Cidades

Meca catarinense: congresso evangélico altera rotina de Camboriú

GIDEÕES CHEGA À 34ª EDIÇÃO E PROBLEMÁTICAS COM MOBILIDADE, COMÉRCIO E EXPEDIENTE INCOMODAM CAMBORIUENSES.

Mudanças no trânsito, comércio e até mesmo na prefeitura incomodam população.

Texto: Schaline Maísa Rudnitzki e Bruna Bertoletti
Edição: Thiago Julio
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Prefeita Mathias entrega as chaves da cidade à pastor Cesino. | Foto: Schaline Maísa Rudnitzki.

Pelo 34º ano, Camboriú sedia de 23 de abril à 03 de maio o Congresso Internacional dos Gideões Missionários da Última Hora. O evento movimenta – literalmente – a cidade e fomenta a economia local e regional através do turismo religioso. Atuando em 63 projetos em 42 países diferentes, os gideões ocupam durante os dez dias do evento quase 100% da rede hoteleira da vizinha Balneário Camboriú, visitam parques locais e participam das pregações em Camboriú.

A cidade tem no congresso um dos maiores ápices de movimento do ano e o cenário se modifica rapidamente. Tendas, barracas e pontos improvisados se multiplicam nos dias anteriores ao início dos Gideões, onde comerciantes vindos dos mais diversos estados do país montam seus negócios provisórios em troca do pagamento de um alvará de R$ 900. A Secretaria de Finanças atende no período em horário estendido das 09h às 22h do sábado (23) à segunda (03/05), funcionários se revezam entre a expedição de licenças e outros 40 na fiscalização dos pontos.

O trânsito sofreu alterações entre os dias 27 de abril e 1º de maio, a partir da Rua Leopoldo Leite. Com saída para a Av. Santa Catarina, a via passa a ter duas pistas para entrada na cidade entre às 17h e 21h. Essa alteração é válida até a rótula em frente ao Instituto Federal Catarinense onde os veículos devem seguir a direita em direção à Rua Joaquim Garcia. As principais ruas do Centro, da Praça da Bíblia ao HSBC, ficam fechadas, o que permite somente o trânsito de pedestres.

Para alguns comerciantes o período é de “férias”. Muitos fecham as portas e sublocam seus espaços para o comércio ambulante que chega a cidade. Já outros, na maioria do ramo alimentício apostam alto: aumentam o número de funcionários e estendem o período de funcionamento a fim de atender os turistas que saem dos cultos após as 23h. Para essa edição, a estimativa era receber entre 120 e 150 mil pessoas. “Acreditamos que o povo vem pela fé, e a fé move esse público evangélico que vem a Camboriú”, declarou o secretário dos Gideões, Heron Macelai.

Chaves da cidade

Diferente do bom velhinho que recebe em dezembro a chave simbólica do município, o Pastor Cesino Bernardino, fundador e presidente dos Gideões, ganha além da chave, a livre entrada para o gabinete da prefeita. Durante os dias 27 a 03 de maio, é lá que ele recebe seus funcionários e faz os despachos necessários ao bom funcionamento do evento. Sem demonstrar grande comoção e com um ar sóbrio, Cesino recebeu já na noite do sábado (23) as chaves das mãos da prefeita Luzia Coppi Mathias. Em seu discurso, Luzia afirmou “que espera que os próximos gestores tenham essa sensibilidade” e mantenham a tradição.

Reforço policial

Considerada uma das cidades mais violentas do Estado, lutando diariamente contra o tráfico de drogas, Camboriú é uma das com menor apoio policial. Durante o período normal aproximadamente 40 homens se revezam para garantir a segurança da cidade. Em 2016 já foram seis homicídios, e em 2015 outros 29 foram registrados. Em grande parte, as mortes acontecem por acertos de conta entre os próprios bandidos, e a Polícia Civil raramente apresenta a resolução dos casos respondendo apenas com o trivial “está sob investigação”.

Mas, no período dos Gideões a Polícia Militar recebe reforço de tropa, incluindo uma barreira fixa na entrada do Centro em frente à Praça da Bíblia. Além disso, a cavalaria ocupa as ruas, policiais fazem ronda em motos, uma delegacia móvel atende em horário integral em frente à Praça das Figueiras e dois pontos de observação são postos, um em frente à Igreja Assembleia de Deus anexa ao Pavilhão e outro em frente ao ginásio Irineu Bornhausen. De acordo com o Tenente Ghilardi, comandante da 1ª Companhia da Polícia Militar de Camboriú, nos primeiros dias 30 policiais vieram, enquanto nos últimos dias do evento somaram 60 reforços policiais.

Investimentos mal explicados

Com um hospital com uso restrito ao pronto atendimento e com os casos mais grave sendo encaminhados ao Hospital Ruth Cardoso em Balneário Camboriú, com a maternidade funcionando apenas para cesáreas eletivas e sem possuir um único obstetra de plantão, com uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) transformada recentemente em policlínica devido à necessidade de investimentos mensais altos para a receita municipal, Camboriú completou em abril comemorou 132 anos de emancipação política. No calendário de celebração a Exporural é a maior reclamação dos moradores. Os investimentos para realização da festa ultrapassam os R$ 500 mil e tiveram neste ano como contrapartida do Estado apenas R$ 220 mil destinados a exposição agrícola.

Mas, é nos recursos destinados ao Gideões que geram mais descontentamento entre os moradores. A Câmara de Vereadores aprovou um repasse proveniente da prefeitura de R$ 220 mil para o congresso e o governo estadual enviou outros R$ 400 mil através da Associação e Movimento Rádio Paz no Vale. Segundo Macelai, os R$ 220 mil não entram para o caixa do congresso e são investidos diretamente pela administração municipal em melhorias na cidade, já os R$ 400 mil provenientes do Estado são utilizados para a infraestrutura do evento, como arquibancadas, tendas, som e iluminação.

