Cidades

Sem lugar no paraíso

Ao se movimentar do banco do carro à cadeira de rodas, na Praia do Molhe, em Itajaí, Suzana Cristina da Silva se depara com os problemas existentes num cenário desfavorável aos deficientes físicos que buscam lazer nesses locais.

Com belezas naturais conhecidas em âmbito nacional, Itajaí e Balneário Camboriú deixam a desejar pela falta de praias com orlas adaptadas às pessoas com deficiência física. Poderes públicos dos municípios possuem ações direcionadas, mas apenas na temporada.

Texto e fotos: Andressa Zuffo e Thiago Júlio
Edição: Schaline Rudnitzki

Ao se movimentar do banco do carro à cadeira de rodas, na Praia do Molhe, em Itajaí, Suzana Cristina da Silva se depara com os problemas existentes num cenário desfavorável aos deficientes físicos que buscam lazer nesses locais. Até o deck, obstruído pelo homem e pela natureza ao longo do tempo, o caminho é pavimentado, destinado ao estacionamento de veículos. Uma rampa pequena, próxima a uma placa que sinaliza a existência de internet gratuita, custeada pela prefeitura, possibilita a subida à estrutura de madeira e outra, mais larga e comprida, a descida até a faixa de areia.

Cadeirante desde 2004, em decorrência de um acidente durante um exercício físico em academia, a ex-atleta precisou se adaptar a novas realidades. Ir à praia, mesmo com uma frequência inferior a de quando praticava atletismo e desfilava por hobby, é um exemplo. Apenas com a força dos braços, limpando as mãos constantemente, Suzana consegue se mover por aproximadamente 15 metros até que a cadeira trava na areia e ela, precisa do auxílio de alguém para se aproximar do mar.

— A rampa poderia chegar à parte da areia mais densa, onde a cadeira circula com menor esforço. Isso não ajudaria só deficientes físicos, ajudaria qualquer um. Uma família poderia, ao longo do trajeto, limpar o corpo e ir embora. Não seria algo unilateral. Além disso, quem não adquiriu independência [com a deficiência], com certeza tem dificuldade para fazer isso que faço — aponta.

A questão de acessibilidade, em Itajaí, traz à tona especificidades de cada uma das praias principais. De superfície plana, a Brava teve a implantação de passarelas em rampas em toda sua extensão. São mais de 15, feitas de madeira, com aproximadamente 54 metros de comprimento e 1,5m de largura. Distribuídas em ambos os lados da orla, dividida pela Lagoa do Cassino, as estruturas apresentam situações distintas. Algumas estão em ótimo estado e, assim, ligam a calçada à faixa de areia, com subidas e descidas apropriadas para deficientes físicos. Outras, por sua vez, estão danificadas, inacabadas e com obstáculos que travam a locomoção das cadeiras.

Praia da Solidão e Canto do Morcego, ao lado da Brava, possuem chegada limitada às trilhas ou caminhada sobre pedras – realidade inviável para um deficiente físico. Em Cabeçudas, a administração pública não pôde fazer alterações que passassem do meio fio. Rossana Ferrari Scolaro, arquiteta contratada pelo município, comenta que isso se deu “em razão de questões que envolvem a Superintendência do Patrimônio da União (SPU)”. Mas, apesar de aperfeiçoamentos, irregularidades podem ser percebidas ao longo de uma caminhada. No início da praia, sentido à Capela Santa Teresinha, o rebaixamento da calçada, recentemente revitalizada, possibilita o acesso a ela.

Projetada com dois tipos diferentes de pisos, a calçada também gera problemas, já que um deles possui buracos que prendem as rodas das cadeiras. Para a extensão de areia, a passagem é feita por meio de uma das cinco escadas dispostas pelo caminho. Só que, ainda assim, duas estão soltas, desafixadas da estrutura. No fim do percurso, uma rampa próxima à igrejinha, após o desembocar da vala, foi projetada até a margem do mar, mas para embarcações.

