Opinião

Anjo entre nós

UMA ESCOLHA DE AMOR AO PRÓXIMO
Uma escolha de amor ao próximo
Texto: Bárbara Porto Marcelino
Fotos: Bárbara Porto Marcelino

A vida é sempre a nossa vida, aos 12 anos, aos 30 anos, aos 70. Dela podemos fazer alguma coisa mesmo quando nos dizem que não. Dentro dos limites, do possível, do sensato (até alguma vez do insensato), podemos. Só seremos nada se acharmos que merecemos menos de tudo que ainda é possível obter.
(Lya Luft, Perdas e Ganhos – 2006)

Escolha.

Na pia não tem louça para ser lavada. Na toalha não há nenhuma dobra ou amassado. Em cima do sofá as almofadas estão alinhadas. Sinais de que ali vive alguém um tanto quanto perfeccionista. Mas as portas e janelas abertas, por onde a brisa fresca entra na sala, os dois cachorros brancos sonolentos deitados na frente do sofá, os porta-retratos com fotos de família, tornam a casa de Deolinda Warmeneling Machado, a Deola, um convite para uma tarde agradável de conversa, risadas e emoção.

O cabelo é cortado logo abaixo das orelhas, as mechas pretas misturam-se às brancas, o que dá um aspecto acinzentado aos fios. Não usa maquiagem. Seu rosto enrugado quase desaparece diante dos olhos claros, que insistem em tentar se esconder, mas não conseguem. Não tem pressa em falar. Já viveu com o tempo escorrendo pelas mãos e hoje pode ser mais gentil e cuidadosa com ele.

Nascida em Mar Grosso, na cidade de Orleans, perto da Serra Catarinense, Deola veio ao mundo pelas mãos de uma parteira, o que era comum há 67 anos. É a caçula de 11 irmãos, dos quais somente quatro estão vivos. Desde cedo trabalhou na roça, com a família, em uma época que ela mesma descreve como o sol não sendo mais quente, mas os invernos muito mais frios e castigantes.

A necessidade de ajudar a família era importante, mas algo pulsava dentro dela toda vez que ia ao hospital, onde as irmãs trabalhavam na padaria. Era aquele ambiente que ela queria para a sua vida. E foi com essa vontade crescente de fazer parte de algo maior que aos 19 anos saiu de casa, partindo em direção ao litoral. Seu sonho a estava esperando a 222 Km de distância, no hospital da cidade de Tijucas.

Conseguiu o emprego com a ajuda de uma amiga da família. Logo no começo, com a orientação das freiras que trabalhavam lá, aprendeu o que precisava para manusear os apetrechos, a encontrar facilmente uma veia, mas, principalmente, aprendeu a acalentar o sofrimento do outro. Isto sempre foi o que mais lhe deu prazer e motivação para seguir na profissão. Depois de quatro anos trabalhando como enfermeira fez seu primeiro curso e, nas provas práticas, sempre ficava em primeiro lugar.

De tudo que viu e passou, Deola tinha apenas um medo, que se lembra até hoje: ter de atender algum familiar. Nesse momento é desconcertante imaginar alguém que ela ama sofrendo e saber que pode ajudar, mas, e se falhar? Conviver com pessoas que sentem dor tem seus momentos de glória e satisfação pessoal, mas também existe o fardo das lembranças e daqueles que nem sempre se consegue amparar.

Editada olhos

Foi em uma ocorrência no hospital que Deola conheceu seu futuro marido, Renato. Era um sábado à noite e ele voltava da missa no interior da cidade. No caminho para casa encontrou um homem com vários ferimentos, caído na rua. Deola e Renato trocaram olhares e antes de ir embora ele a chamou e disse que no domingo viria para eles conversarem. Aquela conversa durou mais tempo do que ambos imaginavam.

Tem aquele ditado que diz: “quem casa, quer casa”. Antes de se casar Deola morava em uma pensão. Para juntar um dinheiro extra, lavava e passava as roupas dos inquilinos e limpava alguns cômodos. Assim, o que conseguia economizar do seu salário no hospital e ganhar com os serviços na pensão ela guardava em uma lata de leite. Quando a lata encheu, foi ao banco e a abriu. Ali havia todo o dinheiro que precisava para que comprasse, à vista, uma casa, construída através de um programa do governo. Enfim, Renato e Deola se casaram, tiveram três filhos e uma neta.

A jovem que veio do interior alcançou o seu sonho, mudou o seu destino e foi o próprio fio condutor de sua vida. Tirou de suas escolhas o melhor que conseguiu e vive com a sabedoria de quem percebeu que existem vários caminhos e não apenas um.

“A base para um sono tranquilo é um dia de labuta repleto de atos de amor”
(Santa Madre Paulina, 1865 – 1942)

Doação.

Poderia ter sido apenas mais uma enfermeira. Não foi. Poderia ter passado todo o tempo depois do trabalho com os filhos. Não passou. Poderia ter escolhido o caminho mais fácil. Não escolheu.

Saía do hospital e ia para casa, uns vinte minutos de caminhada. Chegava, fazia o almoço para os filhos e… saía novamente. Agora para caminhos diferentes. Fizesse chuva ou sol ela pegava esses caminhos, que a levavam a seus pacientes. Nunca cobrou por seus serviços fora do hospital, recebia o que cada um queria ou podia lhe dar. Qualquer pessoa que a chamasse, que precisasse de injeção, banho ou companhia, ela se fazia presente, no menor tempo livre que tivesse. Tá aí um defeito, ou uma qualidade: Deola não sabe dizer “não”.

