Cidades

Cães que salvam vidas: o trabalho dos cães-guia, de resgate e farejadores

Conheça o trabalho dos cães que se empenham para garantir a segurança ao guiar, resgatar, farejar e proteger as pessoas, com muita dedicação e fidelidade.

Conheça o trabalho dos cães que se empenham para garantir a segurança ao guiar, resgatar, farejar e proteger as pessoas, com muita dedicação e fidelidade.

Texto: Juliana Nascimento e Luzara Pinho
Edição: Mariana Campos
Fotos e vídeos: Juliana Nascimento, Karem Resende, Luzara Pinho, Mariana Campos e Matheus Berkenbrock.

O amor de Orfeu

O ditado “o cachorro é o melhor amigo do homem” por si só faz todo sentido e a frase popular ganha ainda mais ênfase com os cães que nascem e vivem com a missão especial de salvar vidas e garantir o sentimento de segurança. Pelos seus sentidos aguçados e serem famosos pelo laço de lealdade e confiança com seu responsável, é cada vez mais comum observar a presença desses animais em instituições para complementar e contribuir nas atividades diárias, além de fazer a alegria dos profissionais.

E alegria é a palavra que mais define o sentimento de Karem Resende quando o Labrador Orfeu apareceu na sua vida. Em 2009, Karem perdeu boa parte da visão em um acidente de carro e teve que recomeçar sua vida, rotina e adaptar seus hábitos. Foi aí que a professora aposentada conheceu o trabalho desenvolvido pelo Instituto Federal de Camboriú (IFC) com cães-guia. Após uma série de procedimentos, Orfeu, que completa três anos de vida em 2016, passou a ser o fiel escudeiro e auxiliar de Karem em suas funções diárias.

Além de auxiliar, o cão é um grande companheiro que está presente 24 horas por dia. Em casa,  em Blumenau, Orfeu observa atentamente a dona na produção de origamis, um dos hobbies preferidos da professora. Durante toda a semana, quem cuida do amigo de quatro patas é a própria Karem, dando a comida preferida, banhos e enchendo o cãozinho de mimos, carinho e agrados.

Para receber o cão, foi preciso realizar alguns passos. Karem se inscreveu para o edital do IFC para formação de duplas de cães guias e usuário. A partir desse cadastro, os treinadores e equipe técnica avaliam a probabilidade de compatibilidade entre o cão e o futuro dono. A partir daí é realizada uma série de treinamentos com usuário e cão-guia durante a fase de adaptação.

“O primordial é o deficiente saber se localizar para poder dar os comandos para o cão. Aí vem a visita do psicólogo e assistente social, que dão o OK para a permanência do cachorro. O futuro usuário passa três semanas ininterruptas em um alojamento do Centro de Treinamento de Cães-Guia em Camboriú e então conhece seu cão-guia. As primeiras 72 horas são primordiais para criar o laço afetivo com seu animal”, explica Karem sobre seu processo de seleção e adaptação. 

Se habituar ao novo membro foi o passo mais fácil e, além disso, aprimorou a autoconfiança e segurança dela. Atravessar a rua, procurar portas, subir e descer escadas são algumas das atividades nas quais Orfeu auxilia sua dona. “Com a ajuda do dele, pude voltar a caminhar 80% como antes de perder a visão. Não me preocupo mais com obstáculos aéreos e atravessar a rua tem sido muito mais seguro. Hoje ganhei mais autonomia e independência”.

Há quatro meses o Labrador faz parte da história dela. Nesse tempo, o carinho com o animal aumenta cada dia mais na vida da professora. Orfeu não é um cão de trabalho, mas sim um integrante da família.

O Orfeu é um recomeço. Ele é um novo remédio para mim. Não consigo imaginar minha vida sem ele e sem meu filho, por exemplo. Os dois tem a mesma proporção na minha vida. Ele não é meu cão de trabalho, meu guia, mas sim, minha vida”. – Karem Resende, dona do cão-guia Orfeu.

