Arte e Cultura

Desafios do circo: vida, mudanças e encantos do picadeiro

Inovar é o caminho para a arte não se perder
Texto: André Felipe Schlindwein e Juliana Costa Masera
Edição: Bruna Bertoletti

Por trás da face pintada, do nariz vermelho e das roupas xadrez há um homem sonhador, de visão empreendedora e que carrega consigo o mesmo sorriso largo do seu personagem: Biribinha. A conversa tranquila, debaixo das quentes tendas coloridas do circo, desvenda um mundo no qual comodidade e segurança são trocadas por um simples sorriso no rosto.

– O circo é uma vida apaixonante, não há dinheiro no mundo que pague os momentos que vivo aqui dentro.

Franco Adriano - Biribinha (2) - CAPA
Foto: Franco Adriano Passos, o Biribinha, não esconde a paixão pelo circo

Franco Adriano Passos, o neto do Biriba e sucessor do palhaço desde 1992, admite que viver do circo não é tarefa fácil, mas não se arrepende de nada do que passou. Biribinha, como popularmente é chamado mesmo fora dos palcos, conta que seu avô Geraldo Passos perdeu os pais cedo e por isso foi criado por um dono de circo.

A paixão não demorou a aparecer e, ao mesmo tempo que o circo anunciava partida, Biriba decidia que partiria com o circo. Quando essa mesma companhia decidiu deixar o Sul do Brasil, seu Geraldo percebeu que esse era o momento de criar seu próprio circo, o circo-teatro Biriba, na pequena cidade de Tangará, situada no Meio Oeste catarinense.

A família de Geraldo Passos cresceu e, com ela, a companhia circense e sua popularidade. Por onde o circo-teatro Biriba passava, fazia sucesso, cativando as pessoas com sua ingenuidade e autenticidade. Seu pavilhão de zinco era carregado “nas costas” e Franco Adriano lembra o quão difícil foi aquela época:

– Nós montávamos barracas e ficávamos reféns do tempo, rezando para que não ventasse muito forte para carregar nosso telhado.

O circo-teatro Biriba viveu crises e superou-as, passou pela década de 80, na qual a inflação era de 30, 40 ou até 50% ao mês, mas não desistiu. Viveu também a popularização do videocassete e da antena parabólica que tiraram muitas pessoas do teatro, do circo e do cinema. E hoje, após tantas turbulências, Biribinha afirma que isso só foi possível pelo fato de estarem sempre inovando, sem deixar o público se cansar dos espetáculos.

– O povo quer ver coisas novas, é por isso que nós estamos sempre criando peças teatrais diferentes e buscamos aproximar o público cada vez mais. Muitos circos tradicionais acabam fechando porque eles não investem em inovações.

Colagem Biriba 02 - ESSA
Foto: Dia de espetáculo no Circo-teatro Biriba

Franco Adriano mostra sua ânsia pelo novo e fala de projetos futuros e também dos que já foram conquistados. O palhaço, além das apresentações diárias no circo, gravou CDs, DVDs e hoje tem um programa próprio que ele vende para rádios. Sua intenção é ter, até o fim do ano que vem, o programa no ar em 30 rádios. Para ele, o circo é a sua empresa e seus negócios surtiram efeito. Hoje, o circo-teatro Biriba conta com carretas que comportam suas casas e Biribinha relata que não tem do que reclamar em questão de conforto.

– As dificuldades surgem como em qualquer empreendimento, mas de qualidade de vida, atualmente não posso me queixar.

Desde 2002, o circo-teatro está percorrendo a região do Vale do Itajaí e proximidades. Segundo Franco Adriano, aqui é um lugar bom para ficar, tem praias, pessoas acolhedoras e eles já têm bastante popularidade. Contudo, a mudança de cidade já virou habitual.

– Nosso objetivo é ficar mais duas semanas em Brusque, partir para Rio do Sul, de lá ir direto para o Oeste de Santa Catarina e passar uns quatro anos pela região. Percebemos que o público do Vale está se cansando, então precisamos sair para que eles sintam nossa falta.

Nessa perspectiva, a educação das crianças não sofre tanto quanto em famílias de circos tradicionais. Onde o circo-teatro Biriba estaciona suas carretas, elas permanecem no mínimo dois meses e isso corresponde a um bimestre para as crianças se adaptarem na escola.

– Nos circos menores a troca de local é muito rápida e por isso as crianças são fortemente prejudicadas na vida estudantil.

E falando em filhos, Franco Adriano tem um menino que também se apaixonou pela vida circense e que atua nos espetáculos. Quando perguntado se como pai ele gostaria que seu filho continuasse na carreira, o palhaço diz que por ele o menino ia para universidade, pois agora ele tem condições de bancá-la – coisa que na sua época de criança não era possível. Além do menino, Biribinha tem mais duas sobrinhas que também se mostram interessadas em viver no circo. E afinal, qual criança não se apaixona pelas tendas coloridas, pela alegria contagiante e pela magia e encantamento do circo?

– Se eu não fosse palhaço seria um frustrado com a vida.

Biribinha afirma que seu objetivo é estar na cabeça das pessoas e isso é o que lhe move.

