Economia

Empreendedores encontram alternativa em meio à crise

FAMÍLIAS DESCOBREM NA GASTRONOMIA FUNCIONAL UMA FORMA DE COMPLEMENTAR A RENDA

Texto: André Schlindwein e Juliana Costa Masera
Fotos: Juliana Costa Masera e Arquivo Pessoal
Edição: Bárbara Porto

Feira Orgânica (5)
A feira de orgânicos em Brusque acontece semanalmente, no salão da Igreja Matriz

O sol fraco e a brisa fresca envolvem a manhã. Se para muitos oito horas é cedo, para o seu Antônio Gilmar Cognaco já é quase hora de fechar a feira e pegar estrada novamente. Seu Antônio vem do interior de Santa Catarina – município de Leoberto Leal – toda quarta-feira para promover a Feira Orgânica no salão da Igreja Matriz de Brusque. Sua filha e o genro, que atualmente moram na cidade, o ajudam nessa tarefa.

O cultivo de orgânicos foi a opção que o agricultor encontrou para mudar o segmento da sua plantação. Em Leoberto Leal, mais de 55 mil famílias vivem da cultura do fumo e da produção do tabaco. Na família Cognaco não era diferente. O trabalho pesado e sem folgas, as noites em claro e problemas de saúde foram cruciais para seu Antônio decidir mudar de rumo. No início foi difícil, o ganho não cobria os gastos e a família chegou a pensar em desistir, mas seu Antônio persistiu. Hoje ele afirma que além do lucro, atualmente maior do que quando cultivava fumo (de 20 a 30% a mais), a qualidade de vida mudou completamente.

É ele quem cultiva todos os alimentos que estão dispostos sobre as mesas de madeira, entretanto, por serem orgânicos, muitas vezes é necessário pegá-los com agricultores de outras regiões.

– Os alimentos dos mercados recebem produtos químicos e processos que permitem que eles cresçam durante todo o ano, mas os orgânicos crescem de forma natural e com insumos ecológicos. Já ouviu falar em safra? São as épocas de colheita, comenta seu Antônio.

Feira Orgânica (7)
Seu Antônio é produtor de orgânicos certificado há seis anos, antes produzia fumo

Os alimentos e bebidas provenientes da agricultura orgânica são cada vez mais comuns nos mercados brasileiros. O país encontra-se entre os maiores produtores de orgânicos do mundo e, segundo o Ministério da Agricultura, entre janeiro de 2014 e janeiro de 2015, a quantidade de agricultores que optaram pela produção orgânica passou de 6.719 para 10.194, um aumento de cerca de 51,7%. A região onde há mais produtores orgânicos é o Nordeste, com pouco mais de 4 mil, seguido do Sul (2.865).

Veja no mapa abaixo a relação de produtores/entidades agroecológicos de Santa Catarina por mesorregião e as cidades que se destacam, segundo dados da EPAGRI (Empresa Pesquisa Agropecuária Extensão Rural de Santa Catarina):

 

A especialista em Economia e Gestão de Estratégias Empresariais Janypher M. Inácio, enfatiza que a região Sul é caracterizada por ter o perfil de pequenos e médios produtores. Desta forma a produção não é focada na larga escala, mas sim na qualidade dos produtos. Para ela, efetivar esse setor na economia e no mercado também envolve questões governamentais:

– De maneira geral, não é comum vermos informações específicas sobre os orgânicos dentro dos dados da agricultura, porém uma maneira de ampliar o crescimento deste segmento é incluir esta modalidade como uma forma de política pública: aumentar a fiscalização, dar incentivo, criar momentos de encontro entre o pequeno produtor e o cliente, dentre outras.

E seu Antônio concorda:

– As principais dificuldades no cultivo de orgânicos não é clima, insetos ou estação, é a falta de apoio e incentivo municipal e governamental. É preciso divulgar esse trabalho das agriculturas familiares, pois os jovens não querem mais trabalhar na lavoura e acham que “pegar na enxada” é retroceder no tempo, diz, referindo-se também à falta de mão de obra. E o trabalho não é pouco! No total, seu Antônio possui 60 hectares de área certificada. No ramo dos orgânicos, há seis anos ele é agricultor certificado e há quatro realiza a feira para o povo brusquense.

– Tenho clientes fiéis que estão comigo desde o início. Mulheres que eu vi grávida e que agora trazem os bebês junto para a feira. É gratificante.

Veja a legislação para o registro do produtor no Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

Colagem
Propriedade de seu Antônio no município de Leoberto Leal, a 115Km de Brusque

Gastronomia funcional e mercado

Por ser um setor essencial para a sobrevivência, a indústria de alimentos é um dos principais mercados que sustentam a economia do Brasil e do mundo. É também, um dos setores menos prejudicados pelo mau momento econômico que o país vem enfrentando.

Segundo dados da ABIA – Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação, a produção de alimentos é responsável por quase 15% do faturamento do setor industrial brasileiro e emprega mais de 1 milhão de pessoas. O bom desempenho da indústria alimentícia fomentou o aparecimento de um novo mercado que vem ganhando o gosto da população: o mercado de alimentos funcionais. O Ministério do Meio Ambiente afirma que enquanto as vendas de alimentos e bebidas tradicionais cresceram 67% nos últimos cinco anos no país, as de alimentos saudáveis aumentaram 98% no mesmo período, revelando-se um forte ramo para pesquisas e oportunidades comerciais.

