Opinião

Só mais uma história

Texto: Lucas Rosa Gabriel
Foto: Divulgação/Narcóticos Anônimos

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O meu relógio marcava mais de cinco horas, e eu pensava que estávamos atrasados, mas enquanto a minha colega de trabalho ligava pro nosso anfitrião, ele acenava em frente a um portão no fim da rua. O homem magro, de estatura mediana estava vestido dos pés a cabeça com variações de preto, um típico tiozinho do rock. Mesmo assim, apesar do visual fúnebre fomos recebidos com abraços e um largo sorriso.

Ele nos convidou para entrar, e ofereceu um pouco de café. Como ele disse ser fã dos Ramones, vou chamá-lo de Ramon. Estávamos na varanda de uma casa em Itajaí. Nesse local, as cadeiras de plástico formavam um círculo a partir de uma pequena mesa. Cada membro que chegava era recepcionado da mesma forma afetuosa. Quando todas as pessoas se sentaram preenchendo assim a grande roda, começava mais uma reunião dos Narcóticos Anônimos.

De acordo com o próprio site do grupo, o Narcóticos Anônimos ou simplesmente N.A. é uma Irmandade ou Sociedade sem fins lucrativos, de homens e mulheres para quem as drogas se tornaram um problema.
Nesse dia, a mestre de cerimônias era uma senhora pequena e muito simpática, o tipo de pessoa que lembra nossas tias mais velhas, vou chamá-la de Ann em homenagem a vocalista do Heart. Não sei dizer se nesse grupo é sempre ela quem conduz as reuniões, mas isso não importa no momento. Para começar ela pediu que todos se apresentassem, e em seguida, nos levantamos e demos as mãos para fazer a oração do grupo.

É importante reforçar que qualquer pessoa pode fazer parte dos Narcóticos Anônimos, independente da idade, situação financeira, raça, condição sexual, crença, religião ou até mesmo falta de religião. Nessa hora cabe a cada um dos integrantes buscarem conforto na sua própria fé.

Enquanto eu acompanhava em silêncio os dizeres de esperança que eram pronunciados em coro pelos membros mais antigos, minha amiga repetia com eles como se aquelas palavras de conforto fossem velhas conhecidas dela.

Depois da oração os integrantes relembraram alguns dos princípios do grupo. Entre eles estão os doze passos e as doze tradições, que de uma forma resumida falam sobre: admitir a impotência perante adicção, acreditar que um poder maior pode devolver a sanidade, fazer um inventário moral de si mesmo, admitir as próprias falhas, buscar reparar as falhas e procurar levar essa mensagem a outros adictos.

A noite começava a cair, e junto com ela veio os depoimentos. John, que nesse dia estava acompanhado por Yoko sua futura esposa, comentou sobre a felicidade de estar a mais de 3 anos limpo. “Às vezes nos churrascos do trabalho quando nego um cigarro ou uma bebida as pessoas acham estranho. Não deveria ser assim, afinal essas coisas fazem mal. Eu tenho que agradecer o apoio dos meus amigos do N.A., e principalmente a minha noiva, aliás, quero ver todos vocês no casamento, porque sem vocês eu não estaria limpo por tanto tempo”.

Depois foi a vez de Amy, esse nome por sua vez em homenagem a líder do Evanescence. Nos cinco minutos que cada membro tem para falar, ela disse que o vício tirou muitos momentos importantes da sua vida. Um deles foi quando o seu filho chegou em casa falando que tinha acertado setecentos pontos no ENEM, e ela estava tão alterada que não se importou: “Pra ser sincera eu não sabia nem se essa nota era boa ou ruim”.

Nesse momento eu pegava mais um copo de café com o nosso anfitrião. Ele que acabou confundindo os nomes e passou a brincar me chamando de Mateus, mas como o objetivo é anonimato mesmo levei o novo apelido numa boa, pra falar a verdade até gostei. Enquanto isso do meu lado, a minha amiga limpava seu rosto, e parecia se esforçar para não ser vista chorando.

É claro que eu sabia que a família dela também sofreu com o álcool, mas, mesmo assim, confesso que fiquei preocupado. Trabalhamos juntos há alguns meses, mas foi a primeira vez que vejo o seu sorriso sincero, que tanto alegra meus dias ser substituído por lágrimas.

No meio da reunião mais membros dos Narcóticos chegaram atrasados, mas como não lembro de todos eles direito, vou carinhosamente apelidá-los de Guns N’ Roses, assim eles também estarão presentes em minha história.

Brincadeiras a parte, estava na hora do Ramon dar seu depoimento. Ele começou falando que nesse dia completava oito anos, oito meses e oito dias que estava limpo. Também contou um pouco da sua passagem na Cracolândia em São Paulo. “O lugar parecia uma terra de zumbis, nessa época eu brigava, roubava, e fazia coisas piores que isso. Hoje eu luto para ser cada vez uma pessoa melhor, e ouvir meu filho dizer que me ama é, sem dúvida, melhor que qualquer droga”.

Enquanto o Ramon falava, uma corrente de ar fez voar os panfletos de cima da mesa, como se o vento quisesse purificar o local, ou até mesmo levar para mais pessoas os ensinamentos dos Narcóticos Anônimos.

Era a vez de mais uma das mulheres do grupo contar sua história. Para ela vou dar o nome de Donna, em referência a clássica banda de garotas. Ela relatou o seu problema com relacionamentos. “Eu tenho dificuldade em ficar sozinha. Mal termino uma relação e tento começar outra. Sei que isso é ruim pra mim e pras outras pessoas também. Queria ser uma mulher mais forte, e menos insegura”.

Nesse momento faltava apenas mais um membro. Ele era o mais irrequieto da turma, passou praticamente a reunião inteira espantando os mosquitos e se banhando com repelente. Como o N.A. é um espaço que permite sem julgamentos a livre expressão dos sentimentos de seus integrantes, também aceita o silêncio de quem assim deseja. Como esse homem preferiu se expressar sem palavras, vou chamá-lo de Santana, em homenagem ao guitarrista mexicano.

Para encerrar Ann leu a ata da reunião, e mais uma vez fizemos a oração. Em meio ao clima de amizade, amor e respeito ao próximo promovido nos narcóticos pude repensar a minha vida. Todos nós temos problemas, uns maiores e outros menores, mas nada vai melhorar se nos entregarmos aos nossos medos, vícios, tristezas e inseguranças. Cada uma das pessoas que estavam nessa reunião tinham suas dificuldades, mas todos, inclusive os que não mencionei aqui, contaram suas histórias sempre felizes, e rindo dos seus próprios defeitos. Eles são homens e mulheres que tem como objetivo se ajudarem a passar mais um dia limpos, só por hoje.

Todas as pessoas mencionadas nesse texto tiveram seus nomes substituídos por astros do Rock como uma forma de homenagem, e para preservar suas identidades. Nesse caso o nome não tem tanta importância quanto as suas histórias. E pensando um pouco, cada um deles poderia muito bem ser eu, ou até mesmo você.

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