O circo se molda, mas não acaba

A tradição do circo é milenar, mas o passar dos anos fez com que mudanças ocorressem na história do picadeiro. Franco Adriano ressalta o quão importante é ter hoje em dia um planejamento, estudar a praça para onde vão, fazer uma divulgação eficaz e ter paciência com todas as questões burocráticas que envolvem ocupar um local na cidade.

Esse motivo é crucial para circos menores que se deslocam frequentemente e acabam pulando essas etapas. Partindo dessa esfera de mudanças, estudiosos dividem a arte circense em três principais ramificações: a tradicional, constituída por famílias que há várias gerações vivem sob a lona; o novo circo, que é o caso do circo-teatro Biriba, que busca uma versão contemporânea do espetáculo; e por fim os artistas de rua, que mantém a arte circense em sua essência mais simples.

Saiba mais sobre a divisão entre circo tradicional e novo circo:

Em meio aos estudos sobre o circo, manter viva sua tradição é um desafio e anseio para muitos profissionais da área. Olliver Carminatti é um deles. Olliver é dono do circo tradicional que leva seu nome e desenvolveu um projeto que ensina a arte para crianças matriculadas em escolas do ensino público, o Circo na Escola, em Brusque.

O projeto ocorre nas segundas e quartas-feiras, no período da manhã e da tarde para colégios de ensino regular. Nas terças-feiras, é a vez dos alunos da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) participarem. São 1h15min de encontro, uma vez por semana, para cada escola. Os alunos podem estar entre o 5º e o 9º ano, desenvolvendo a atividade no horário do contra turno.

– O projeto nasceu em 2013 de um incentivo da prefeitura e hoje já conta com quase 500 crianças, diz Olliver.

Para ele, o circo na escola é uma forma lúdica de ensiná-los a ter disciplina, coordenação motora e psicológica e acima de tudo formar um cidadão. O professor afirma que por meio das técnicas circenses é possível controlar ansiedade, transtornos de concentração e proporcionar o trabalho em equipe.

A cada seis meses uma nova escola é convidada a participar e, no último semestre do ano passado, a Escola de Ensino Fundamental Paquetá foi uma delas. Rafael Pacheco, uma das crianças, não esconde o entusiasmo de ter entrado no picadeiro:

– O Circo na escola é o máximo! Eu aprendi malabares, teatro, equilíbrio…

Animado, o garoto confessa que adoraria poder fazê-lo novamente. Crianças como Rafael ocupam a mesma tenda e se depender da disposição e dedicação deles, o circo será uma alegria sem data para acabar.

Ensinando a arte circense

Despertar o artista que vive dentro de cada um é o objetivo da oficina Caravanas da Alegria, desenvolvida pelo circo-teatro Biriba. Há 10 anos Janaina Passos, irmã do Biribinha, ministra aulas de técnicas teatrais e circenses. A oficina ensina a lidar com a timidez e integrar moradores do município de uma forma diferente. No período das aulas, os alunos participam de um espetáculo para se familiarizar com o palco. Caso algum deles queira “fugir com o circo”, literalmente, Biribinha o acolhe de braços abertos.

Ensinar e difundir a arte circense é muito mais do que passar técnicas à diante. É, sobretudo, formar pessoas mais ativas e saudáveis, física e psicologicamente. Buscando essa didática, Potyra Najara, artista da Nova Cia. De Teatro, criou o projeto Circo em Família, em Balneário Camboriú. Devido à procura de aulas de circo para crianças, a artista desenvolveu um espaço no qual filho e um companheiro – pai, mãe, padrinhos, avós… – aprendem a arte circense juntos.

No projeto Circo em Família, pais e filhos iniciam no mesmo nível de aprendizagem. Eles se ajudam e incentivam um ao outro. Esta construção do conhecimento artístico e técnico desconstrói a relação cotidiana ditada pela condição familiar. Por vezes é a mãe que auxilia, outras vezes é o filho. Potyra fala que nas aulas ambos torcem um pelo outro e participam dos sucessos e dificuldades de maneira horizontal.

– Mais do que aprender a habilidade, o que importa pra mim com este projeto é a vivência que eles estão tendo e a construção da relação que este momento proporciona. Estamos construindo uma geração diferenciada, uma geração com mais parceria, afeto e sensibilidade.

Circo em família (5)  - ESSA
Foto: Pais e filhos aprendem juntos e se superam a cada dia

A proposta ousada e inovadora ensina técnicas de acrobacia de solo e malabarismo básico, adágio, tecido acrobático, cordas e muito carinho.

– Busco passar por esta vida proporcionando e experimentando o prazer dos encontros e o compartilhar do afeto, e a arte é o melhor caminho, revela a artista.

[…] qual era o seu lugar? O seu lugar era o mundo inteiro conhecido e, principalmente, imaginado. Era sempre o lugar onde houvesse gente que se dispusesse a rir, a aplaudir, a se embevecer com as peripécias do corpo, de um corpo ágil, alegre, cheio de vida porque expressão de liberdade e, sobretudo, resistente as regras e normas. Estes artistas viviam na contramão, fora da ideia de utilidade de ação. O seu mundo era desinteressado. Suas vidas faziam-se mais de trajetos do que de lugares a se chegar e, assim, desterritorizavam a ordem do espaço. Suas apresentações aproveitavam os dias de festa, feiras, mantendo uma tradição de representar e de apresentar-se nos lugares onde houvesse concentração de pessoas do povo […] – Carmen Soares.

 

 

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