Orfeu é um cão tão amado que até mesmo ganhou uma música em sua homenagem, composta pelo marido de Karem. Confira o vídeo abaixo:

Ice: o cão de resgate reconhecido mundialmente

Em novembro de 2015, a tragédia que atingiu a cidade de Mariana, em Minas Gerais, comoveu e chocou o país inteiro. O rompimento de barragens da mineiradora Samarco espalhou lama, destruição, ceifou vidas e prejudicou a vida e rotina dos moradores da região. Após o maior desastre ambiental do Brasil, era hora de recomeçar. Instituições de todo país se mobilizaram para prestar apoio, recolher donativos e forças de segurança para auxiliar no resgate de desaparecidos. Muitas pessoas e profissionais foram verdadeiros heróis e ajudaram a recuperar a esperança diante do cenário de desastre. Ice, junto a profissionais do 7º Batalhão de Bombeiros Militar (BBM), foi um desses heróis.

Em meio aos escombros, o Labrador Ice enterrava lama até metade do corpo em busca do paradeiro de pessoas e, quem sabe, salvar vidas soterradas. Direcionado pelo seu treinador, Sargento do 7º BBM, Evandro Amorim, o cão de resgate com seu faro aguçado e experiência em diversas ocorrências, esteve apto a cumprir sua missão de busca em extensões que o trabalho humano não alcançaria. O sol forte e o terreno impróprio não foram empecílios para Ice realizar seu trabalho.

As buscas em Mariana não foi desafio tão árduo para o cão, que já foi apresentado a diversos tipos de situação em seus treinamentos. Hoje, com seis anos de idade, Ice faz parte e é treinado pela Equipe de Busca, Resgate e Salvamento com Cães do 7º BBM, em Itajaí. Além do Sargento Amorim, a equipe conta com o trabalho de figurante do cabo do 7º BBM, Sidnei William, que auxilia no aprendizado do cão na procura de pessoas, e também o cabo Rodrigo Schilikmann, da corporação de Navegantes.

Confira abaixo os vídeos do treinamento do Ice:

De acordo com Amorim, a atividade no 7º BBM é recente. No ano de 2009, a equipe participou de um curso de Cinotecnia em Xanxerê, cidade referência em treinamento com cães. Foi aí que Ice apareceu para os bombeiros. Filho do cruzamento da cadela Água e do cão Xanxerê, o cãozinho nasceu no dia 9 de setembro do ano de 2009. “Ele é um cão precoce. Geralmente os cães começam a ser treinados com, no mínimo um ano e meio de idade, e Ice com um ano e cinco meses já era um cão preparado”, frisa o sargento.

Em maio de 2011, o cão fez o primeiro teste em Itajaí e obteve a melhor pontuação na prova de busca rural na América do Sul. Desde que começou a atuar, Ice já participou de diversas ocorrências, entre buscas rurais – pessoas que se perdem em trilhas ou podem ser localizadas em matas –, busca subaquática, atendimentos em desabamentos de edificações e desmoronamentos em morros, prestação de apoio a Polícias Civil, entre outras atividades exercidas pelos cães de resgate.  Hoje, Ice é reconhecido em todo o Estado e já possui oito certificações mundiais.

Para Ice, todo o treinamento é uma brincadeira e um eterno momento de lazer. “O trabalho do cão é recompensado pelo figurante com presente, agrado, comida. Ice é um cachorro que gosta muito de carinho e de toque”, ressalta Amorim. E assim é a rotina do cão guia, intercalando com os treinamentos e com as operações diárias, sempre existe espaço para os mimos dos parceiros de trabalho.

O carinho e cuidado são peças chave para o bom rendimento do cão. E para isso, Ice recebe acompanhamento veterinário 24 horas. Em todas as operações, seu condutor está equipado com remédios para prestar total amparo. A veterinária Andreza Amorim Moraes tirou algumas dúvidas a respeito da saúde desses cães. Confira a entrevista completa Confira a entrevista completa.

