Entrevista

Entrevista: Gustavo Duarte, biólogo marinho e presidente do Instituto Coral Vivo

O biólogo marinho Gustavo Duarte é também presidente do Instituto Coral Vivo, que atua na preservação e conscientização sobre a necessidade de cuidarmos dos oceanos. Ele esteve em Balneário Camboriú e disse que a situação da cidade é caótica.

Texto: Renata Rutes Henning

Gustavo Duarte é presidente do Instituto Coral Vivo, que atua principalmente no Rio de Janeiro e na Bahia, promovendo a conscientização sobre a necessidade de cuidarmos dos recifes e das comunidades coralíneas brasileiras. Ele também traz em sua bagagem muitas experiências com pescadores, atuando junto deles sobre a necessidade de preservarmos certas espécies de peixes, respeitando a temporada de cada um. Recentemente, Gustavo esteve em Balneário Camboriú, onde palestrou no evento Gastronomia Consciente, promovido pelo Núcleo de Gastronomia da Associação dos Empresários de Balneário Camboriú (Acibalc), a convite de seu amigo de infância Gustavo Zadrozny, que preside o núcleo. Duarte afirma que se surpreendeu com a situação que Balneário vive hoje, salientando que passava verões por aqui na década de 90, e que muitos peixes desapareceram. Na opinião dele, é preciso uma parceria e conscientização entre pescadores, chefes de cozinha e donos de restaurantes, que precisam aprender a respeitar a ausência de peixes, como o Badejo, que praticamente não existe mais na região.

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Gustavo em viagem de mergulho no Egito. (Foto: Divulgação)


Como avalia a palestra em Balneário?

Foi bem interessante, já que a região como todo o litoral catarinense segue uma tradição pesqueira bem forte. Para mim foi muito bom ter encontrado com pescadores e representantes de restaurantes. Um dia antes, pesquisei um pouco, visitando peixarias, e me surpreendi com a ausência de algumas espécies que não estão mais presentes, como o Badejo e Garoupa, que sabemos que existe por aqui. Na Ilha do Arvoredo, que é uma área preservada, eles ainda existem, mas aqui em Balneário e Itajaí estão totalmente ausentes. Isso já é uma amostra do colapso que a região vive. Trabalho na Bahia em uma parte que é considerada o local mais preservado do Brasil, então lá tem todas as espécies de peixes. Balneário, infelizmente, é um exemplo que vou levar comigo para dizer ‘não vamos chegar como está lá’.

Há muitos restaurantes de frutos do mar na região. Isso preocupa?

Sim, e a demanda também é muito grande. É um trabalho que precisamos fazer (atuar junto aos donos de restaurantes e chefes de cozinha) para que todos melhorem sua forma de atuação e repensem seus pratos de forma sustentável.

Você acredita que falta conscientização ambiental nesse público?

Na verdade, acho que a consciência vem mudando até porque os elementos estão muito mais claros que antigamente. Antes dizíamos ‘algum dia vai acabar tal espécie de peixe’, e agora acabou. Por exemplo, no Sul da Bahia, onde temos variedade de peixes e em grande quantidade, é um pouco mais difícil, porque lá eles podem achar que o mar é infinito, mas não é. A sustentabilidade dele é fundamental, assim como seguirmos com a prática da pesca artesanal, que é uma tradição açoriana, e infelizmente isso está acabando também.

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Gustavo acredita que a solução para a ausência de certos peixes em Balneário Camboriú é parar de pescar. (Foto: Arquivo Pessoal)


Como você vê a situação que Balneário vive hoje?

Balneário cresceu muito, frequento aqui desde a década de 90, e de certa forma desordenadamente, com espigões enormes e um consumo gigante de pescado na época do verão. O pessoal chega aqui e quer comer peixe, e querem um determinado, que muitas vezes está em falta no ambiente, como o linguado e o cação, que já estão em vias para serem proibidos de serem consumidos. Acredito que não é o pescador que precisa ser conscientizado, já que ele vai pescar o tal peixe porque sabe que o dono do restaurante quer comprar, e sim o empresário, que deveria comercializar o peixe da época. Na Europa, se você for a um restaurante para comer peixe, eles te servem o peixe da época e todos se deliciam. É difícil uma pessoa não gostar de determinado peixe, já que todos são bem parecidos. A palestra abordou muito disso, que precisamos mudar o mercado e o costume do consumidor.

A solução então seria variar os produtos a cada estação?

Sim. Fizemos várias recomendações na palestra, como respeitar as espécies que já estão em risco. Quando elas são proibidas é porque não dá mais, e é muito ruim chegarmos a esse ponto. Falta monitoramento pesqueiro também, não há fiscalização por aqui. O Brasil não sabe quantos peixes saem de seu mar por ano, por exemplo. Não existe um controle. Não dá para ser feito por universidades ou instituições privadas, e sim pelo Governo. O que o Instituto Coral Vivo está buscando fazer é sensibilizar as pessoas através da educação ambiental. Precisamos nos antecipar ao colapso dos estoques. Por exemplo, a Portaria 445 do Ministério da Pesca e Aquicultura, que foi aprovada com base em pesquisas de estudiosos sérios, está hoje em liminar porque os pescadores de Itajaí fizeram um protesto e não aceitaram que a lista de peixes em risco fosse editada. Quando essa lista precisa ser alterada é porque mais espécies entraram e não podem mais ser pescados. Não foi culpa do Governo e sim desse grupo de pescadores, por causa deles o Brasil inteiro está hoje sem essa lista.

