Cidades

Nordestinos no litoral catarinense: do preconceito ao choque cultural

O choque cultural de quem trocou o Nordeste pelo Sul do Brasil
Texto: Alan Willian e Talissa Peixer
Editora: Schaline Rudnitski

No berço da colonização brasileira muito sol, calor e praia o ano inteiro. Do lado oposto, o clima é mais fresco, o sol já não predomina com tanto rigor e as praias são movimentadas somente em alta temporada. Essas são algumas diferenças do Nordeste para o Sul do Brasil. Quem migrou lá de cima para a região mais ao sul do planeta, mais especificamente para o Litoral de Santa Catarina, deve ter sentido as diferenças culturais e climáticas.

Foi o que aconteceu com a professora de dança Josemara Macedo Melcher, de 22 anos. Ela é natural da cidade de Caicó, Rio Grande do Norte, mas se mudou quando era bebê para Natal. Josemara veio de Natal para Joinville em 2010 para se graduar em dança no Bolshoi. “No início, não gostei nem um pouco dessa cidade. É fria em vários aspectos e não tem muitas coisas para fazer.”

Para a professora de dança, Joinville não oferece diversidade cultural para os cidadãos. “As artes são bem pouco apreciadas em Joinville. O Bolshoi e o Festival de Dança são as maiores experiências culturais da cidade”. Segundo o último dado do pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 59.273 nordestinos migraram para Santa Catarina, do Censo Demográfico de 2010.

O choque cultural, de sotaques e costumes, poderia gerar preconceito das novas pessoas que entraram na vida de Josemara. Mas, não foi bem assim que aconteceu. “Não me lembro de ter sofrido preconceito. Creio que não sofri porque vim para uma escola onde muitos gostariam de estar.”

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Coreografia “Real ou Insano” da modalidade de dança contemporânea. (Foto: Vanderléia Macalossi)

Em dezembro de 2014, a vida pacata em Mossoró, Rio Grande do Norte, ficou em segundo plano. A vendedora Francimeire Barbosa da Silva, de 26 anos, se mudou para Joinville. “Sempre tive um sonho de vir morar em Joinville. Mas antes de vir para cá, passei por um procedimento de realidade: tive que me preparar para encarar tudo que iria passar aqui.”

A saudade de casa aperta dia após dia. Em Mossoró, Francimeire deixou o bem mais precioso conquistado em sua vida: o filho de seis anos. “Saí da minha cidade deixando filho, família e amigos. Nada na vida é fácil. Fui mãe aos 19 anos de idade, e ter que deixar ele lá foi bem difícil, mas já sabia o quanto seria doloroso.” A vendedora está desde dezembro de 2014 sem ver o filho, Adriel Pablo, que ficou no Nordeste com sua mãe. Os planos para visitar a família na cidade natal, são somente para 2017.

Hoje, ela mora com a tia, que já está na cidade há 23 anos. O choque cultural foi sentido na pele da nordestina de um jeito não tão acolhedor. “O baque cultural foi grande. Mas consegui me acostumar no decorrer dos dias. Sofri preconceito no começo, mas para mim, isso não importa. Tenho orgulho de ser nordestina.”

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Xilogravura de Cordel (Artista: José Francisco Borges)

Mas há quem fez da sua origem nordestina um motivo de superação, como é o caso de Edvaldo Augusto Mendes de Sousa, 47 anos, jornalista graduado e funcionário público. Natural de Limoeiro do Norte, Ceará, Edvaldo largou a lida com o gado e o campo e veio para Itajaí em 1991 trabalhar como mascate. “Um amigo da nossa família convidou eu e mais alguns rapazes para vir trabalhar vendendo utensílios de porta em porta. Ninguém veio enganado. Sabíamos que iríamos trabalhar com isso,” disse ele.

Apesar das dificuldades o cearense não desanimou e conseguiu ingressar na universidade para cursar Jornalismo. Em 2008, ao escolher o tema para o trabalho de conclusão de curso, Edvaldo não titubeou e decidiu mostrar através de um documentário os retratos nordestinos. “Nenhum estudante tinha abordado esse assunto e eu me senti na obrigação, como nordestino de realizar esse documentário. Ainda bem que ninguém antes teve a ideia. Eu me sentiria traído se outro aluno o fizesse.”

Ele afirma que o documentário serviu para combater a visão limitada que as pessoas do Sul ainda têm das outras partes do Brasil. Segundo ele, as pessoas da região que se informam somente pela televisão não tem o real conhecimento, mas destaca que isso tem mudado. “A mídia tem sido uma faca de dois gumes. Ao mesmo tempo em que ela contribui para difundir essa imagem de um nordeste faminto, pobre e analfabeto, também mostra as coisas boas, as belezas naturais e o interior magnífico”.

A data do início da migração em massa de nordestinos para Itajaí não é um dado preciso. “Observamos desde a segunda metade do século XIX, um fluxo contínuo de nordestinos migrando para Itajaí em diversas áreas, desde intelectuais, comerciantes, trabalhadores portuários”, explica o mestre em História pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Francisco Alfredo Braun Neto.

Durante o processo migratório diversos nordestinos se destacaram na história de Santa Catarina, segundo o professor Chico, como é conhecido no mundo acadêmico. “Desde os anos 1850, encontramos intelectuais do Nordeste atuando como presidentes da província (atual governador de Estado), como juízes e desembargadores. Entre eles Francisco Beltrão, Pedro Ferreira e Silva, e Victorino de Paula Ramos tiveram atuação de destaque na política catarinense na Primeira República”, aponta o professor.

Mas o famoso pau-de-arara, aquele caminhão que transportava famílias inteiras para o sul e sudeste, parece ter dado meia volta. Segundo a pesquisa do IBGE feita em 2012 – a mais recente no assunto – há uma tendência das pessoas retornarem ao seu estado. O nordeste é a região que mais tem recebido o retorno da população. O aumento da oferta de emprego e a diminuição da miséria é o principal motivo.

O jornalista Edvaldo lamenta que aos poucos a tradição nordestina tenha perdido espaço na sua vida, seja na alimentação, no jeito de falar ou de se comportar. “Isso é extremamente negativo e não poderia acontecer. Estou perdendo as características próprias do nordestino. Tudo isso parece que vai se dispersando e passa despercebido. É como se você fosse perdendo a sua própria identidade”.

Apesar do desejo em retornar, o cearense mantém os pés no chão e coloca algumas condições para voltar ao nordeste. “Eu pretendo retornar sim, mas não sou mais um garoto para sair por aí me aventurando. Só volto caso passe em algum concurso público na minha área.” Sobre a saudade de Limoeiro, Edvaldo define: “a saudade é um fardo que todo nordestino carrega consigo enquanto estiver longe de sua terra natal. O nordestino é um dos poucos migrantes que nunca esquece suas origens”.

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