Cidades

Ciclofaixa BC – Itajaí: um sonho que precisa virar realidade

Projeto discutido desde 2007 até hoje não saiu do papel. Ciclousuários relembram sua importância e pedem execução

Projeto discutido desde 2007 até hoje não saiu do papel. Ciclousuários relembram sua importância e pedem execução

Texto: Luana Cristina e Renata Rutes Henning
Edição: Bárbara Porto Marcelino

Quem passa pela Rodovia Osvaldo Reis, seja indo no sentido de Balneário Camboriú para Itajaí ou voltando, de ônibus, carro ou motocicleta vê a rotina que muitos trabalhadores enfrentam todos os dias. O local não possui ciclovia ou ciclofaixa e os ciclousuários se aventuram entre os veículos. Disputam espaço na via, correndo o risco de serem atropelados de diversas formas.

Moisés Cunha percorre a rodovia.  A diferença é que ele não está sentado no banco de uma moto, ou acomodado no conforto de um automóvel. O trabalhador de 45 anos depende da energia do seu corpo para pedalar e ter muita atenção com a rua. “A segurança aqui é um desastre, é muito ruim para gente que passa todos os dias, os carros não respeitam”, desabafa.

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O trabalhador Moisés Cunha faz o trajeto entre Balneário e Itajaí, através da Rodovia Osvaldo Reis, todos os dias. (Foto: Divulgação)

Para entender um pouco mais como é o dia a dia de quem anda pela rodovia, o ciclista e presidente da Associação de Ciclismo de Balneário Camboriú e Camboriú (ACBC), Luiz Carlos Chaves Júnior, filmou o trajeto entre as duas cidades, através da Osvaldo Reis e subindo o Morro Cortado. Confira abaixo:


Balneário Camboriú quer fazer sua parte este ano

O secretário de Planejamento Urbano de Balneário Camboriú, Fábio Flôr, conta que a cidade tem um plano, que já estaria bastante avançado, de estender a ciclovia que vai da Rua Uganda, no Bairro das Nações com a Avenida do Estado, até a Rodovia Osvaldo Reis, na divisa com Itajaí. “Queremos também já fazer o circuito, entrando com a ciclovia pelo Bairro Praia dos Amores e já retornando pela Estrada da Rainha, ligando na ciclovia das avenidas Atlântica e Brasil”, garante. A Estrada da Rainha já está recebendo ciclovia que vai até em frente ao Infinity Blue Resort e SPA. Ele lembra que há algum tempo teve uma conversa com a Secretaria de Urbanismo de Itajaí e que ficou sabendo que a cidade também tem planos de realizar a ciclovia, mas não estão tão avançados como Balneário. “Nós também temos a intenção de fazer um binário com a Rodovia Osvaldo Reis, já que ela não tem uma caixa capaz de suprir o movimento como temos hoje na Avenida do Estado e Martin Luther”, comenta.

O ciclista e presidente da Associação de Ciclismo de Balneário Camboriú e Camboriú (ACBC), Luiz Carlos Chaves Júnior, diz acreditar que é praticamente impossível Balneário conseguir cumprir sua parte na obra neste ano, levando em conta que o Mapa Cicloviário da cidade não contempla obras na Estrada da Rainha e Rodovia Osvaldo Reis. “Essa interligação deveria ser uma prioridade para esses dois governos, mas não é isso que vem acontecendo. Os governantes precisam pensar nos trabalhadores que passam por essa rodovia todos os dias e se arriscam em meio aos carros. Só quem é ciclista sabe como é passar por isso”, opina.

Confira o que o Código de Trânsito diz sobre bicicletas e ciclistas

O que diz Itajaí

O arquiteto e coordenador técnico da Secretaria de Urbanismo de Itajaí, Daniel Moojen, salienta que no momento Itajaí está trabalhando não só na ligação cicloviaria da cidade como também em outros tipos de modais que beneficiem tanto Itajaí quanto Balneário Camboriú. “Balneário é ‘cidade dormitório’ para Itajaí e vice-versa. Hoje o Praiana faz essa ligação, mas estamos buscando modelos alternativos além da ciclovia na Osvaldo Reis, como ônibus maiores”, afirma.

Ele explica que a conversa que aconteceu entre as cidades, e que segundo Flôr havia acontecido ‘há algum tempo’, na verdade foi entre 2007 e 2008, quando Sérgio Baggio administrava a Secretaria de Balneário. “Hoje estamos cuidando das obras da cidade mesmo, como o caminho para a praia de Cabeçudas e a Beira Rio. Tudo isso está sendo pensado na ciclovia, que farão parte desses trajetos”, explica. Daniel afirma que a ciclovia está nos planos de Itajaí, e que inclusive estão reservando áreas da rodovia para abrigá-la, mas que ainda não há prazo para isso acontecer. “Estamos estudando. Gostaríamos de instalá-la nos dois lados, mas temos que analisar o custo de terra, pois há alguns trechos que precisaremos indenizar os proprietários de terrenos para alargar as calçadas. Não é algo que quando começar a ser executado vai demorar, mas ainda não há data para início das obras”, diz.