Você defende a pesca artesanal?

Para os restaurantes, sim, além de ela ser uma prática importante para a sociedade. Porém, há peixes, como atum e sardinha, que precisam ser pescados de forma industrial. Precisamos favorecer o comércio justo. Por exemplo, se o peixe é barato, o restaurante precisa comercializar ele nesse custo bom também. Em Balneário, isso infelizmente não acontece. Mas, vamos imaginar que os donos de restaurante se unam para comprar peixe, então isso vai fazer com que o preço diminua. Porém, você vai quebrar a cadeia produtiva da pesca artesanal com isso. Do ponto de vista empreendedor, isso pode parecer lindo, já que você estará fazendo um ‘pool’ de empresários. Na prática, o pescador vai precisar pescar mais para atender a todos esses clientes.

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Junto do amigo de infância Gustavo Zadrozny (coordenador do Núcleo de Gastronomia da Associação Empresarial de Balneário). (Foto: Renata Rutes)


Acontece com certa frequência em Balneário, quando as redes são puxadas, a vinda de peixes menores, que infelizmente acabam morrendo e ficam na areia…

Isso é chamado de pesca acidental. Na pesca do camarão, isso costuma acontecer muito. Realmente ficamos em uma ‘saia justa’ com esse tipo de situação. Não demonizo a pesca, adoro peixe, como de cinco a seis vezes por semana, e gostaria que não faltasse. Porém, vejo que os pescadores deviam controlar o tamanho de suas redes, porque é ruim pra ele pegar esses peixes acidentalmente, pois se eles crescessem dariam peixes mais interessantes daqui algum tempo. É como a questão dos narcotraficantes: o maior consumidor de cocaína no mundo é os Estados Unidos, mas a guerra acontece na Colômbia. Nos EUA a segurança é total. Com essa analogia podemos analisar que não podemos combater o pescador artesanal, e sim trabalhar junto ao dono de restaurante que está cobrando os peixes. Se você colocar no cardápio cação e linguado, mesmo na baixa temporada você terá que ter eles o ano inteiro. E não é porque o tal peixe está na temporada que você pode pescar tudo, como na Temporada da Tainha, que está diminuindo o número dessa espécie a cada ano por conta disso.

Pescadores e o pessoal de restaurante compareceram em sua palestra?

Sim, foi a Rose, representante da comunidade pesqueira Z7, do bairro da Barra. Convidamos o Levy também, mas ele não pode ir. O pessoal da Secretaria de Turismo também foi, além de chefes de cozinha, professores da área e donos de restaurantes. Eles apoiam a ideia, dizem que tem que haver a conscientização. Todos conseguiram enxergar que não é difícil trabalhar junto da sustentabilidade, veem que é possível mudar.

Você acredita que há solução para Balneário?

Sim, vejo que se os pescadores deixarem de pescar por um certo tempo o Badejo, por exemplo, que não existe mais em Balneário, ele vai voltar. Ele está presente na Ilha do Arvoredo, que é aqui perto. Em Balneário ele não existe mais por conta da pesca submarina, não é culpa total dos pescadores que puxam redes, além também da poluição. Os donos de restaurantes podem dizer ‘ah, mas o cliente chega e quer tal peixe’. Isso é uma cultura muito brasileira, no resto do mundo o pessoal entende que há determinado peixe a cada estação. Ou seja, todos precisam mudar, desde os pescadores como também os donos de restaurantes, chefes de cozinha e os consumidores.

Surgiu alguma ideia do que fazer na cidade, após a palestra?

Sim, surgiram algumas ideias em termo de certificação e mobilização municipal, sem depender do Governo Federal. A ideia é mobilizar as instituições e associações locais para que elas atuem em conjunto para que a situação de hoje se transforme. Isso precisa começar a acontecer com urgência, já que o processo envolve tempo e esforço. O principal nesse momento é a conscientização dos restaurantes. Fica um desafio, pois estamos claramente em colapso. Não precisa ser um especialista para constatar isso, basta ir a uma peixaria da cidade para saber quais espécies tinham para consumo e hoje não tem mais.

Em Balneário no último verão houve uma ‘explosão’ de pontos impróprios para banho, de que forma isso afeta a pesca?

Isso é muito ruim e os pescadores realmente reclamam muito. Há empreendimentos que estragam o ambiente e que jogam resíduos sólidos no mar. Em Santa Catarina, há muito disso, como aqueles locais onde muitas pessoas vão com suas lanchas e ficam lá durante um dia inteiro. Isso afeta muito o ambiente. Os pescadores nos questionam sobre isso e não temos como rebater, porque é verdade. O problema é muito grave. Não sou catastrofista, mas hoje Balneário vive um período muito complicado mesmo, isso é uma realidade. Não existe solução mágica, é preciso conscientização – essa é a forma mais rápida para mudarmos isso tudo.

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