Arte e Cultura

É dia de Ogum, faça suas oferendas!

Descubra os detalhes de uma cerimônia de Umbanda

Texto: Luana Cristina e Douglas Schinatto
Edição: Talissa Peixer

Os batuques dos atabaques chamam a atenção, na noite quente de sábado, dia 23 de abril. Não era normal aquele movimento na pequena rua do bairro São João, em Itajaí. Todas as vagas de estacionamento estavam ocupadas, havia fumaça na churrasqueira, cadeiras espalhas, convidados de vermelho comemorando o dia de Ogum, o Senhor da Guerra.

O pai Luiz de Oxalá dava boas-vindas aos seus convidados em nome do principal personagem da noite, o orixá Ogum. No meio da roda de cerca de 40 médiuns, pai Luizinho é quem coordena a celebração, em um salão pequeno enfeitado de vermelho e branco. O ritmo da cerimônia é ditado por batuque, cantigas, danças e oferendas. E ainda como prato principal, uma costela bovina, a preferida do Orixá.

 
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Pai Luiz de Oxalá descobriu sua mediunidade aos sete anos (Foto: Douglas Schinatto)

A cerimônia começa com as palavras de pai Luizinho, que agradece a Ogum e renova os votos para mais um novo ano. Luizinho coloca um cocar verde, passa por todos os médiuns e cumprimenta um a um. Na sequência oferece água e vinho para Ogum. E então, o couro dos atabaques esquentam, pai Luiz acende um charuto, a fumaça passa pelas pessoas que estão naquele pequeno cômodo, que acolhe cerca de 70 religiosos.

 “Nesta Casa de guerreiros, Ogum Vim de longe pra rezar,
Ogum Rogo a Deus pelos doentes, Ogum Na fé de Pai Oxalá,
Ogum Ogum salve a Casa Santa, Ogum Os presentes e os ausentes,
Ogum Salve nossas esperanças, Ogum Salve velhos e crianças,
Ogum Nego Velho ensinou, Ogum Na cartilha de Aruanda,
Ogum E Ogum não esqueceu, Ogum Como vencer a demanda,
Ogum a tristeza foi embora, Ogum Na espada de um guerreiro,
Ogum E a luz do romper da aurora, Ogum Vai brilhar neste Terreiro, Ogum”

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(Foto: Douglas Schinatto)

No meio da cerimonia, pai Luizinho convida o repórter/fotógrafo a ir ao meio da roda. Entre fotos e esbarradas ele recebe um alerta de uma mulher negra, cabelos soltos, vestido vermelho e blusa branca. “Cuidado com os rostos das pessoas que estão aqui. Nem todos querem divulgar que são desta religião”. O segundo alerta vem do Pai Luiz. “Aqui tem muitas pessoas importantes, que tem medo de serem julgadas como macumbeiros. Eu não tenho esse problema, mas ainda existe muito preconceito com a nossa religião”.

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(Foto: Douglas Schinatto)

O professor Giovani Martins, explica que a Umbanda ainda é uma das religiões mais atacadas pelo preconceito e intolerância. “No estado de Santa Catarina, existem muitos terreiros com problemas relacionados às invasões policiais por denúncia de vizinhos. No entanto é uma religião que nasceu nas senzalas como forma de resistência e manutenção do Culto aos orixás Africanos”, diz.

A principal característica da Umbanda é a incorporação de espíritos negros (pretos velhos), índios (caboclos), crianças (ibeji) entre outros exemplos, como Exu e Pomba Gira que são denominados guardiões. De origem brasileira, é uma mistura de vários elementos de religiões africanas e cristãs.  Essa relação é denominada de sincretismo, pois foi iniciada nas senzalas quando os escravos eram proibidos de realizar seus cultos. Surgiu efetivamente no início do século passado (1908) em Niterói, no Rio de Janeiro.

O fato histórico aconteceu em um centro espírita kardecista, na cidade de Niterói. Uma divindade tomou o corpo, falando pela boca de um jovem de 17 anos, Zélio Fernandino de Morais. O Caboclo das Sete Encruzilhadas diz:

 – Se julgam atrasados esses espíritos dos pretos e dos índios, devo dizer que amanhã estarei em casa deste “aparelho” (Zélio) para dar início a um culto em que esses pretos e esses índios poderão dar sua mensagem e, assim, cumprir a missão que o plano espiritual lhes confiou. Será uma religião que falará aos humildes, simbolizando a igualdade que deve existir entre todos os irmãos, encarnados ou desencarnados.

Hoje a Umbanda é espalhada por todo território verde e amarelo. Tem sua maioria de seguidores no sudeste, nordeste e no sul do Brasil sendo que a principal concentração é no Rio Grande do Sul.

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