Esportes

É um touchdown? Futebol americano ganha espaço sem preconceitos ou distinções

Futebol americano cresce em Santa Catarina em razão da democracia que o esporte proporciona

Com quase dois séculos de história, o futebol americano ganhou notabilidade e alcançou admiradores em todo o planeta. No Brasil, não seria diferente. Desporto continua em ascensão, principalmente por ser democrático e possibilitar o ingresso de atletas de tipos físicos e idades dispares.

Texto e fotos: Andressa Zuffo e Thiago Julio
Edição: Iana Girardi

Quase dois metros de altura, magro, com excelência em pulos. Baixo, entroncado, com força no peito e nos braços. De estatura mediana, corpo definido, apto para corridas em distâncias maiores. Eram inúmeros os tipos físicos e habilidades encontrados em cerca de 80 rapazes durante a segunda seletiva do Itajaí Dockers, time de futebol americano da cidade “peixeira”. E se engana quem pensa que tal realidade é exclusiva ao tryout, espécie de “peneira” de jogadores. O esporte, em ascendência por todo o território nacional, suporta inúmeros biotipos e faixas etárias distintas.

Dividida em dois momentos, a seletiva levou em conta o desenvolvimento físico dos interessados e o conhecimento deles sobre o esporte. Na primeira parte, de maior duração, avaliaram-se questões como impacto, impulsão, corrida por um percurso de 40 jardas (o que equivale a 36,5 metros), força nos braços, passe e lançamento de bola. E, após uma semana de espera, com parecer de uma comissão técnica, sem quaisquer distinções, 43 rapazes foram aprovados para o time principal e nove para o de base, que contempla crianças e adolescentes.

— Temos, atualmente, um atleta de 42 anos, center da linha ofensiva, excelente no snap, que é o ato de jogar a bola de baixo pra cima em direção ao quarterback. E também rapaz de 16 anos que é mais forte que muito cara de academia — aponta Benjamim Lexuga, um dos fundadores do Itajaí Dockers, quanto a diferença de idades de alguns dos jogadores do time.

Criado nos Estados Unidos, em 1867, o futebol americano é jogado com as mãos, com uma bola oval, no qual o contato entre os atletas é constante. Cada time contém 11 integrantes, divididos em ataque, defesa e especialistas. O jogo, por sua vez, consiste em quatro tentativas da parte ofensiva de chegar à endzone e realizar o touchdown. Se comparado ao futebol brasileiro, seria como um jogador passar por meias e zagueiros, percorrer o campo até a linha de fundo e fazer o gol.

— É complicado entender no início, mas, em resumo, o ataque avança e a defesa protege o avanço do ataque. Num jogo, o ataque tem quatro tentativas de 10 jardas. Eles vão correr por dez jardas e, se conseguirem, vão ter mais quatro tentativas até o touchdown — pontua.

Para estruturar a equipe, são necessários atletas que preencham 15 posições defensivas e ofensivas. Na parte de defesa, os cornerbacks, normalmente baixos, precisam ter força, grande movimentação lateral, e um disparo rápido. Isso porque, principalmente nas primeiras cinco jardas, acontece o impacto direto com o wide receiver adversário. Os free safety e strong safety protegem o fundo e, assim, necessitam ser fortes e ágeis. Tais características também se encaixam ao middle linebacker, responsável por derrubar o quarterback do outro time.

No ataque, o tight end assume papel híbrido. Ele faz rota, bloqueia, protege, corre e, por isso, precisa ser alto e extremamente forte. Os fullbacks, normalmente de corpo mais troncudo, carregam a bola e ajudam a proteger na hora do passe. Já o running back, jogador que mais vai correr e se cansar numa partida, precisa ser baixo e com tronco mais corpulento. Linhas ofensivos e defensivos precisam de boa movimentação e resistência. Um rapaz pesado, com cerca de 130 kg, e alto se encaixa facilmente na posição.

Ainda na parte ofensiva, o quarterback, jogador imortalizado pela televisão e pelo cinema, precisa ser resistente, forte, alto, além de ter boa visão de jogo e inteligência.

— O papel do quarterback ficou marcado pela importância dele no jogo. Ele precisa ser visto como capitão, a referência. Então, por causa do potencial dos quarterbacks norte-americanos, por ele ser o maior pontuador, entre outras coisas, essa figura ficou muito conhecida. No futebol americano toda a jogada é dele, a decisão é dele — comenta Lexuga.

Times como o Itajaí Dockers crescem em todo território estadual

Com pouco mais de um ano de história efetivamente, o Itajaí Dockers surgiu em meados de março de 2014, após a divisão dos Lobos do Bar, de Balneário Camboriú. Divisão essa que também originou o Camboriú Broqueiros. Sem auxílio da Fundação Municipal de Esportes e Lazer (FMEL), apenas com a concessão formal para o local de treino, o time se sustenta com uma mensalidade “simbólica” no valor de R$ 30,00, destinada à compra de materiais, e permuta com empresas dos próprios atletas.