Coleciona histórias dos anos que se dedicou como enfermeira além das paredes do hospital. Foi cuidadora durante 12 anos de um senhor que, por causa de um derrame, perdeu a fala, o movimento de um braço e de uma perna. Nem todos os dias são fáceis. É difícil aceitar a velhice e o que vem com ela. É difícil se ver dependente de outra pessoa. Deola sabe disso, sempre muito compreensiva e atenciosa, manteve-se firme nos dias em que as dores físicas e espirituais de seus pacientes transbordavam, e não desistia deles. O mínimo retorno de que seu trabalho proporcionava alívio já bastava para ela continuar.

Era assim toda vez que ia tratar da mãe de sua vizinha. O sorriso da senhora irradiava pela pequena sala, assim que Deola passava pela porta. Na hora de ir embora ela dizia para a enfermeira: “Vai com Deus e dorme com os anjinhos”. Quando não podia mais falar, devido a uma traqueostomia, ela escrevia um bilhete com a mesma mensagem e deixava ao lado da cama, para que Deola visse.

Outra moradora do seu antigo bairro, que faleceu há alguns anos, sempre se referia a Deola como “anjo”. Não cansava de contar a história do dia em que a enfermeira descobriu uma gaze dentro de seu corpo, esquecida por um médico depois de uma cirurgia. Foram dias de dor e sofrimento, sem saber o motivo. Até que em um dia, numa troca de curativos, Deola viu um fio que saia da ferida. Decidiu puxar. Quando notou do que se tratava, nem uma nem outra acreditavam que pudesse ser verdade. Desde então virou o anjo daquela senhora, que fazia questão de presenteá-la sempre que podia e deu a Deola o maior presente que conhecia: suas orações.

Foram mais de 40 anos dedicados a amenizar a dor do próximo. Em 2014 ela decidiu que era hora de parar. Sente fortes dores no quadril o que a impossibilita de pegar peso, se agachar e fazer longas caminhadas. Vendeu sua casa e foi morar com a filha. Olhando para trás, Deola reconhece o trabalho que teve e as dificuldades que enfrentou, mas fala isso sorrindo lembrando dos dias de plantão no hospital e da alegria de seus pacientes em saber que aquele dia seria inteiro sob os cuidados dela. Se orgulha do que fez, está em paz consigo mesma.

Depois de tanta luta, pessoal e profissional, a senhora que cuidou e acalentou o sofrimento de várias pessoas pode, enfim, ter seu merecido descanso. Não o físico, mas o espiritual. Aquele que permite ficar de bem consigo mesmo. Feliz pela trajetória que tem, grata pelos amigos que conquistou e pelas vidas que ajudou. Quando o fim do dia chega ela tem a certeza de que não ficou devendo nada para ninguém, principalmente para si mesma.

Agora deve estar chegando a hora de ir descansar
Um velho sábio na Bahia recomendou: “Devagar”
Não posso me esquecer que um dia
Houve em que eu nem estava aqui
Se eu ando por aí correndo, ao menos
Eu vou aprendendo o jeito de não ter mais aonde ir
(Gilberto Gil, Cada Tempo em seu Lugar – 1989)

Presente.

Levanta do sofá e caminha, com passos lentos, até a porta que leva para a frente da casa. Uma parte de terra, com mais ou menos 5m², revela uma das paixões e passatempo dos dias de Deola. Seu canteiro. Planta morangos, aipim, algumas ervas, mas mostra com orgulho seus pequenos figos, que ainda não estão maduros. Ela dá uma olhada em todas as outras mudas, suspira e conta o quão prazeroso é ver aquelas plantas crescerem.

Editada montagem 01

Outro hobby é a costura, sua companheira de anos. Sempre fez alguns serviços para fora, um, conserto aqui e outra bainha ali, mas hoje é algo mais pessoal. Se gaba ao dizer que a única neta, Géssica, também gosta de uma máquina de costura e que é mais corajosa, não tem medo de arriscar e criar. A menina de 17 anos confecciona e vende laços infantis, conta que desde pequena se lembra da mãe e da avó trabalhando muito. Dentro de casa Géssica sempre teve os exemplos que precisava para saber que é dona do próprio destino.

A filha de Deola, Fabiana, tem como uma das lembranças mais fortes de sua infância os dias em que a mãe chegava do hospital, mas logo saía de casa para atender seus outros pacientes. Não importa o quão “atolada” de serviços no trabalho e em casa ela estivesse, Deola sempre dava um jeito de encaixar, nos tempos livres, alguém que precisasse de sua ajuda. Houve datas comemorativas que, para estar perto da mãe, os filhos passaram no hospital.

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Todo o esforço sempre valeu a pena. Os dias ausentes, os plantões, o tempo dedicado a seus pacientes. A mãe deu a seus filhos e à neta o que de melhor há: exemplo. De que com trabalho se conquista seus sonhos e com amor se conquista a paz. Não que ela não tem defeitos, a neta diz que Deola é teimosa e acha que com um bom chá tudo passa. É aquele velho ditado: casa de ferreiro, espeto de pau.

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