Bem-Estar

HIV/AIDS: O lado psicológico, a vida e a rotina

A rotina de um portador e como é levar a vida após o diagnóstico

Texto: Juliana Nascimento e Luzara Pinho
Imagens: Ministério da Saúde
Edição: Lucas Gabriel

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Foto: reprodução.

“A notícia me virou de cabeça para baixo, acho que foi um chacoalhão da vida me dizendo que eu deveria mudar meus hábitos. Nunca estamos prontos para isso e acredito que a superação vai acontecendo dia após dia, não é uma luta fácil”. As palavras registram a reviravolta na vida de A.M., de 25 anos, ao descobrir que era portador do vírus HIV. As mudanças na rotina foram pontos chave na vida do rapaz. Após o diagnóstico, no início de 2015, além de iniciar o processo de adaptação com os medicamentos, ele teve que readaptar seus hábitos.

Não é uma notícia que soa bem aos ouvidos e, segundo a psicóloga Giovana Delvan, as reações dos pacientes diagnosticados são diferentes. A profissional trabalha com a temática há mais de 20 anos, auxiliando na prevenção da doença e com pacientes recém-diagnosticados.

“A primeira reação é como uma bomba relógio, na hora do teste você fica ansioso torcendo pra que seja negativo. A partir daquele momento, você começa a pensar em como será sua vida, se você continua ou se entrega” -A.M.

Giovana também relata a apreensão dos pacientes com a reação das pessoas com as quais convivem, além do medo do preconceito. Hoje, a AIDS já não mata como antes, por isso, normalmente a primeira reação dos pacientes é a apreensão em compartilhar isso com a família. “Já atendi casos em que, ao descobrir a doença, os familiares do paciente passaram a separar roupas, talheres e outros objetos dos demais moradores de casa”, afirma a psicóloga.

A sociedade ainda carrega muitos tabus. Em pleno século 21, mesmo que a ideia pareça absurda, muita gente ainda não tem informações o suficiente a respeito da doença.

De acordo com dados do boletim epidemiológico publicado pelo Ministério da Saúde em 2015, no ranking das 100 cidades com mais de 100 mil habitantes, Itajaí está em 2º lugar na taxa de detecção do vírus em todo país. A pesquisa publicada em 2015 traz os dados dos anos de 2010 a 2014 e mostra que, desde 1980, a cidade registrou mais de 3.700 casos.

Leia mais no boletim da Secretaria de Vigilância em Saúde

Desde o início da epidemia até junho de 2012, o Brasil registrou mais de 660 mil casos de AIDS – condição em que a doença já se manifestou. A.M. está incluso nesses dados, que não são apenas números. São 660 mil histórias de vida diferentes, que em algum momento se deparam com a mesma realidade. E depois do diagnóstico, como lidar com isso?

A.M. recebe acompanhamento clínico psicológico periodicamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), além das medicações necessárias. Segundo ele, contar com um suporte emocional neste momento é indispensável. “Não costumo comentar muito com meus amigos, acredito que isso seja desnecessário, não gosto de me expor. Mas desde que soube da doença, contei muito com o apoio da minha mãe, ela me incentiva e muitas vezes não me deixa desistir. Porém, o medo do preconceito é constante”.

O tabu e o preconceito sempre existiram. Giovana explica que a discriminação vem desde os primeiros casos registrados, quando a doença foi, primeiramente, identificada em homens que se relacionavam com homens. Depois, em profissionais do sexo e também em pessoas que faziam o uso de drogas endovenosas. “Se ouvia que a AIDS era a doença que veio pra limpar o mundo pervertido e, inclusive, era visto como castigo divino”, explica.

Durante muito tempo essa representação da doença se manteve, até começarem os casos com crianças, a transmissão de mães para seus bebês, através de transfusão de sangue e até mesmo com mulheres que possuíam parceiro único, que adquiria a doença ao se relacionar extraconjugalmente. A partir daí alguns conceitos sobre a doença passaram a ser quebrados.

As campanhas feitas pelos órgãos de saúde na década de 90, passavam uma imagem amedrontadora da doença para a sociedade. Elas traziam frases de efeito e retratavam a doença como uma verdadeira vilã.