Regiane Berthoti faz parte desse grupo do mercado que em meio à crise econômica encontrou o seu lugar. Contadora, advogada e pós-graduada em Direito Processual Civil, há pouco menos de quatro meses Regiane descobriu uma nova fonte de renda e ao mesmo tempo um hobbie. Buscando perder peso e ter mais qualidade de vida, a empresária procurou ajuda com uma nutricionista funcional. Foi dela que recebeu dicas de receitas para incorporar no dia-a-dia. Uma das receitas, o brownie, fez sucesso tão grande entre a família que ela resolveu divulgá-lo nas redes sociais aceitando encomendas. Se foi uma grande mazela do destino ou pura sorte Regiane não sabe, mas o Brownie do Bem, como agora é chamado, caiu no gosto das pessoas e brotaram encomendas de todos os lados.

Regiane Brownie do Bem (6)
“Food Bike” de Regiane, usada em dias de eventos para venda e divulgação de seus produtos

Tudo começou por acaso e a popularidade dos Brownies do Bem foi praticamente instantânea. A empresária conta que fez um curso de culinária funcional em dezembro do ano passado e outros nesse ano nos quais aprendeu mais receitas. Atualmente ela está aceitando encomendas de quatro produtos: Brownies, cookies funcionais, pão de queijo “fake” (sem queijo) e hambúrguer de fibra com berinjela. Todos os produtos são 100% orgânicos.

Para conciliar o emprego com o empreendimento, ela dedica um dia na semana para fazer as encomendas. Em média, a empresária produz 30 unidades de brownies por semana e cobra R$ 12 cada. O lucro mensal relativo aos brownies é de R$ 616,40. Regiane possui em torno de 100 clientes fixos e dois grandes clientes, que fazem encomendas em maior quantidade. Além das encomendas semanais, a empresária, que adora inovar, adaptou uma bicicleta comum para uma Food Bike.

– Sempre gostei de pedalar e como um Food Truck não está dentro do meu orçamento, meu marido ajudou a montar uma Food Bike.

A bicicleta super equipada e charmosa, por enquanto, funciona somente em eventos esportivos na região. Para Regiane, o sucesso do seu empreendimento, mesmo agora no início, depende disso: inovar sempre.

– Acho que esse mercado da gastronomia funcional só tem a crescer. As pessoas estão se conscientizando de que precisam levar uma vida mais saudável. Cabe à nós trazer sempre novidades para surpreender os clientes.

Confira as despesas e lucro de Regiane com o produto que ela mais vende, os Brownies do Bem:

Gastronomia funcional veio para ficar?

Foi-se o tempo em que a correria do dia a dia era motivo para “sair da dieta” e render-se a opções mais práticas, rápidas e nada saudáveis de refeições. O crescimento e surgimento de empresas que fornecem uma alimentação balanceada para o dia a dia só tem aumentado e isso é resultado da mudança de paradigmas do que é bom e não é para nossa saúde.

– Cada vez mais as pessoas estão interessadas e buscando uma vida saudável. Não apenas focando no emagrecimento, mas sim na busca por um organismo nutrido e equilibrado por meio da alimentação, afirma a nutricionista Ana Beatrice Knop. Segundo ela, na situação que vivemos hoje é quase impossível ser “natureba” o tempo todo. Isso explica o acelerado crescimento de novas empresas no ramo da gastronomia funcional.
box organicos
Atualmente há alternativas de café da manhã, almoço, janta e lanches funcionais por encomenda. Esse é o caso da Naturalfit Dietas Delivery, do município de Brusque, uma empresa especializada em dietas personalizadas e reeducação alimentar. Além de cardápio específico para o cliente, é feito acompanhamento com nutricionista toda semana. O programa alimentar é composto por seis refeições prontas para consumo, economizando tempo e contribuindo para emagrecimento, nutrição ou desintoxicação, conforme o objetivo do cliente.

Sabrina Hoffelder é nutricionista há seis anos e há dois criou a Naturalfit. A ideia de abrir o seu negócio partiu de uma necessidade que ela observou no mercado.

– Além do emagrecimento e da restrição à determinados alimentos, percebi que muitas pessoas buscam praticidade para o dia a dia. Por isso a minha empresa entrega todas as refeições diárias e a pessoa só tem o trabalho de esquentá-las.

Hoje Sabrina concilia o trabalho em uma cozinha industrial com o seu empreendimento, que para ela, faz uma diferença de 50% no fim do mês. – Já nem considero mais uma renda extra e sim, uma renda fixa. – Diz.

Sabrina Naturalfit (1)
Sabrina é proprietária da empresa inovadora no ramo dos alimentos funcionais em Brusque

Como Sabrina, a nutricionista Ana Beatrice acredita que a gastronomia funcional não é moda, mas sim uma mudança de hábitos, e ela vê isso nos seus próprios clientes.

– Todos eles estão aderindo à dietas funcionais, mesmo porque sempre digo que não precisamos ser 100% radicais, seguir uma dieta específica ou retirar algum alimento da rotina, basta balancear as refeições e comer de tudo um pouco. Por isso trabalho com reeducação alimentar.

Renda extra

Empresas falindo, desemprego e instabilidade econômica marcaram o ano de 2015. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) pontuaram que o desemprego no país alcançou 8,9% no terceiro trimestre de 2015, sendo a maior taxa da série iniciada em 2012. A economista Janypher M. Inácio, afirma que nesses momentos uma forma alternativa de renda se faz necessária para reduzir os riscos de não ter de onde buscar recursos financeiros.

– Atualmente existem várias formas que podem ser conciliadas a trabalhos regulares. O que as pessoas devem ter em mente é que quanto mais trabalho, menor tende a ser a qualidade de vida e familiar, porém sem dinheiro é praticamente impossível viver. O meu conselho é buscar o equilíbrio.

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