Próxima ao Bico do Papagaio, a Praia de Geremias possui acesso limitado a uma escada. A estrutura, com degraus quase cobertos pela mata que a cerca, termina em um monte de pedras tocadas pela maré. Já em ambas as entradas da Atalaia, o alcance a faixa de areia é feito pela descida de morrarias íngremes. Com espaços específicos destinados aos pedestres, contendo cerca de 30 centímetros de largura, e veículos, as ladeiras possuem desníveis e não apresentam o acabamento necessário.

— Todas as praias possuem suas peculiaridades e foram adaptadas de acordo com os terrenos. Além disso, está em andamento um desenho universal, uma revitalização, do trajeto entre a Beira Rio e a Praia de Cabeçudas. Mas, não há nenhum projeto em execução ou análise voltado às praias — salienta Rossana.

A restruturação visa unificar o trajeto com a implantação de pisos podotáteis que facilitam o caminho de deficientes visuais. Só que, mesmo ainda em andamento, é perceptível que a adaptação acontece de maneira desarmônica. Ora num lado da Rua Deputado Francisco Evaristo Canziani, ora no outro que dá acesso às praias, em ambos ou em nenhum.

 

Balneário tem praia adaptada, mas não resolve o problema

Ir à praia durante o inverno foi uma das alternativas que Suzana encontrou para não perder o contato com uma realidade que tanto ama. Durante um passeio com uma amiga pela Central, em Balneário Camboriú, ela decidiu se mover pela faixa de areia pela primeira vez, mesmo ciente das possíveis dificuldades de retorno.

— Balneário se destaca pelo fato de, pelo menos em vários trechos da praia, ter uma rampa de acesso. Não sei qual foi a iniciativa, mas é útil — ressalta.

Por conter muitas travessias elevadas alinhadas às faixas de pedestres, e até rebaixamentos da calçada, o cruzamento da Avenida Atlântica com a Central não causa transtornos. Além disso, na prolongação da praia, a prefeitura estruturou cerca de 90 rampas que possibilitam o acesso à areia. Feitas de concreto, construídas geralmente anexas ou ao lado de chuveiros, quiosques, barracas e canchas de bocha, vão do início da pavimentação, no Pontal Norte, até aproximadamente a Rua 3600. Daí em diante, nota-se, até a Barra Sul a não continuidade do trabalho.

Em parte do caminho no sentido sul, especificamente entre os chuveiros 38 e 49, a faixa de areia tem a mesma altura da calçada, o que torna, ali, desnecessário o uso de rampas. Entretanto, desse ponto até o fim, o nível entre elas volta a ser díspare e requer a implantação de novas estruturas. A reportagem tentou contatar o secretário de Obras do município, Fábio Flor, mas até a data da publicação não obteve respostas.

Outros pontos negativos também existem. Em frente ao Hotel San Remo, uma árvore prejudica a passagem. Além disso, existem rampas curtas, inclinadas e algumas, incorporadas aos chuveiros, tomadas por areia. Areia que, em contato com a água, vira barro. Dois casos de rampas feitas com madeira também são encontrados no trajeto, pouco antes da Rua 3000.

Dê zoom no mapa para visualizar as áreas com rampa de acesso à areia. Ao passar o mouse, é possível detectá-las, além de locais próximos que facilitam o passeio pela praia Central.

Quanto às praias agrestes balneocamboriuenses, outras particularidades também são notadas. Interligadas pela rodovia Interpraias, com mais de 14 quilômetros de caminho, todas têm acessos diferenciados. Estaleiro, Estaleirinho e Laranjeiras são localizadas em meios a ruas e extensões de terra. Em Taquarinhas, o acesso é feito pela descida de pedras. No caso de Taquaras, pequenas entradas, entre a mata, possibilitam o alcance da faixa de areia. Já para chegar à Praia do Pinho, conhecida nacionalmente por ser pioneira em matéria de naturismo, existem duas possibilidades: passagem principal ou trilha.

