelas que passaram por um trabalho de parto sem respeito querem mudar a situação para que outras não passem por isso. E aquelas que tiveram um parto humanizado querem que outras possam experimentar o mesmo”, explica Maria Eduarda.

Para realizar um bom trabalho, as doulas estudam constantemente e compartilham suas dúvidas e aprendizados entre si. Hoje, elas são independentes e não estão sob jurisdição de nenhuma área da saúde. Maria Eduarda concorda com esse posicionamento, mas também acredita que é preciso que o trabalho seja mais formal para que seja levado a sério. “Nós estamos falando com instituições para aumentar a intensidade do curso de doulas – maior carga horária, decidir quais as disciplinas, os profissionais que podem ministrar e os locais que poderão oferecer o curso -, para que seja possível ter esse serviço pelo SUS. Hoje o trabalho da doula é voluntário ou pago de forma particular. Vai chegar um momento que precisará de diploma ou certificado, para demonstrar a seriedade do trabalho”, defende.

“Ser doula é ver a vida acontecer na sua frente. Ver a mulher ser a protagonista do nascimento é muito gratificante no trabalho da doula. É o melhor pagamento. Gosto de ver a mulher se transformando, confiando em si, acreditando na sua capacidade e no seu corpo, sorrindo depois que o bebê nasce, vendo que ela foi capaz de vencer todos os obstáculos… Isso não tem preço”. – Maria Eduarda Lapolli, doula.

Sabrina Ferigato, terapeuta ocupacional, foi uma das primeiras mulheres a divulgar as imagens de seu parto domiciliar humanizado, acompanhado por uma doula, em um canal de vídeo da internet. O vídeo, que acabou viralizando e contabiliza oito milhões de vizualizações, pode ser conferido abaixo:

Amamentação

Após o parto, outra dificuldade. Muitas mães não conseguem produzir – ou produzem pouco – leite materno para alimentar seu bebê. Até os seis meses de vida, é recomendado que esse aleitamento seja exclusivo. Após esse tempo, até os dois anos de idade, incentiva-se que a criança siga sendo amamentada, embora haja a introdução de novos alimentos. Em Blumenau e região, o Banco de Leite Humano é responsável por suprir as necessidades das mulheres em relação à amamentação desde 1998.

“O Banco de Leite coleta, armazena, processa e distribui leite materno – que é doado por mães com excesso de produção para aquelas que não conseguem produzir – e depois distribui gratuitamente para hospitais que possuem UTI Neonatal. Além disso, possui também um ambulatório, onde atendem-se as mulheres com dificuldade na amamentação”, explica Elizabeth de Souza, enfermeira obstetra, doula e coordenadora do Banco de Leite. Para conhecer mais sobre esse programa, vinculado à Secretaria Municipal de Saúde de Blumenau, basta acessar esse link.

Diversos projetos incentivam a amamentação. Na região do Médio Vale, Elizabeth também coordena o Comitê de Aleitamento Materno, que pretende manter uma rede de atenção às mulheres puérperas, bem como criar uma rede de solidariedade de doação de leite humano. Outro trabalho é a Hora do Mamaço, evento que acontece anualmente em agosto, mês de doação de leite. Durante o encontro, que reúne o maior número possível de mulheres amamentando em um espaço público, pretende-se não só divulgar a prática do aleitamento, mas também resgatar o ato de amamentar publicamente, que tem sido discriminado em algumas situações na sociedade.

“Todo esse movimento tem sido uma luta, também, contra a industrialização de leite em substituição à amamentação, bem como a utilização de bicos e mamadeiras”, explica Patrícia, da Rede Cegonha. Hoje existe uma lei que regulamenta o uso desses produtos, em especial para crianças de até dois anos. Acesse a lei aqui.

Há várias fontes sobre o tema para pesquisa online. A Rede HumanizaSUS tem sido um espaço de publicação de experiência e debates sobre a humanização do parto e nascimento. Com isto, revela muitos desafios em relação aos altos índices de cesariana que ainda persistem, mas que pretende minimizar os danos para todos, seja no SUS ou na iniciativa privada. Visite o site da rede clicando aqui.

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