Ele lembra que não basta apenas isolar a área, pintar e começar a circular somente bicicletas no local. “Temos muitas coisas para analisar. Por exemplo, no local há muitas lojas de carros, e os motoristas terão que frear em cima da ciclovia. Não é simplesmente ‘vamos implantar a ciclovia’, temos muitas coisas para estudar. Queremos que a Osvaldo não seja somente uma via de passagem e sim um local de permanência, uma via de chamariz turístico já que é um local com uma vista bonita. Gostaríamos de instalar bancos, assim como Balneário fez na Martin Luther”, informa. Ele lembra que Balneário Camboriú possui um trajeto mais curto para fazer e que para Itajaí englobaria não só a Praia Brava, mas também os bairros Fazenda e Fazendinha. Sairia mais caro. “Não podemos somente implantar sem planejamento, realmente precisamos tomar muito cuidado. Não é algo simples”, pontua.

Confira abaixo o trajeto que liga as duas cidades:

ACBC duvida

Chaves lembra que Itajaí humanizou a cidade através da Avenida Beira Rio, só que com foco mais no lazer e não na mobilidade urbana. “As ciclovias implantadas nessas duas cidades precisam ser mais espaçosas e em ruas de menos movimento, até para conter os acidentes”, diz. Ele lembra que em Balneário Camboriú, por exemplo, a sinalização para as ciclovias e ciclofaixas são inexistentes. “Se você está na ciclovia passando por uma esquina precisa parar, pois os carros não possuem nenhuma sinalização. Não há placas. Na ciclofaixa da Atlântica, por exemplo, você não pode ser multado ou ter seu automóvel guinchado por parar em cima dela, porque também não há sinalização dizendo que é proibido estacionar nesse local”, explica. Ele salienta também que há ruas paralelas, como a 2.000 e 2.550, que possuem ciclovias e que não há sinalização indicando isto. “Deveria ter nas ruas próximas a elas indicações, pois muitos ciclousuários andam pelo meio da rua porque não sabem disso”, afirma.

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Luiz Carlos Chaves Júnior, empresário e presidente da Associação de Ciclismo de Balneário Camboriú e Camboriú (Foto: Divulgação)

O ciclista lembra que a sociedade pensa muito no singular. “Por exemplo, se você pega ônibus, você quer mais pontos de ônibus, se você anda de carro, você quer mais estacionamentos e privilégios para carros, e se você é ciclista você quer mais ciclovias. As pessoas conhecem seus direitos, mas parecem ignorar seus deveres. Precisamos pensar em conjunto para assim conseguirmos mais realizações”, afirma.

Fugindo da rota

Por conta da falta de segurança e descaso do Poder Público há ciclistas da região que optam por criar grupos e pedalar fora do perímetro urbano, como é o caso de Jorge Hamilton Turnes, o “cacique” da Tribo das Bikes. Desde a década de 90, ele participa desse tipo de grupo. Utiliza sua bicicleta para passeios, viagens, e semanalmente se reúne para pedalar com a galera.

Jorge acredita que seus filhos e, certamente, seus netos, poderão usufruir de cidades e pessoas mais educadas ao trânsito, pois atualmente nas autoescolas pouco se fala sobre as regras e leis para os ciclistas.  “As cidades não foram planejadas para terem ciclovias, são poucas as que tem, é mais comum as ciclofaixas que são adaptações, extensões da via. E para quem já andou de bicicleta na Europa, sabe que lá realmente funciona, as pessoas respeitam. É questão de educação e deve ser ensinado para as crianças desde pequeno” diz Jorge.

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Muitos ciclistas optam por pedalar nas estradas do interior da região, para evitar vias movimentadas (Foto: Divulgação)

De Itajaí até Aparecida do Norte, no estado de São Paulo, foi o caminho que Jorge e sua esposa percorreram por oito dias, mais de 500 km. “Nós tivemos alguns conflitos na estrada devido ao fluxo intenso de carros e caminhões, principalmente na região de São José dos Campos onde não tinha acostamento, que é um problema entre Itajaí e Balneário Camboriú. Se tivesse acostamento na via não seria tão perigoso para nós ciclistas”, explica.

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Jorge e a esposa Liza, em viagem de bike para Aparecida do Norte. (Foto: Divulgação)

Entre projetos de secretários e vereadores que buscam interligar as cidades de Itajaí e BC, para os ciclistas é extremamente perigoso fazer esse trajeto. Jorge explica que esse é um dos motivos pelo qual ele prefere fazer cicloturismo rural. O que não significa que os ciclistas podem passear e se distrair com os pássaros. “Por ser área rural, motoristas correm também, temos que estar em alerta sempre”, ressalta Jorge.

Abaixo um box explicando as diferenças entre ciclovia e ciclofaixa:

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