De volta ao norte da cidade, um deck ao lado da Praia Central possibilita o acesso à Prainha e à Praia do Buraco. Construído de madeira, entretanto, também apresenta problemas. Adaptada à natureza da região, a estrutura possui subidas de rampas inclinadas, intervenções de galhos de árvores, danos causados por frequentadores, descidas à faixa de areia apenas por escadas e o fim do deck sem acabamento, com descida sobre pedras.

 

Projeto garante contato de deficiente com o mar em Itajaí

Para se adequar à situação, órgãos públicos realizam atividades de lazer na praia durante a temporada, junto a associações para deficientes físicos. Projetos como o “Rodas ao Mar”, organizado pela prefeitura de Itajaí, e o “Vida na Praia”, iniciativa da Associação das Pessoas com Deficiência de Itapema, Familiares e Amigos (ADI), reacendem o contato de cadeirantes com o mar. Com o uso de cadeiras anfíbias, atletas voluntários e salva-vidas levam os cadeirantes até a areia e, em seguida, ao mar.

Em Itajaí, o projeto é uma iniciativa da Fundação do Esporte e Lazer (FMEL). Nos dois primeiros meses do ano, sete encontros aos sábados, na Praia do Molhe, contemplaram a ação. Três cadeiras anfíbias foram utilizadas para a movimentação. Fora de temporada, estas ficam guardadas na sede da Fundação.

— A ideia era deixar nos postos de guarda-vidas, a fim de utilizar em qualquer período, mas a estrutura é aberta. Além disso, pretendemos adquirir mais cadeiras, expandir o projeto e, assim, começar a disponibilizá-las nas bases que passarão a ser fechadas — comenta Aline Barros, coordenadora do projeto.

Em Balneário Camboriú, com parceria da Associação de Apoio às Famílias de Deficientes Físicos (Afadefi), a Fundação Municipal de Esportes oferece escolinhas esportivas, mas não na faixa de areia. Dentre as modalidades ofertadas estão atletismo, bocha adaptada e futsal para deficientes auditivos. No entanto, após solicitações da entidade, a prefeitura irá adquirir cadeiras anfíbias para execução de um trabalho similar ao “Rodas ao Mar”. Sem data definida para implantação, os equipamentos estão em fase de licitação.

Como funcionam as associações na região?

Instituições como a Afadefi, de Balneário Camboriú, e a Associação dos Deficientes Físicos de Itajaí (Adefi) buscam garantir o direito de cidadania aos integrantes. Atendimentos médicos, assessoria jurídica, confecção de carteira para transporte público, inserção em campeonatos paradesportivos e encaminhamento para o mercado de trabalho são algumas das ações disponíveis. Mas, além disso, pouco é levantado em questões como a das praias.

— As atividades são de artesanato ou competitivas. E, quando entrei, não quis nenhuma das duas coisas. Eram atividades que não me despertavam interesse. Não posso dizer que o que a associação faz é bom ou não, mas são atividades que não pegam todos os perfis de cadeirantes. Parece que eles [gestores] têm mais interesse no deficiente para levá-lo a competir. Eu vejo, por exemplo, a associação muito competitiva ou muito assistencialista. Não um órgão que venha a buscar espaço ou lutar pelo direito do deficiente — pontua Suzana.

Em Balneário Camboriú, a Afadefi recebe repasses mensais da Secretaria de Inclusão e Desenvolvimento Social. O dinheiro é direcionado a estrutura, pagamentos de funcionários e compra de materiais de escritório. Questionado quanto a projetos internos, Valdecir Matias, coordenador da instituição, comenta que, além da solicitação já acatada pelo município, nada está em andamento.

Aventureira por natureza, Suzana, após a paraplegia, já andou de caiaque, fez rapel e tem carteira para prática de natação. Para ela, uma alternativa simples poderia melhorar a acessibilidade nas praias, principalmente na faixa de areia.

— São pequenas coisinhas, que dá para fazer. Uma extensão maior da rampa que passasse pela areia fofa já te permitiria chegar à parte batida e a cadeira conseguiria circular melhor — finaliza.

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