Os treinos, realizados três vezes por semana, na pista de atletismo do município, são divididos em desenvolvimento físico e técnico, análise de jogada e movimentação. As terça e quintas-feiras, das 20h às 23h30min, voltado ao preparo dos atletas e aos domingos, das 8h às 11h30min, no jogo em si. Rotina essa cada vez mais presente em outras cidades de Santa Catarina. O esporte cresceu tanto no estado que, no último ano, oito catarinenses vestiram a camisa brasileira no Campeonato Mundial de futebol americano. Jogadores do Timbó Rex, do Jaraguá Breakers e do São José Istepôs representaram o país em Ohio, nos Estados Unidos, após se classificarem em eliminatórias no Panamá. Sem auxílio financeiro, tendo que custear ambas as viagens, os atletas ainda precisaram divulgar uma “vaquinha” na internet para galgarem 120 mil reais, direcionado à inscrição do Brasil Onças no evento. O time, entretanto, foi eliminado pela Austrália e se classificou na sétima e última colocação.

E, apesar da não tão boa colocação no mundial, os catarinenses têm outro motivo pra se orgulhar. Em dezembro do último ano, no estádio do Marcílio Dias, em Itajaí, o Timbó Rex venceu o Vasco da Gama Patriotas por 28 a 9 e garantiu o título de campeão brasileiro. Com a vitória, inclusive, a Confederação Brasileira de Futebol Americano (CBFA) unificou o Torneio Touchdown ao campeonato brasileiro, num, como definem alguns amantes do desporto, “supercampeonato”.

Democracia é o que move

“Correndo em união o futebol americano só avança. Ninguém joga esse jogo sozinho”. Se existisse um lema para o esporte, seria esse. A primeira imagem que vem a cabeça da população, ao se falar em futebol no Brasil, é do jogador Neymar. No vôlei, Giba é o “mestre”. Na natação, Cesar Cielo é referência. O que não acontece no futebol americano. Não há como ter uma única estrela, a pontuação só acontece com a boa atuação de todos. Não é possível atravessar um campo inteiro sozinho, sair driblando, atacar a linha defensiva e pontuar. Todos jogam juntos e só assim é possível conquistar o touchdown. Se todos trabalharem juntos o jogo está ganho.

Sem informação e estratégia não há pontuação

Para pontuar, basicamente, é necessário conquistar território. Como em uma partida de xadrez, na qual os peões galgam espaço do tabuleiro até chegar ao rei, conquista-se o espaço por meio dos ataques e ao traçar estratégias.

No futebol americano, os ataques são divididos em aéreos (lançamentos, passes e recepção) e terrestres (corridas), que juntos conquistam as jardas, até atingir o pólo do território inimigo, endzone para marcar o touchdown e pontuar. No caso da defesa, o objetivo é simples: cuidar de seu território e não deixar o adversário avançar.

Apesar de todo o contato físico envolvido, o jogo é muito mais estratégico do que corpóreo. Um time que não possui ou não segue as estratégias acaba perdendo, por mais fortes e preparados que sejam os atletas.

Futebol americano é coisa da terra do Tio Sam, rúgbi é da Rainha

O futebol americano, assim como outros aspectos culturais estadunidenses, tem influências inglesas. O esporte tem similaridades com o rúgbi, criado em 1845. Entretanto, apesar das constantes confusões, existem diferenças pontuais entre eles. Nascido do inglês, o americano se formou independente e possui particularidades. São como dois primos que cresceram juntos, sempre próximos, mas que, ao passar dos anos, seguiram caminhos diferentes: um pra vida acadêmica e outro para a patriarcal.

Dentre os exemplos que provam isso estão os passe e a bola em sim. No rúgbi, todos os jogadores podem passar a bola pra frente. No futebol americano não. Existe sempre um jogador que realiza esse passe. Já no caso do objeto, no esporte inglês ele é maior, mais leve e feito com tecido diferenciado, mais emborrachado.

2 comentários

  1. Parabéns, muito bem escrito. Captou bem o que é o esporte e qual a realidade no momento do esporte no estado e Brasil afora.

  2. Uma correção no artigo, No Rugby com Y não I, a bola só pode ser passada com as mão para trás nunca para frente. Para a frente somente é permitido o chute. A lenda da origem do Rugby se dá por volta de 1823 na cidade de Rugby na Inglaterra. Já o Futebol Americano se da por volta de 1867 como variação do Rugby Football (atual Rugby). O Rugby inicialmente foi praticado em todos as colonias inglesas.

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