Bem-Estar

Glúten e Lactose: Até que ponto as dietas restritivas fazem bem à saúde

POR SAÚDE OU VAIDADE: AS DIFERENÇAS DAS RESTRIÇÕES
Texto: Mariana Ricardo e Thamiriz Garcia

Sem glúten e sem lactose. Esse aviso nos rótulos tem feito brilhar os olhos de quem está sempre atrás de novas dietas e métodos possíveis para auxiliar na busca pelo emagrecimento e hábitos de vida saudável. Mas engana-se quem acredita que retirar esses nutrientes da alimentação possa resultar positivamente na perda de peso. As consequências vão muito além da estética.

De acordo com pesquisa da consultoria Euromonitor, o Brasil está no topo dos países da América Latina no crescimento do mercado de produtos especiais e funcionais, o que representa 17% do total, faturando 45 bilhões de dólares. Com o aumento das vendas em 98%, o mercado desses tipos de alimento, como os sem glúten e sem lactose, vêm crescendo nos últimos cinco anos.

A nutricionista Aline Ogata conta que hoje em dia os pacientes chegam ao consultório confiantes de que o glúten e a lactose são os vilões na busca pela perda de peso, mesmo sem um diagnóstico clínico. “É algo preocupante porque esse modismo está chegando a extremos bem prejudiciais à saúde. Por isso lembro sempre que a gente nasceu com essas enzimas e, se a gente nasceu com elas, é porque servem para alguma coisa. Eu não acredito que o caminho seja realmente cortar esses nutrientes.”

Aos 18 anos, Bruna Brust tem se esforçado para emagrecer. Adepta das dietas por conta própria, está sempre em busca de informações na internet. Ela conta que, influenciada por seus blogs favoritos, evita consumir alimentos que contenham glúten ou lactose. “Entro no mercado e vou direto para as prateleiras de produtos funcionais. Quando encontro um bolinho sem glúten fico toda feliz!”.

A nutricionista acredita que um dos principais problemas hoje é que muitas blogueiras, celebridades e nutricionistas que escrevem livros apoiam essas dietas restritivas. Uma pesquisa simples realizada em um supermercado apresentou a diferença nos valores de um mesmo produto em sua versão comum ou zero lactose/ sem glúten. Confira o infográfico abaixo:

O nosso organismo é composto por enzimas digestivas específicas para cada tipo de alimento. O glúten é uma proteína presente em alguns carboidratos e a enzima responsável por digerir esse nutriente é a gliadina. Já a lactose é o açúcar do leite e a enzima responsável por digeri-la é a lactase. Algumas pessoas nascem com a ausência ou ineficiência dessas enzimas. É aí que surgem a intolerância à lactose e a patologia conhecida como doença celíaca. Muitas pessoas conhecem a doença celíaca como intolerância ao glúten. De acordo com o gastroenterologista Fangio Ferrari, o termo ‘intolerância’ é incorreto. “O correto é sensibilidade ao glúten, que corresponde àquele paciente que não apresenta doença celíaca na investigação complementar, porém não tolera alimentos com glúten. O tratamento nestes casos é o mesmo”.

A pessoa diagnosticada com intolerância à lactose sente muito desconforto e dores abdominais, além de gases, distensões e oscilação entre constipação, que é a famosa prisão de ventre, e diarreia. Os sintomas, diferentemente do que acontece com o glúten, são instantâneos. Os intolerantes à lactose apresentam a rejeição assim que ingerem o nutriente. O celíaco tem consequências que vão além do aparelho digestivo e que podem aparecer com o passar dos dias após a ingestão. O glúten pode provocar diversas doenças dermatológicas, como psoríase, dermatite e perda de cabelo. Em alguns casos, a longo prazo, pode-se desenvolver inflamações muito graves no intestino, desencadeando um câncer.

Fabielli Gazaniga, 24 anos, descobriu ser intolerante à lactose e alérgica ao glúten. Ela foi ao médico em janeiro desse ano após engordar bastante em pouco mais de um mês e reparar que alguns alimentos não faziam bem ao seu organismo. O diagnóstico foi positivo e a reeducação alimentar foi mais do que necessária, foi fundamental para reorganizar o funcionamento do corpo. “Vi minha rotina de uma vida ter que ser mudada de um dia para o outro”. Na rede social Snapchat Fabielli já costuma contar um pouco sobre sua adaptação. Incentivada pela reportagem, ela mostrou como é o sua nova rotina de celíaca e intolerante a lactose, você confere o resultado no vídeo abaixo:

No caso de Fabielli, os sintomas variavam de dor de cabeça, vômito e diarreia, até mesmo a desmaios. A solução foi tratar imediatamente. Por conta de uma ferida no estômago, ela apresentou quadros de gastrite e refluxo. Em relação à doença celíaca, o tratamento é exclusivamente dietético (zero glúten), regenerando o intestino e proporcionando uma melhor qualidade de vida para o paciente. Por isto, na suspeita de doença celíaca ou intolerâncias alimentares, o profissional gastroenterologista deve ser procurado, explica o médico.

Há uma regra conhecida como do uso e desuso. O corpo produz essas enzimas específicas para poder digerir nutrientes como o glúten e a lactose. De acordo com a nutricionista, se você deixa de ingerir esses nutrientes acontece uma atrofia das enzimas. É como uma máquina, se fica sem trabalhar, estraga, para de funcionar. Se o nutriente não entra no organismo, não tem porquê produzir enzima. Por isso, a especialista alerta sobre o risco de retirar os nutrientes da alimentação por conta própria, sem um diagnóstico. “O quadro do intolerante a lactose é reversível, o do celíaco não”.

Além disso, Aline salienta que os alimentos sem glúten, na maioria das vezes, são produzidos com um número bem significativo de calorias, vindo das gorduras e de outros carboidratos. Por este motivo, ele pode ser um produto mais calórico, então para quem faz uma dieta de emagrecimento, o indicado é sempre ficar de olho na tabela nutricional para conferir os índices de gordura e sódio, muito mais do que o de glúten e lactose.

Para o médico gastroenterologista, esse boom sobre glúten e lactose não se trata de modismo. Ele acredita que a doença celíaca, por exemplo, sempre existiu, porém era pouco diagnosticada. “Com o passar dos anos, a evolução dos exames complementares nos permitiu realizar cada vez mais este diagnóstico, colocando assim a doença em maior evidência, alvo de maior número de suspeitas em consultas”.

Seja por influências estéticas ou preocupação com a saúde, todo e qualquer tipo de dieta alimentar deve ser acompanhado por especialistas, assim como sintomas de alterações no funcionamento do organismo. Antes de mudar seus hábitos, é importante compreender a consequência de seus atos.

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