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Campanha de 2002 segmentada a “grupos de risco”.

A tática para conter os casos, no entanto, contribuía para o aumento do preconceito. Hoje, com o avanço da tecnologia, novas descobertas foram realizadas e acredita-se que muitos jovens tenham perdido o medo do contágio pelo fácil acesso à medicação e ao tratamento. Por isso, é necessário a conscientização e a realização de campanhas, que hoje focam na prevenção.

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Campanha do Dia Nacional de Combate à AIDS de 2016.

Quando questionado sobre o que mais mudou em sua vida depois do diagnóstico, A.M relata que a forma de olhar a vida agora é outra. “É como se você tivesse vendo a sua vida de fora, você observa os detalhes, aprende a dar valor em coisas que realmente importam. Percebi o quão frágil é a vida e como ela pode se acabar em segundos. No entanto, é preciso focar para continuar vivendo”.

E foi o que ele fez. Hoje A.M, que ainda está em processo de adaptação à medicação, conta que leva uma vida mais saudável e centrada. Ainda de acordo com Giovana, o primeiro passo para aceitação do diagnóstico é saber que a partir daquele momento o portador tem algumas limitações. “É como um diabético, ele não levará uma vida completamente normal, isso é enganação. Ele terá algumas rotinas a cumprir e se assim fizer poderá ter uma boa qualidade de vida. Não é o fim de tudo”, enfatiza.

“Não é nada fácil, às vezes eu fraquejo, tenho medo do futuro. Mas sigo a diante, tento levar minha vida: trabalho, estudo, tenho minhas atividades. Procuro ocupar a cabeça. Manter o psicológico firme é muito importante, tanto quanto cuidar do corpo”, salienta A.M.

Onde encontrar centros de apoio e diagnóstico na região

A fim de proporcionar suporte emocional e técnico a respeito da doença, os municípios de Itajaí e Balneário Camboriú realizam diariamente atendimentos e testes para diagnóstico de HIV/AIDS.

Em Itajaí:
Centro de Orientação e Diagnose Municipal (CODIM)

Serviços oferecidos: Programa de Hanseníase, Programa de Tuberculose, Projeto Bem Me Quer e Redução de Danos (DST AIDS), com consultas médicas nos programas e remédios na farmácia central do município.
Endereço: R Felipe Schimdt, s/n – Centro
Fone: (47)3908-5648
Horário de atendimento: das 7:00 às 19:00h, de 2ª a 6ª feira
Endereço eletrônico: codim@itajai.sc.gov.br

Centro de Referência de Doenças Infecciosas (CEREDI)

Serviços oferecidos: clínica geral, pediatria, ginecologia, odontologia, enfermagem, planejamento familiar, preventivo do câncer, hematologia, pneumologia, farmacêutico, infectologia, psicologia, fisioterapia, assistente social, transmissão vertical, assistência domiciliar terapêutica, imunização, internação de crianças e adultos (somente durante o dia).
Endereço: Rua: Samuel Heusi, 120 – Centro
Fone: (47) 3908-5726

Horário de atendimento: das 7: 00 às 19:00h, de 2ª a 6ª feira
Endereço eletrônico: ceredi@itajai.sc.gov.br

Em Balneário Camboriú:
CISS/CTA

O Centro Integrado Solidariedade e Saúde (CISS), é a Unidade de saúde especializada no atendimento de HIV/AIDS e co-infecções (tuberculose, hepatites e doenças sexualmente transmissíveis). Presta assistência com equipe multidisciplinar, formada por clínicos gerais, ginecologista, infecto-pediatra, infectologista, dermatologista, urologista, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais.

Já, o Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA), atua na prevenção das Doenças Sexualmente Transmissíveis e HIV/AIDS, realizando atividades informativas em campanhas, ações e projetos de prevenção. Disponibiliza aconselhamento e testagem para HIV, sífilis e hepatites B e C.

 Telefone: (47) 3360-0309

Para preservar a identidade da fonte, a edição optou pelo anonimato.

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