Comércio ambulante

Entre todas as alterações na rotina dos moradores, o comércio ambulante é o que mais divide a população: de um lado os fãs das compras no grande camelódromo a céu aberto que o Centro da cidade se transforma, de outro comerciantes que se sentem prejudicados as vésperas de uma das datas com maior venda – o Dia das Mães.

Muitos comerciantes optam nesse período por fechar as portas e sublocar os espaços. Entretanto, entre os que ficam encontramos a dona de uma lanchonete localizada na rua Maria da Glória Pereira próximo ao ginásio, Maria Tereza Ferreira, que preferiu pelo terceiro ano consecutivo manter seu negócio aberto. Maria admite que último ano as vendas deixaram a desejar, mas ainda prefere arriscar. “Só no primeiro ano foi bom, ano passado não foi aquela coisa toda. Mas, acredito que às vezes o que faz a crise são as pessoas. Acho que esse ano vai ser bom”, afirmou dias antes do evento iniciar.

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Maria Tereza Ferreira, comerciante. | Foto: Schaline Maísa Rudnitzki.

Para atender a demanda, a proprietária aumentou o quadro de funcionário e abriu quatro vagas de trabalho temporário. Também foi preciso estender o horário para atendimento entre ás 7h e às 23h30, quando encerram as pregações no ginásio. Mas, assim como os demais comerciantes fixos do município, Maria não guarda tão boas lembranças do último congresso, quando um vendedor de água colocou sua banca em frente à lanchonete. “Pagamos impostos para a cidade durante o ano todo, tivemos que chamar a fiscalização. Ele saiu da frente do comércio, mas foi apenas um pouco mais para frente e atrapalhou as vendas. Acho que deviam dar oportunidade para quem é daqui e não para quem vem de fora”, avalia.

Jaqueline Baruffi, gerente de uma loja com preços populares, não ficou satisfeita com o resultado das vendas durantes os nove dias do evento. Para ela, ficaram muito abaixo da expectativa, ainda mais se comparadas ao ano anterior. “A gente trabalhou de domingo a domingo, das 09h às 23h e as vendas caíram bastante perto do ano passado”, ressalta. Agora se foi ruim para quem já tem um estabelecimento na cidade, parece que foi pior para quem veio de fora. Edilene Santos Coqueiro é camelô em São Paulo e pela primeira vez instalou um ponto para comercializar roupas íntimas durante os Gideões e afirma ter ficado no prejuízo. “A gente ouve os outros comentar, e resolvi vir. Mas, foi horrível. Vendemos pouco e não compensou”, conta a comerciante que ficou treze dias na cidade.

Quem também chegou a essa conclusão, é a doceira Silvana da Silva que há 15 anos monta uma barraca de guloseimas durante o evento. “Está muito fraco, é horrível. Sem dúvida esse é um dos nossos piores anos aqui”, constata.

Entre o vai e vem apressado dos turistas e entre uma paradinha e outra, a itajaiense Jaqueline Pereira veio por duas vezes aproveitar as promoções do período de fim do congresso. De acordo com ela, o passeio já virou tradição na família, que todos os anos vêm apenas com a intenção de comprar. “O preço está bom, se souber comprar, pesquisar, vale a pena”, conta.

A opinião da população

Eliana Backes, supervisora pedagógica: “Altera significativamente a rotina das pessoas que precisam acessar as ruas do Centro. Principalmente quem trabalha e estuda. Deve-se perceber que vários professores vêm de outras cidades para lecionar aqui, e não conseguem chegar no horário previsto à escola, tanto os que dependem de transporte público, quanto os que vêm com condução própria. Lembrando ainda que não basta sair mais cedo, pois a grande maioria destes trabalha 60 horas e em duas escolas inclusive. Alunos também encontram dificuldades. Devemos ter em mente que os que têm condições andam várias quarteirões até chegar à escola, mas os alunos especiais não tem essa opção, sendo lhes tirados o direito de ir e vir”.

Elisa Mendes, empreendedora: “Acredito que Camboriú não tem estrutura para comportar um evento tão grande desse. Os moradores ficam prejudicados ao se locomoverem de suas casas até seus trabalhos e vice e versa. Sem contar a falta de segurança pela cidade, facilitando os assaltos e tudo mais”.

Aline Dutra, estudante de pedagogia: “Eu sei que tem muitas críticas, principalmente a respeito do trânsito! Eu sinceramente gosto desse agito na cidade, pois a nossa Camboriú costuma ser pacata e tranquila demais, pois aqui não há muitos eventos onde se reúnem as pessoas da cidade. Então a questão de comércio é legal, já o trânsito mexe um pouco na vida dos moradores que precisam dos principais acessos para ir trabalhar, mas como eu disse é uma semana, e uma vez ao ano… Então dá pra tolerar”.

Natália Alcântara, jornalista: “Este é o primeiro ano em que não tenho nenhum transtorno em relação ao evento dos Gideões. Já ocorreu em outras edições ficar mais de uma hora presa no trânsito tentando sair da cidade e não conseguir me deslocar até Itajaí, por exemplo. Talvez não tenha sentido tanto porque tenho saído de casa mais cedo e chegado mais tarde, não pegando tanto o horário do movimento. Claro que as alterações no trânsito auxiliam um pouco a reduzir o fluxo. Acho que a principal questão mesmo é essa, quando interfere na minha rotina durante o evento”.

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