Hoje, o trabalho do cão é crucial da corporação. Amorim explica que, o cão consegue trabalhar muito durante a noite e andar em matas nesse período é muito mais difícil para os bombeiros. Para o cão, não tem esse problema. “Muitas vezes continuar a busca a noite é o que faz a diferença entre vida e morte de uma vítima perdida ou desaparecida. Além disso, o cão não erra. Não existe a possibilidade de fazer uma busca com o cão e não encontrar. Se ele não encontrou, é porque a pessoa não está lá”.

O cão convive com seu condutor o tempo inteiro. E é o que relata o sargento Amorim ao dizer que Ice faz parte da família. “Os cães de resgate não ficam em canis e, além disso, convivem sempre com o homem. Conhecemos o nosso cão, o jeito dele por completo. Ice está sempre comigo, quando estou de serviço ou quando estou em casa. Minha filha de cinco anos brinca de médica veterinária com ele, e Ice já espera para ser consultado”.

Os cães que garantem a segurança

A Companhia Especializada do 1º Batalhão da Policia Militar de Itajaí também trabalha com cães. Dessa vez, os cães possuem uma tarefa mais ostensiva e rigorosa.

Atualmente a subdivisão do Batalhão, intitulada K9 (responsáveis pelos animais), é supervisionada pelos Cabos Vagner Luis de Melo, Alexandro Jaime Mendes, Nivaldo Machado (aposentado) e pelo Soldado Iuri Maiate. Eles são responsáveis pelos seis cães que o Batalhão possui: três Belgas de Malinois chamados Thor, Lobo e Max; uma Labradora chamada Laica; um Pastor Alemão, o Dexter; e um Rottweiler, o Barão. São eles que treinam os cães, comandam os animais durante o serviço policial, levam para passear e ainda realizam a manutenção do canil.

O canil foi reativado em março de 2006 e nesse ano completou 10 anos de atuação. Durante todos esses anos foram muitas histórias de sucesso. Cabo Vagner explica que os cães que a companhia possui são doados. E para que eles possam ser selecionados, alguns testes, como de coragem e eficiência, são realizados.

“Os cães só podem começar a serem treinados a partir de um ano de idade, quando as células olfativas já estão devidamente formadas. E eles passam um ano de treinamento até que estejam aptos a saírem para as ruas. A partir daí, quanto mais experientes, mais precisos eles ficam”, explica.

O trabalho policial dos cães dentro da companhia é baseado no farejamento de drogas e de foragidos. Eles caçam os entorpecentes em lugares não expostos e inusitados. Atualmente o trabalho ostensivo de policiamento com cães acontece em festas municipais, passeatas, rebeliões e manifestações.

Para que o trabalho dos cães seja realizado com sucesso é necessário devido treinamento. O vídeo abaixo mostra uma sessão:

Cabo Mendes conta que esse treinamento é realizado na base da brincadeira. “Buscamos treiná-los de maneira séria, afinal temos um compromisso com a sociedade. Mas para os cachorros é como se tudo fosse uma brincadeira. Primeiro os instigamos com um tubo limpo, sem os entorpecentes. Após isso, escondemos o tubo com as drogas sem com que eles vejam e soltamos o cão para que ele possa farejar. Na cabeça dele, ele está a procura do brinquedo e não de drogas”, explica.

Quando o cão fareja e acha o tubo com as drogas, ele é saudado e parabenizado para saber que fez um bom trabalho. Este trabalho de treinamento acontece todos os dias durante quatro horas.

Assim como os profissionais do Corpo de Bombeiros, os profissionais da PM também precisam fazer o curso de Cinotecnia para o treinamento desses animais.

Cabo Vagner ressalta que a agressividade dos cachorros é controlada e eles só atacam sob o comando. “Evitamos deixar com que estranhos se aproximem dos cães. Isso pode confundi-los. Mas eles não são cachorros agressivos, são apenas treinados”.

Nosso trabalho aqui como cuidadores e treinadores desses cães é totalmente baseado no amor. Nem todas as raças que temos hoje são adequadas para este tipo de trabalho, mas nós damos o nosso melhor e a gente se vira como pode”. – Cabo Vagner Luis de Melo, da Polícia Militar de Itajaí.

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