Opinião

A Garota Dinamarquesa: Um tema que merece ser debatido

Filme conta a história de uma das primeiras transsexuais a se submeter à cirurgia de mudança de sexo

Texto: Mariana Campos
Foto: Universal Pictures

O filme já dá o que falar antes mesmo de entrar em cartaz. Como todo filme indicado ao Oscar, “A Garota Dinamarquesa” chama a atenção do público em potencial apenas por esse fato. Porém, o tema – polêmico, mesmo em um época que deveria ser menos conservadora -, diversas inconsistências históricas e a escolha de atores são outras razões para o filme ser muito comentado antes de ser visto.

A adaptação do livro homônimo de 2002, escrito pelo americano David Ebershoff, retrata a pintora Lili Elvenes (que no filme é Elbe), uma das primeiras pessoas a se submeter à cirugia de mudança de sexo. Isso foi suficiente para banir o filme das salas de cinema de países da Ásia e do Oriente Médio. Mas nem precisamos ir tão longe. Em Florianópolis, por exemplo, foi necessária uma mobilização Associação de Direitos Humanos com Enfoque na Sexualidade (Adeh) e a publicação de uma carta de repúdio para que o longa chegasse à cidade, uma semana depois de outras capitais brasileiras.

O filme é divulgado como uma história verdadeira, o que sempre dá um destaque à trama. Filmes baseados em fatos reais estão em alta, com grandes nomes como “A Teoria de Tudo” – que também é protagonizado por Eddie Redmayne (um homem cisgênero, e não trans. Mais um assunto delicado). Mas não se trata de uma biografia e sim de uma narrativa inspirada pela vida da pintora dinamarquesa. Portanto, não totalmente real.

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Gerda Wegener e Lili Elvenes, protagonistas do longa.

Contra todas as adversidades, no entanto, o filme começa a passar no Brasil. Foi lançado na maioria dos locais no dia 11 de fevereiro de 2016 e continua em cartaz nos cinemas.

Até estar bem próximo ao horário de início da sessão, minha irmã e eu permanecemos as únicas na sala de cinema, no Beira-Mar Shopping de Florianópolis. As cadeiras são ocupadas por nós, um casal de idosos, um casal adulto e mais um grupo com três pessoas adultas. E pronto. O resto dos assentos fica vazio. E nós continuamos sendo as mais novas entre os presentes. Fica aquela sensação de que poucos jovens se interessam por um tema como esse. Pior: poucas pessoas.

A cinematografia chama atenção logo de cara: locais de filmagem lindos de ver, que rendem belas imagens, misturadas com um olhar delicado, diferente. Há muitos detalhes no modo como a câmera capta as cenas, inclusive – talvez principalmente – durante os momentos mais reveladores e de mais intimidade entre as personagens. O equipamento age como os olhos de quem está assistindo, acompanha movimentos e faz parecer que fazemos parte da cena. Dá para imergir na história, que prende a atenção até o grande final.

Pelo fato de eu não costumar assistir a muitos filmes do gênero drama, a sessão parece demorar muito para passar. Isso não significa que o filme é ruim. Muito pelo contrário. Diferentemente dos filmes de ação, que passam sempre em um piscar de olhos, os dramáticos fazem parecer que você está vivendo aquele momento com os personagens.

Como espectador, você se vê envolvido na batalha de Einar Wegener e Lili Elvenes. Passa tanta emoção que você até quase sente aquele sofrimento. E você sofre por Gerda Wegener também, a esposa que tenta ter uma mente aberta em relação a tudo, mas por vezes se vê sem saber como proceder. Isso é comum de acontecer na vida real.

Apesar de todas as críticas – que são muito pertinentes e, com certeza, não serão desconsideradas -, a verdade é que o filme é bom. Muito bom. Trata de um tema que realmente precisa ser falado – e isso por si só já é um grande acontecimento. Utiliza uma linda cinematografia, atores talentosos e cenas tocantes, envolventes e, por vezes, muito reais. Eddie Redmayne – a quem eu sempre admirei profissionalmente – abraçou a causa e fez um belo trabalho junto com a revelação Alicia Vikander, no papel de Gerda, o que a rendeu um Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Eles mostraram a importância e o impacto que esse assunto pode trazer.

Confira o trailer do filme:

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